Off the record

Luís Aguilar
Luís Aguilar

Se Baía não pode falar, ninguém pode

E eis que o FC Porto se transforma num clube em que as mulheres dos dirigentes dão bitaites nas redes sociais e ofendem figuras históricas da instituição. Longe vão os tempos em que os dragões falavam a uma só voz – a do presidente – e em que os outros testemunhos, que raramente apareciam, serviam apenas para sublinhar o que Pinto da Costa já tinha dito, fosse bom ou mau. Era um clube com estratégia e organização. Era uma equipa com muitas referências de balneário. Com jogadores que tinham muitos anos de casa. Símbolos como Vítor Baía. Não havia espaço para eleger um capitão como Bruno Martins Indi, por exemplo, que chegou apenas na época passada. Os tempos, porém, são outros. Pinto da Costa deve estar muito mal para permitir que a forte estrutura que criou seja agora uma mercearia de bairro em que todos julgam ter o direito de lavar roupa suja.

A esposa do presidente dos dragões usou o Instagram para atacar Vítor Baía. O antigo capitão do Porto tinha dito, entre outras coisas, que "pessoas que dão facadas a Pinto da Costa estão ao seu lado" e que, no lugar do presidente, "corria com toda a estrutura atual", manifestando, uma vez mais, a sua disponibilidade para um dia assumir os comandos do clube. É uma opinião de quem conhece bem a casa. Uma ambição legítima. Mas logo veio a esposa do líder dos dragões defender a honra do marido – que não tinha sido posta em causa por Baía – num post lamentável. "Quando me chamaram à atenção para essas declarações do ex-guarda-redes Vítor Baía não contive a gargalhada", começa por escrever a mulher de Pinto da Costa. Tudo o resto que se segue é demasiado triste para rir.

Diz a senhora que conhece o trabalho feito no Porto nos últimos 7 anos. Logo, pensará ter mais crédito para opinar sobre o clube do que o antigo guardião. Baía, realmente, saiu em 2010. Falhou 5 dos 7 anos da atual esposa de Pinto da Costa. Mas conhece a estrutura profissional do clube desde 1987/88, época em que chegou ao futebol profissional dos dragões. Como diria Guterres, "é fazer as contas".

Baía representou os dragões durante 18 temporadas, conquistando 32 (!) competições. É o segundo jogador com mais títulos do mundo apenas atrás de Ryan Giggs (36). Entre os muitos troféus conquistados de azul e branco (28) estão "pequenas" coisas como uma Champions, uma Liga Europa, uma Taça Intercontinental e dez campeonatos. Além do Porto, só jogou no Barcelona. Dizem que as coisas não lhe correram muito bem na Catalunha, mas, em três épocas, conseguiu sair de Camp Nou com uma liga espanhola, duas Copas del Rey e uma supertaça de Espanha. Coisa pouca. A tudo isto podemos ainda juntar 80 internacionalizações com a camisola das quinas.

Alguém com este currículo não tem direito de opinar e criticar a situação do Porto? Se Baía não pode falar dos dragões, então ninguém pode. Mais grave: teve de ler, entre outras apreciações, que "passeava as suas namoradas em trajes mínimos" na SAD e que "não soube gerir o seu próprio dinheiro", num ataque claro aos problemas financeiros da sua fundação. O que tem isso a ver com futebol e o estado atual do clube? Nada!

Em 2014, Maldini criticou severamente a gestão do Milan. Nessa altura, contudo, o histórico capitão da equipa italiana não foi atacado pelas esposas de Berlusconi ou Galliani. No reino do dragão, a história é outra. O clube que durante tantos anos se orgulhou da forma como controlava a sua comunicação – característica que se dizia ser um dos segredos de tantas vitórias – está transformado numa república das bananas em que falam as mulheres dos presidentes e até os pais dos treinadores. Cada um diz/escreve o que quer. Os resultados – ou falta deles – estão à vista. O Porto não era isto. Agora, pelos vistos, parece não ser mais do que isto.

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