Off the record

Luís Aguilar
Luís Aguilar

Iker, uma boa pessoa

Descontem-se algumas perguntas de algibeira, a banda sonora lamecha, o teatrinho de dois homens que fingem não saber cozinhar ovos com batatas e o comentário machista do apresentador Bertín Osborne para Sara Carbonero: "Tu que percebes disto, como achas que estão estas batatas?" Afastemo-nos de tudo isto e fiquemos com o testemunho direto, íntimo e tranquilo de Iker Casillas no programa da TVE, En la tuya o en la mía.

O guarda-redes do FC Porto abriu as portas da sua bonita casa, na Foz, e voltou a mostrar que também sabe ser grande fora do relvado. Foi apenas isso que ele pediu na hora da sua emocionada despedida do Real Madrid: não ser recordado como um bom ou mau guarda-redes, mas apenas como uma boa pessoa. Casillas continua a ser uma exceção num futebol tantas vezes povoado de popstars da treta, com penteados decorativos, diamantes à vista e discursos insuflados de egocentrismo.

Campeão do mundo, bicampeão da Europa, um dos jogadores mais titulados e consagrados da história do futebol. E, mesmo assim, simples. Humilde. Sem necessidade de falar mal de alguém para se sentir melhor. Sem guardar rancores, sem precisar de ajustar contas. Nem mesmo com Mourinho (e tinha razões para isso). "Só lhe desejo saúde, que é o mais importante." Pelo meio lá deixa escapar que estava a ficar jodido com os constantes ataques do treinador português na imprensa. Mas tudo passou e a vida continua.

Fotografia de um homem com as questões arrumadas, feliz por estar no Porto, numa nova cidade, numa nova equipa. Com a mulher Sara, o filho Martín e uma filha a caminho. Deixa o futuro no seu lugar. Sem planos. Apenas com vontade de desfrutar o momento. Aos 34 anos, espera jogar mais. Não sabe quanto tempo. Nem quer saber. Mas sabe que um dia acaba. E já fala dos seus feitos com saudade e boa-disposição: "Quando vi Robben isolado, passaram-me mil coisas pela cabeça", confessa para descrever a defesa mais importante da história do futebol espanhol, na final do Mundial de África do Sul. Aos 60 minutos, o jogo estava empatado a zero e foi sapatada de Casillas que manteve a Espanha viva, rumo ao prolongamento e ao golo de Iniesta. Esse "momento mágico", como descreveu: "Recordo e fico com pela de galinha num instante."

São duas horas e meia de conversa franca. Um estilo habitual em Espanha, mas quase inexistente em Portugal. E que bom seria ver jogadores portugueses no mesmo registo. Mas a culpa não é só deles. Num país que resume o futebol aos Conselhos de Justiça, Disciplina e Arbitragem, é natural que muitos achem não valer a pena aparecer para falar do jogo, das emoções que viveram no campo e das suas histórias de vida. Por isso, temos de nos contentar com os jogadores estrangeiros e programas espanhóis ou de outros países. Ainda assim, são uma alternativa bem melhor a alguns pit bull sem açaime que desfilam pelas televisões portuguesas. Sem ofensa a essa raça canina.

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