O sonho não acaba aqui
"Hoje é feriado, c.." Gritou Éder na Alameda. O herói improvável deste Europeu. Desta conquista épica. O autor do golo mais importante da história do futebol português. E seguiu-se o cântico, desafinado, mas emocionado de José Fonte. Com uma letra que já se tornou o hino da representação portuguesa neste Euro: "Pouco importa se jogamos bem ou mal, vamos é levar a taça para o nosso Portugal." E trouxeram. Ela já cá está. A primeira. E até mereceu ser celebrada ao ritmo do "beatbox" de Nani. Com um toque da África que também é Portugal. E da lusofonia que faz desta nação mais do que um país. Uma nação que pode acordar todos os dias, durante os próximos quatro anos, e dizer: "Somos campeões europeus." Um sonho que agora foi realizado. E que começou a ser tentado há muito.
Foram os Magriços em 1966. Foram os Patrícios em 1984. Foi a equipa do futebol de ouro, que encantou o Euro 2000, e que caiu com a mão de Abel Xavier e o penálti marcado por Zidane. E em 2004 quando um país inteiro chorou de emoção nas mãos de Ricardo, sem luvas, e que entrou em depressão com a cabeçada de Charisteas. Filme repetido nas meias-finais do Mundial de 2006… outra vez num penálti de Zidane. E um sonho que também caiu nos penáltis frente à Espanha no Euro 2012. Depois de tanto "quase", de tanta ilusão para acabar de mãos vazias, parecia que estávamos destinados a celebrar a vitória mais difícil de todas. Contra a França. Em França. Para os nossos emigrantes. Para todo o mundo português.
Um final feliz à boa maneira de Hollywood, mas com um guião escrito na língua de Camões. Com o toque de dramatismo, em estilo de fado, dado pela lesão madrugadora de Cristiano Ronaldo – muito feio, Payet – e a capacidade de uma equipa se levantar, mesmo sem o seu capitão, aguentar a investida francesa, com coragem, organização, vontade (e, sim, alguma felicidade), para alcançar aquilo que muitos pensavam ser impossível. Afinal, somos o povo que dobrou o cabo Bojador. E quem já fez tanto também sabia que podia dobrar a França, em sua casa, e sair com a taça.
Mas um deles acreditava mais do que todos os outros: Fernando Santos. O homem que, em janeiro, disse que queria ser campeão europeu. O homem que, já em França, confessou ao que só voltaria para casa dia 11 de julho e seria recebido em festa. Criticado por muitos, gozado por outros (como lembrou Cristiano Ronaldo), riu por último e riu melhor. Mas também riu durante. E gozou cada momento desta vitória inesquecível.
Portugal, finalmente, é campeão europeu. Tem uma taça. Uma grande conquista no futebol sénior. E o seu povo merece. Merece tanto. Mas este pode ser apenas o primeiro capítulo de uma senda gloriosa. Há muito talento para termos esperança no futuro. Muitos jovens prontos a continuar esta saga de vitórias. Alguns deles já são campeões europeus – Renato Sanches (18 anos), Raphael Guerreiro (22 anos), João Mário e Rafa (23 anos), William e Cédric (24 anos) – e outros estão a caminho. Como a grande geração de Rui Jorge que pode fazer história nos Jogos Olímpicos e tornar este ano ainda mais memorável para o futebol português, que começou com a vitória dos sub-17 no Europeu do Azerbeijão.
Para já, temos a qualificação do Mundial pela frente e sabemos que, no próximo ano, iremos à Rússia disputar, pela primeira vez na nossa história, a Taça das Confederações. O sonho não acaba aqui. Não tem de acabar aqui. Já temos uma taça. Mas daqui a uns anos podemos dizer que esta foi apenas a primeira. Obrigado, Portugal. Obrigado, Seleção. É bom estar acordado e sentir que tudo isto é verdade e está a acontecer. E como disse o Éder, "hoje é feriado, c…".
