Renatoterapia de um país inteiro

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Faz da rua o seu laboratório. A alma e a força do futebol que impõe. Não tem medo do palco porque toda a vida sonhou com ele. Em cada golo marcado no bairro. Em cada finta. Em dia de jogo na formação. Em todos esses momentos. Fechava os olhos e via-se lá em cima. No topo. Junto dos grandes. Onde acabou por chegar.

Renato transporta-nos para a infância. Para as fintas no asfalto. Entre carros, pedras soltas, caixotes do lixo e outros obstáculos. Campos improvisados à sombra de prédios. Quando marcávamos um golo, fechávamos os olhos e imaginávamos que a estrada ou o pedaço de terra eram relvados brilhantes. E que as varandas e as janelas eram as bancadas de um enorme estádio. Com aplausos. Com gritos de euforia… até que gritavam para irmos jantar. E o sonho acabava. O de Renato não acaba. Pelo contrário. Está agora a começar. E cada vez fica maior e mais real.

Louca é a vida no futebol. Em apenas seis meses, um miúdo de 18 anos chega ao plantel principal do Benfica. Passa a ser uma das figuras da equipa, vai aos quartos-de-final da Champions, vence o campeonato, a Taça da Liga, é o primeiro português a ser contratado pelo Bayern Munique – e logo pela soma recorde de 35 milhões de euros -, integra a lista de convocados para o Europeu, torna-se o jogador mais jovem de sempre a marcar um golo em jogos a eliminar da competição e está com a equipa nas meias-finais.

Uma subida vertiginosa. E com ele, e com eles, vamos subindo também. Vamos sonhando e acreditando que tudo é possível. Renato faz-nos recuperar a autenticidade da vida. Aquela que o mundo cínico dos adultos nos foi tirando ou, tantas vezes, nos foi ensinando a esconder. Como se fosse uma coisa má. Nefasta. Um sinal de fragilidade numa sociedade em que parece ser apenas permitido sair de casa se já tivermos a máscara posta. O miúdo da Musgueira, para já, vai sendo imune à falsidade e especulação que tantas vezes também invade os campos de futebol. Com tudo o que faz de bom e de menos bom, o seu jogo é puro.

E transmite-nos força. A sua força. A força que, neste momento, contagia um país e uma equipa. Se Ronaldo marca o primeiro penálti, ele marca o segundo. E se falhasse? Se falhasse seria como disse o capitão da Seleção a João Moutinho: "Se perdermos que se f…" Porque tentámos. E lutámos até ao fim. Sem nos encolhermos. Essa é a filosofia que fez de Ronaldo grande. Enorme! E é a mesma mentalidade que faz com que Renato se destaque dos outros, mesmo sendo ainda tão novo. Querer competir. Querer ajudar a vencer. Querer ser feliz. Dar a cara e ir em frente nos momentos mais difíceis. E tudo explicado com a simplicidade que só está ao alcance dos predestinados: "Estava tranquilo. Como faço nos treinos, escolhi o lado e parti para a bola." Como se fosse fácil marcar um penálti nos quartos-de-final de um Europeu. Como se muitos outros jogadores, de todas as nacionalidades, bem mais experientes, não tremessem em situação semelhante.

Quaresma descreveu bem o momento antes do remate vitorioso: "Tinha o país inteiro nas minhas mãos." Renato talvez ainda não o sinta. Porque é demasiado novo. Porque nos seus olhos está apenas a alegria e a vontade de quem quer comer o mundo a jogar futebol. Com irreverência, com erros, com muita vontade e vontade a mais. Com tudo o que é próprio de quem tem 18 anos. O que sai bem e o que ainda está por apurar. Tudo aquilo que o tempo, a experiência e a continuidade lhe vão trazer. Mas o que tem já é muito. O seu futebol empolga companheiros e adeptos. Faz tremer adversários. Elimina as regras do certinho, direitinho, arrumadinho. Coloca no jogo explosão, imprevisibilidade e poder de rutura. Dá à Seleção o que deu ao Benfica. O tal lado selvagem. E já ninguém tem dúvidas do seu potencial. Nem mesmo aqueles que tanto o criticaram. Para isso só teve de se manter fiel a si próprio, com toda aquela confiança inabalável, e aquele estilo de alguém que não está preocupado com nada do que possam dizer. Fácil! Para ele, pelo menos.

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