À espera do avião
A zona de chegadas do aeroporto é um local repleto de sentimentos profundos. Por ali viajam a alegria do regresso, a tristeza da partida, os abraços calorosos para os que voltam e as lágrimas de saudade pelos que vão embora. Um espaço de ternura. Tão bem descrito na narração inicial do filme Amor Acontece: "Sempre que fico triste com o estado do mundo, penso na zona de chegadas do aeroporto de Heathrow. A opinião geral é a de que vivemos num mundo de ódio e ganância, mas não penso assim. Parece-me que o amor está em todo o lado. Na maior parte das vezes não é particularmente dignificado ou noticiado mas está sempre lá. Pais e filhos, mães e filhas, maridos e mulheres, namorados, namoradas, velhos amigos."
Uma visão bonita do mundo. Mas o amor não está em todos os aeroportos. Não esteve em Heathrow, na quarta-feira, quando o FC Porto regressou de Londres depois de ser eliminado da Champions pela Chelsea. E nem estava no Aeroporto Sá Carneiro, horas depois, quando a equipa chegou a casa. Em vez do amor, sobrava ira, contestação, insultos, assobios. Todos dirigidos a um só homem.
Julen Lopetegui, por estes dias, não sente qualquer paixão dos adeptos do seu clube. Está muito longe do argumento de Amor Acontece. E bem mais próximo de ser uma personagem como a de Joaquin Phoenix em Gladiador. O imperador Commodus tem o poder de ocupar o cargo, mas não é respeitado pela sua população. Nem recebe o amor da sua irmã. É visto como alguém sem as competências necessárias para liderar. Um sentimento que aumenta por cada vez que ele regateia esse respeito.
O treinador do Porto também considera que merece bem mais do que lhe têm dado. Especialmente da parte da comunicação social portuguesa com quem tem mantido uma relação de altivez desde o primeiro dia. Mas falta mostrar que tem mãos para tocar a guitarra que lhe deram. Para a realidade portuguesa, o Porto das duas últimas épocas é uma Gibson Les Paul. Com jogadores internacionais em todos os setores. Com tanta abundância de qualidade. Era o melhor plantel da última época, mas acabou com "zero tituli", como diria Mourinho. Volta a ser o melhor plantel da atual temporada mas já está fora da Champions. Um grande objetivo da sua direção. Um grande objetivo de Pinto da Costa. O único que ainda não o deixou cair, embora os braços já comecem a ficar fracos devido ao peso que o espanhol insiste em fazer.
Lopetegui ainda pode ganhar tudo, claro. Mas não assim. Não a mudar as cordas, as afinações, os pedais e os músicos por cada vez que vai dar um concerto. E não deve reagir com tanta arrogância sempre que é confrontado com as suas decisões que redundam em insucessos. Não pode agir como se tivesse chegado a Portugal depois de ter ganho todas as competições importantes. Lopetegui é amigo de Guardiola. Não é Guardiola. Não é Mourinho. Não é Villas-Boas. Nem sequer Vítor Pereira. Tem muito mais do que estes tiveram. Menos as vitórias. Menos o carinho, respeito e amor que vem com essas conquistas. Por este andar, o treinador do Porto há de voltar a ter muita gente à sua espera no aeroporto. Adeptos aliviados por se despedirem dele quando apanhar o avião de regresso a Espanha. E nessa altura a Les Paul passará para as mãos de outro. A menos que ele aprenda a tocar uma música de princípio ao fim sem querer tocar tudo ao mesmo tempo.
