Ronaldo ainda não aprendeu a comunicar

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É um filme já visto. Repete-se por cada vez que Ronaldo vai falar logo a seguir a um jogo em que o resultado não foi o desejado. Seja no Real Madrid ou na Seleção Nacional. Geralmente corre mal e sai disparate. Como fez esta temporada, logo após o Real ter perdido o dérbi frente ao Atlético (0-1): "Se todos estivessem ao meu nível, estaríamos em primeiro." Lembram-se?

Os comentários infelizes com a camisola do Real Madrid é algo secundário para muitos portugueses. O mesmo já não acontece quando Ronaldo está ao serviço de Portugal. Podemos perder, empatar, jogar assim-assim ou muito mal, mas não somos um povo conhecido por menosprezar nações mais pequenas do que a nossa e tratá-las com sobranceria. Foi precisamente isso que Ronaldo fez ao dizer que a Islândia tem uma mentalidade pequena e não irá fazer nada nesta competição. Já fez. Empatou Portugal e conseguiu irritar Ronaldo ao ponto de muitos dos seus haters – que ele insiste em cultivar – terem ainda mais razões para disparar de volta.

Ronaldo representa o melhor e o pior de Portugal. Por um lado, o talento, a vontade de vencer, a capacidade de sacrifício e a força suficiente para fintar um destino de pobreza e chegar ao topo de mundo. Por outro, a incapacidade de fazer autocrítica, não resistindo a lamúrias e culpando sempre os outros pelos seus falhanços.

Não deverá ser fácil ter de enfrentar um batalhão de jornalistas de todo o mundo quando a frustração de um mau resultado ainda está bem quente. Sobretudo quando se é Ronaldo e tudo aquilo que ele já representa na história do futebol. Logo após a partida fizeram-se comparações sobre o estilo calmo da comunicação de André Gomes e João Mário por oposição ao discurso mais irritado de CR7. Mas é bem mais complicado ser Ronaldo do que André Gomes ou João Mário. Os dois médios acabaram de fazer a sua estreia numa grande competição de seleções; o capitão de Portugal tem sempre todos os focos em cima de si porque dele se espera o impossível.

O pior é que Ronaldo não guarda apenas essa irritabilidade para o final do encontro. Começou logo a senti-la quando a Islândia marcou e ele quis, de todas as formas, resolver sozinho os problemas da equipa. Não lhe correu bem durante o jogo e ficou ainda pior após o apito final quando culpou os islandeses por não tentarem jogar de peito aberto contra Portugal. Esquece-se que do outro lado não há Ronaldos. Cada um utiliza as armas que tem. Também já vi Portugal jogar contra Espanha, no Mundial de 2010, com 11 homens atrás da linha da bola. O que sentiríamos nós se, após o encontro, Iniesta ou Xavi aparecessem a dizer que Portugal tem uma mentalidade pequena?

Foi como disse Heimir Hallgrímsson, cosselecionador da Islândia: "Se tentássemos jogar como Portugal, seríamos uma cópia má." E o central Kári Árnason foi ainda mais simples: "Queria que jogássemos como o Barcelona contra ele?" Não jogou a Islândia, nem jogará a Áustria – mesmo a precisar de vencer jogo – ou a Hungria. E Portugal tem de encontrar soluções dentro do campo para ultrapassar o autocarro sem ficar a queixar-se do trânsito em frente da baliza adversária. Mas aqui até nem foi o caso. A Islândia defendeu, sim, mas esteve a perder e ainda conseguiu regressar ao jogo.

Diz Ronaldo que os islandeses celebraram o empate como se tivessem ganho o Euro. Naturalmente! É a nação mais pequena de sempre a estar na prova, fez uma fase de qualificação em que ficou à frente de Turquia e Holanda, estreia-se contra Portugal e consegue sair com um ponto… digamos que é motivo para grande festa num país que tem apenas 320 mil habitantes e que está a nascer para o futebol. Devem ter passado a noite a ouvir Sigur Rós e a beber shots de brennivín (típico licor islandês).

Toda esta polémica foi bem resumida pelo jornalista do The Guardian, Paul Doyle: "Para a Islândia, como para Ronaldo, foi necessária excecional dedicação e uma poderosa e focada determinação para desenvolver talento ao mais alto grau possível. Para Ronaldo isso significou muitas horas de trabalho com treinadores, e sozinho, em relvados e ginásios; para a Islândia isso significou formar treinadores e construir relvados e ginásios."

Ronaldo num dia mau consegue ser melhor do que qualquer islandês no momento mais inspirado da sua carreira. E neste jogo, mesmo sem ter sido brilhante, esteve longe de ser dos piores da Seleção. Mas fora do relvado ainda não aprendeu a comunicar e a passar uma boa imagem dele e das equipas que representa. Seria bom que o fizesse. Especialmente quando está com a braçadeira de capitão da equipa de todos nós.

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