Luís Aguilar
Luís Aguilar

Porque os adeptos também jogam

Ponto prévio: este texto não é sobre os jogos e guerras de palavras nas redes sociais ou nas caixas de comentários dos jornais online. Este jogo é o daqueles que enchem bancadas e ruas de cor. De alma e cânticos. De alegria e sonho. Habituei-me a ouvir, vezes demais, que os adeptos não jogam, não marcam golos, não fazem defesas impossíveis. Nada de mais falso. As vozes que se fazem ouvir nos estádios também ganham. E, muitas vezes, ganham de goleada.

Talvez por isso se diga sempre que as equipas gregas e turcas rendem bem mais em casa do que fora. Pela proximidade dos seus. Pelo ambiente. Pelo apoio. Pela força dada por aqueles que ali estão e não desarmam. Nos bons e nos maus momentos.

Adeptos como os que apoiaram Benfica e Sporting até ao fim do campeonato. E para lá do campeonato. Nas ruas das várias cidades deste país e do mundo. Por esta altura diz-se – e com toda a justiça – que os obreiros do tricampeonato do Benfica foram homens como Rui Vitória, Luís Filipe Vieira, Jonas, Gaitán ou Renato Sanches. Por esta altura também se diz que o Sporting só voltou a lutar pelo campeonato até à última jornada – algo que não acontecia desde 2006/07 – devido a Jorge Jesus, Bruno de Carvalho, João Mário, Bryan Ruiz ou Slimani. Justo, uma vez mais. Mas os adeptos – de um lado e de outro – não podem ser excluídos destas homenagens e elogios.

Não estão ali por trabalho, salário ou obrigação. Não têm contratos por objetivos. Têm, isso sim, um contrato vitalício. Um contrato assinado pelo coração e imune a qualquer cláusula de rescisão. Estão ali porque querem. Por opção. Por sentimento. Porque não se imaginam noutro lugar. Porque não querem estar noutro lugar. Futebol sem público é subbuteo. Cerveja sem álcool. Comida sem sal. Ou, como diz Rita Lee, amor sem sexo e sexo sem amor. Um quadro incompleto. Um treino, quanto muito. Uma peladinha entre amigos, no máximo.

Foi uma época atípica. De guerra constante. Dentro e fora do campo. Com gente a falar demais e a dizer de menos. Com insinuações, ataques e hostilidade permanente. Com muitos adeptos – de uma forma ou de outra – a serem levados na onda lançada por dirigentes e semidirigentes. Desse outro jogo não falarei. Não tenho habilitações para me debruçar sobre palavrões tão atuais como "estrutura" ou "campeonato da comunicação". Não sei o que é um campeonato da comunicação. Talvez seja um concurso televisivo, de horário nobre, para ver quem diz mais disparates em menos tempo. Mas sei o que é um campeonato de futebol, com jogadores, treinadores e adeptos. E, nesse sentido, pela parte de Benfica e Sporting, este foi um dos melhores campeonatos de que há memória.

Acabou, como tudo acaba. Até recomeçar. Mas, por agora, acabou. Com os adeptos do Benfica campeões. A festejar. Com os adeptos do Sporting tristes, embora orgulhosos pela campanha da equipa. Com cores separadas, mas unidas pela mesma devoção ao seu clube. Cores que agora podem – e devem – juntar-se. Por um mês inteiro. Pela Seleção. Por Portugal. Porque os adeptos também jogam. E também podem ajudar a marcar golos em França. Estejam onde estiverem.

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