Daniel Sá
Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

O futebol português não sabe vender o drama

O futebol português tem um problema que se repete todos os anos. E não tem a ver com quem ganha o campeonato. Tem a ver com tudo o resto que ninguém consegue transformar em produto. Este fim-de-semana foi o exemplo disso mesmo.

Enquanto se celebram títulos, com o FC Porto, Marítimo e Amarante a fecharem a época com números dominantes e claros, há uma outra competição a decorrer em paralelo, muito mais emocional, imprevisível e, paradoxalmente, muito menos explorada: a luta pela sobrevivência. Jornadas finais com equipas a depender de terceiros, decisões no último minuto, clubes históricos a viver no limite. Tudo aquilo que, noutros mercados, seria ouro puro.

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Em Portugal, é ruído e não tem a atenção que merece. Basta olhar para o que aconteceu nesta reta final de época. Equipas a garantir manutenção no limite, outras a cair mesmo depois de vencerem e play-offs decisivos a definir quem fica nas principais divisões do futebol português. Isto não é um detalhe competitivo. Isto é conteúdo premium. É tensão narrativa no seu estado mais puro. É o tipo de produto que, bem trabalhado, prende audiências globais.

Mas não prende. Porque não existe enquanto produto. Liga e Federação continuam algo presas a uma lógica antiga: vender o topo e ignorar a base. Benfica, Sporting e FC Porto concentram atenção, seguidores, media e patrocinadores. Tudo o resto é tratado como contexto. O problema é que, num mercado saturado de futebol global, três clubes não chegam para sustentar um produto competitivo relevante.

As grandes ligas perceberam isto há muito tempo. A Premier League construiu parte do seu valor precisamente na incerteza da cauda da tabela. Cada jogo da luta pela manutenção é apresentado como um evento. Há storytelling, há dados, há personalização, há emoção amplificada. Não é um detalhe do campeonato. É um dos seus principais ativos.

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Em Portugal, continua a ser um subproduto. E isso é tanto mais paradoxal quanto sabemos que o conteúdo existe. Há clubes com história, comunidades locais fortes, rivalidades regionais e contextos dramáticos reais. Há jogadores a jogar a carreira num jogo. Há treinadores que sabem que 90 minutos definem anos de trabalho. Há cidades inteiras suspensas de um resultado.

Mas não há produto. O mais interessante é que, do ponto de vista do marketing, esta é talvez a oportunidade mais óbvia e menos explorada do futebol português. Num momento em que a atenção está fragmentada e a concorrência não vem apenas de outras ligas, mas de todas as formas de entretenimento, o que diferencia não é a qualidade média, mas sim a intensidade da história.

E poucas histórias são mais intensas do que a sobrevivência. A luta pelo título tende a ser previsível. Este ano voltou a ser. A luta pela permanência, não. E é precisamente essa imprevisibilidade que poderia ser capitalizada. Jogos em simultâneo, classificações a mudar em tempo real e decisões nos últimos minutos.

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Hoje, a luta pela manutenção não tem identidade própria. Não tem naming. Não tem narrativa agregadora. Não tem exploração digital relevante. Não tem posicionamento internacional. Existe apenas para quem já está profundamente envolvido no ecossistema.

E isso é desperdiçar valor. Porque o futuro das ligas médias, como a portuguesa, não passa por competir com a Premier League ou a La Liga na qualidade média ou nos direitos televisivos. Passa por encontrar ângulos únicos de diferenciação. Passa por transformar aquilo que já têm, mesmo que imperfeito, em algo consumível, relevante e emocionalmente poderoso.

A luta pela sobrevivência é um desses ângulos. Num campeonato onde o campeão é muitas vezes previsível, talvez o verdadeiro produto nunca tenha sido quem ganha. Sempre foi quem resiste.

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Por Daniel Sá
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