Luís Aguilar
Luís Aguilar

O culto da violência no país que organiza o Mundial de 2018

Fixem este nome: Igor Lebedev. Trata-se de um idiota. Pior ainda: um idiota com responsabilidades. É membro do comité executivo da Federação Russa de Futebol (RFS) e vice-presidente no parlamento do seu país. Além de tudo isto, é uma besta. Assim. Com todas as letras.

Após os confrontos de Marselha entre russos e ingleses, este dirigente utilizou a sua conta de twitter para lançar diversas pérolas de estupidez: "Não vejo nada de condenável nas lutas entre adeptos. Pelo contrário, dou os parabéns aos nossos rapazes! Continuem! Defenderam a honra do nosso país. Não percebo como é que existem políticos e dirigentes a condenar os nossos adeptos. Temos de protegê-los e compreendê-los."

Lebedev é um alto dirigente da nação que se prepara para receber o Mundial de 2018. E o mais grave é que não é caso isolado neste tipo de mentalidade. Vitaly Mutko, ministro dos desportos e membro do comité executivo da FIFA, até veio dizer que "os adeptos violentos trouxeram vergonha ao país", mas não se coibiu de ir ao meio do relvado do Vélodrome, logo após o empate entre as seleções de Inglaterra e Rússia, aplaudir os adeptos russos. Enquanto batia palmas, alguns dos seus compatriotas radicais varriam uma bancada de ingleses na maior demonstração de violência que já teve lugar num estádio de futebol durante uma fase final de um Europeu.

Quem também anda por França nestes dias é Alexander Shprygin, conhecido rosto do movimento nazi russo e presidente da associação de adeptos do país, a qual ele próprio fundou em 2007. Já foi fotografado a fazer a saudação nazi e aparece em vários eventos ao lado de Vladimir Putin e de Mutko. Numa entrevista chegou a dizer que gostaria que a seleção russa de 2018 tivesse apenas "caras eslavas".

É assistente de Lebedev. Em suma, tudo bons rapazes. Lebedev até acha que "nove em cada dez casos, os adeptos de futebol vão aos estádios para lutar e que isso é perfeitamente normal". "Os rapazes defenderam a honra do seu país e não deixaram que os ingleses profanassem a nossa pátria." E no que toca ao futebol russo, Lebedev, infelizmente, tem razão. O país tem um sério problema de violência de claques e não faz nada para resolvê-lo até porque alguns dos seus altos dirigentes acham tudo "normal".

Os hooligans ingleses têm a fama e o proveito de partir tudo à sua volta, mas o modelo de violência russo é muito diferente do que se passa em Inglaterra. As claques russas têm treino de combate corpo a corpo e com armas. Sabem lutar, sabem bater, sabem organizar-se e, em muitos casos, têm preparação dada por antigos militares. Muitos destes elementos viajaram para França, massacraram os adeptos ingleses – um deles está entre a vida e a morte – e iludiram a polícia francesa.

"Havia 150 adeptos russos que, na verdade, eram hooligans. Essas pessoas estavam preparadas para ação ultrarrápida e ultraviolenta. São pessoas extramente bem treinadas"; referiu o procurador de Marselha, Brice Robin. Os polícias britânicos que estão no Euro2016, alegam ter visto russos a colocar proteções bocais, luvas de artes marciais e lenços a tapar a cara antes de atacarem os ingleses nas ruas de Marselha.

E o que tem a UEFA a dizer sobre tudo isto? Ameaçou expulsar as seleções de Inglaterra e Rússia caso se voltem a verificar confrontos, mas não assume responsabilidades. E são muitas. O organismo do futebol europeu pôs pólvora num barril e mostrou-se surpreendido quando tudo rebentou. Marcar o primeiro jogo de Inglaterra para Marselha, cidade na qual já tinham existido graves problemas entre hooligans ingleses e adeptos locais no Mundial de 1998, foi o primeiro erro. Assim que se conheceram as cidades dos jogos, grupos de adeptos ingleses invadiram as redes sociais para dizer que iriam voltar a lançar o inferno em Marselha. Eles até avisaram. E desta vez tiveram a preciosa ajuda dos russos para fazer ainda pior. A segurança foi outro fracasso. Antes do Euro, ouvimos, quase diariamente, que a polícia francesa tinha mais de 90 mil agentes destacados para o evento. Onde estavam eles durante os três dias de guerra urbana em Marselha?

Ao mesmo tempo, a UEFA continua a falar em tolerância zero para o racismo ou qualquer outra forma de discriminação, mas emitiu uma acreditação oficial para Alexander Shprygin, mesmo depois de receber relatórios que davam conta das ligações deste dirigente a grupos violentos de extrema-direita da Rússia. Alexander Rumyantsev, conhecido por Makasin, é outro dos amigos de Shprygin que esteve em França com mordomias dadas pela UEFA. Rumyantsev era o líder do Zenit Landskrona, grupo de adeptos que criou o Manifesto 12, em 2012, no qual exigiam que nenhum jogador negro ou homossexual fosse contratado pelo Zenit São Petersburgo.

Mais grave: até ao momento, ninguém da UEFA e da FIFA veio condenar os incentivos à violência de Lebedev, dirigente da federação e do país que se prepara para receber o Mundial de 2018. O desejável seria exigir que Lebedev fosse banido de qualquer cargo desportivo. Mas isso seria num mundo perfeito. Algo bem distante do sítio onde UEFA e FIFA gostam de habitar.

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