off the record

Luís Aguilar
Luís Aguilar

Silêncio, que está a dar a liga chinesa

Chegaram com força e prometem não parar. Os chineses querem ser os novos donos da bola. Como? Com dinheiro. Muito dinheiro. Milhões inesgotáveis. Parece o concretizar da profecia, em versão futebol, do livro "Quando a China despertar, o mundo tremerá". É uma história antiga. Foi escrita em 1973, pelo francês Alain Peyrefitte, e já se faz notar na indústria e na economia mundial, mas só agora parece ter invadido o desporto-rei.

Os chineses estão a fazer pressão alta em todas as frentes. E já entraram em Portugal. Primeiro, compraram clubes. Depois, uma divisão inteira. A 2.ª Liga vai ter dez chineses. Para já. E os clubes recebem dinheiro mediante a utilização dos reforços vindos da Ásia. Ao mesmo tempo, outros fazem a viagem inversa. Fredy Montero foi para o Tianjin Teda, por 5 milhões de euros, Jonas é namorado pelo Guangzhou Evergrande, equipa treinada por Scolari, que recentemente pagou €42 milhões por Jackson Martínez, e diz-se que Rui Vitória pode estar na mira do Jiangsu Suning, o mesmo clube que contratou Ramires (€32 milhões) e Alex Teixeira (€50 milhões).

Pergunta para queijinho: quem serão os próximos grandes craques do futebol mundial a rumar ao país da Grande Muralha? Lavezzi está a poucas horas de se tornar um dos jogadores mais bem pagos do mundo. O avançado argentino, de 30 anos, pode trocar o PSG, atual campeão francês, pelo modesto HB China Fortune, recém-promovido à primeira divisão. Este pequeno e desconhecido clube está habituado a roubar jogadores aos gigantes do futebol europeu. Contratou Gervinho à Roma no último mercado de inverno. Os italianos estão a lutar por um lugar de acesso à Liga dos Campões, queriam manter o costa-marfinense, mas não conseguiram resistir à fortuna paga pelo Fortune (€18 milhões).

Parece não haver limites para os negócios da China. Muito por culpa do governo do país. O presidente Xi Jinping é louco por futebol e adepto do Manchester United: "O meu maior desejo para o futebol chinês é que os nossos clubes se possam transformar nos melhores do mundo", confessou. Também quer que a China vença um Mundial num período máximo de 24 anos. O caminho pode ser longo para o atual 93.º classificado do ranking da FIFA, mas há distâncias que são eliminadas pela grande ponte do dinheiro. Xi Jinping quer investir cerca de €850 mil milhões na indústria do desporto do seu país durante a próxima década. Grande parte dessa verba é destinada ao futebol. Além da contratação de vários craques, o futebol será introduzido como disciplina obrigatória nas aulas de educação física em 20 mil escolas nos próximos cinco anos e em 50 mil até 2025

Em simultâneo, os grandes empresários chineses estão a acompanhar a vontade do seu presidente. Quase todos os clubes, aliás, são propriedade de empresas. O Guangzhou, por exemplo, pertence à imobiliária Evergrande e ao gigante eletrónico Alibaba. Há seis anos estava caído na segunda divisão depois de ser despromovido por um caso de jogos combinados. Atualmente, é o vencedor da Liga dos Campeões da Ásia e esteve no Mundial de Clubes. A equipa saiu das cinzas para se tornar no conjunto mais competitivo do continente asiático.

Os jogadores agradecem as ofertas da China. Tornam-se milionários. Cada vez mais novos. Alex Teixeira (ex-Shaaktar) vai ganhar €190 mil por semana. Renato Augusto (ex-Corinthians) fica com um salário mensal na ordem dos €450 mil. Ramires ganhará 13 milhões ao ano. Nenhum deles completou 30 anos. Mas a felicidade dos jogadores contrasta com a apreensão dos grandes clubes do futebol europeu: "A China tem poder financeiro para levar uma liga europeia inteira para lá. Estamos neste negócio há tempo suficiente para saber que estas transferências são consequência do poderio económico e eles têm isso", alertou Arsène Wenger.

O dinheiro anda de mãos dadas com boas infraestruturas e paixão. A média de assistências da última época rondou os 22 mil espectadores, apenas menos duzentos do que Itália ou França. Os responsáveis pelo futebol chinês esperam ultrapassar a barreira dos 25 mil esta temporada e preveem que, até 2018, a Super Liga Chinesa seja a terceira com mais adeptos do mundo, apenas atrás da Premier League e da Bundesliga.

Os chineses também querem dominar o mercado das transmissões. Em 2015, as televisões do país pagaram apenas $9 milhões para mostrar os jogos da liga. Este ano vão subir esse valor para $200 milhões como parte de um pacote de direitos televisivos de $1,25 mil milhões para as próximas cinco épocas. Há várias operadoras internacionais interessadas em mostrar os jogos de Jackson e companhia. Paulo Futre não tem dúvidas: "Daqui por pouco tempo vamos estar todos nas nossas casas a ver os jogos da liga chinesa. Vão lá estar os melhores jogadores do mundo." Será? Para já, parece que sim. E nomes de clubes como Guangzhou, Jiangsung, Beijing Guoan, Shangai SIPG ou Tianjin Quanjian talvez deixem de parecer tão estranhos no decorrer dos próximos anos.
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