Ricardo Carvalho: a cabeça e o corpo em sintonia

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Alguns defesas-centrais fazem lembrar Rambo (Stallone) ou James Braddock (Chuck Norris). Aparecem e levam tudo à frente. Como uma parede em movimento ou um camião TIR em excesso de velocidade. Fazem do corpo uma metralhadora com munições infinitas. Ricardo Carvalho não é um defesa ruidoso. Troca o barulho dos músculos pela subtileza de movimentos. Não precisa da faca de Rambo ou do jeito infalível de partir pescoços de Braddock. Se fosse um herói de um filme estaria mais próximo de James Bond na versão Roger Moore. Também ele é capaz de sair de qualquer duelo sempre engomado e com o cabelo impecável.

Sabe ser discreto no meio da multidão e evitar o congestionamento como uma scooter que passa por uma autoestrada entupida de carros. Mas dá a ideia de que se fosse num veículo de quatro rodas, também conseguiria encontrar atalhos para não ficar preso no meio do trânsito. Mexe-se dentro da área como um ladrão silencioso. Alguém que rouba a bola ao adversário com a mesma limpeza de um carteirista que passeia pelo metro em hora de ponta. Num momento, o avançado tem a bola. Noutro, está a entrar na Loja do Cidadão para pedir a segunda via do passaporte.

Os anos passam por ele. Embora não pareça. Porque o estilo mantém-se. Calmo, perspicaz. Sem ansiedade. À espera do momento certo para entrar em cena. Como alguém que está em casa, despachado, apenas a fazer tempo para sair e chegar ao seu encontro sem a má educação de aparecer atrasado ou demasiado adiantado. Chega a tempo. No tempo em que tem de chegar.

Aos 38 anos, Carvalho é o jogador de campo mais velho do Euro 2016. Leva mais duas décadas de existência do que Renato Sanches (o benjamim do grupo). No entanto, mantém a frescura suficiente para evitar as invasões comandadas por soldados mais novos. Vardy e Kane que o digam. Com ele à frente, Rui Patrício parece estar protegido pelo cajado de Gandalf. "Velho", dirão alguns. "Não devia ter voltado à Seleção depois de ter abandonado o estágio com Paulo Bento", dirão outros. Fundamentalismos de quem parece nunca ter sido discriminado pela idade (por ser jovem ou menos jovem), ou de quem jamais teve uma atitude irrefletida da qual se arrependeu mais tarde.

Felizmente, Fernando Santos não pensa assim. A primeira grande vitória do atual selecionador não foi contra a Dinamarca, na fase de qualificação, mas sim quando recuperou jogadores como Ricardo Carvalho e Tiago. O médio do Atlético de Madrid também é outro a quem a idade não tira brilho. Uma lesão privou-nos da sua serenidade no meio-campo de Portugal, mas Carvalho ainda mexe. E de que maneira. "A cabeça diz-me para continuar a jogar e o corpo tem permitido", disse esta semana. Parece estar tudo em sintonia com um jogador que revela precisar de descansar mais do que os seus colegas, mas que nunca dorme acordado. O seu percurso pode ser descrito numa frase de Albert Camus, que antes de se tornar escritor foi guarda-redes, mas nunca teve o privilégio de poder jogar com um central como Carvalho: "Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela." Carvalho passou pela experiência. E, hoje em dia, ainda consegue criar muitas dificuldades a quem tenta passar por ele.

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