_

Luís Alves Monteiro
Luís Alves Monteiro Gestor e atleta olímpico

O Ronaldo da política

Há políticos que vivem da imagem, da omnipresença mediática e da ilusão de que estar em todo o lado é o mesmo que governar. Saltam de tema em tema, de palco em palco, de fotografia em fotografia, como se a política fosse uma sucessão de momentos virais. O primeiro-ministro parece querer ser um homem dos sete ofícios. O problema é que, quando se tenta fazer tudo, diz-me a minha experiência corporativa, raramente se faz alguma coisa bem. Governa-se por impulso, comunica-se por instinto e decide-se em função do momento. Ao longo dos últimos anos foi-se construindo a imagem de um líder omnipresente, quase providencial. Já tivemos o "Ronaldo das Finanças" e agora um "Ronaldo da política", capaz de resolver qualquer crise apenas com a sua presença. Mas, mais uma vez, a experiência diz-me que o carisma, por mais eficaz que seja na comunicação, não substitui os resultados. 

Desta vez não houve o célebre "deixem-nos sonhar". Também não houve um Éder para marcar o golo improvável que salvasse o jogo nos minutos finais. Não houve aquele acaso feliz que alguns confundem com génio. Apenas a realidade se impôs, avassaladora, nua e crua. No futebol, nem sempre a reputação vence os jogos. Também Cristiano Ronaldo foi confrontado com essa realidade. Para aqueles que acreditavam e defendiam que o passado brilhante justificava a sua irracional presença nos relvados, os números, o seu registo, mostraram uma participação muito abaixo daquilo que dele se esperava, apresentando uma fraca performance. Na política acontece exatamente o mesmo: chega um momento em que a popularidade deixa de compensar a ausência de resultados e, aliás, as sondagens recentes já o demonstram. 

PUB

Entretanto, o país continua a crescer pouco, a produtividade mantém-se anémica, os serviços públicos acumulam problemas e os incêndios regressam todos os verões para nos recordar que continuamos a confundir reação com prevenção. É difícil compreender as prioridades quando, em menos de um mês, o primeiro-ministro realiza três deslocações para acompanhar a Seleção Nacional, provavelmente num Falcon da Força Aérea, enquanto Portugal enfrenta uma das épocas mais críticas de incêndios. Ninguém discute a importância simbólica do futebol, mas governar exige sentido de oportunidade e muito bom senso. 

Também o discurso proferido após a eliminação da Seleção soou deslocado da realidade do país. Evocar heróis e epopeias clássicas pode inspirar em determinados contextos, mas, quando tantas famílias enfrentam problemas concretos, o que se espera de um líder é mais realismo e não andar em arruadas nacionalistas num país estrangeiro, em mangas de camisa e com um megafone na mão, qual líder inflamado de claque futebolística. Bom senso, mais uma vez, precisa-se.

No essencial, permanece a sensação de um Governo excessivamente dependente da figura do Primeiro-Ministro, rodeado por uma equipa onde poucos se distinguem pela capacidade de contrariar, acrescentar ou liderar. Lembram-se da equipa portuguesa onde todos se anulam em função de um líder cansado? Portugal precisa de menos encenação, mais execução e mais reformas estruturais. A imagem de um líder salvador pode conquistar eleições, mas não governa um país, porque os cidadãos não vivem de fotografias, nem de narrativas cuidadosamente construídas. Vivem de salários, de produtividade, de segurança, de serviços públicos eficazes e de oportunidades para os seus filhos.

PUB

A realidade pode ser adiada pela comunicação, mas nunca pode ser vencida por ela. 

Por Luís Alves Monteiro
Deixe o seu comentário
PUB
PUB