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Luís Alves Monteiro
Luís Alves Monteiro Gestor e atleta olímpico

O teste pós-carreira ao Decreto-Lei n.º 272/2009: onde estão os resultados?

O Decreto-Lei n.º 272/2009 nasceu com uma ambição clara e, à data, até louvável: garantir que os atletas de alto rendimento não fossem deixados à sua sorte no momento mais difícil das suas carreiras, o fim das mesmas . A ideia era simples na teoria e exigente na prática: assegurar que anos de dedicação ao país, muitas vezes com sacrifícios pessoais e académicos evidentes, não terminassem num vazio profissional.

Ao longo dos anos, o legislador foi reforçando este enquadramento. E fê-lo, mais recentemente, com a aprovação da Lei n.º 13/2024, de 19 de janeiro, que veio alterar e densificar o próprio regime. Introduziram-se sistemas de quotas no emprego público, reforçaram-se apoios financeiros no pós-carreira e ajustaram-se mecanismos como a subvenção temporária de reintegração. No papel, o sistema nunca esteve tão completo. O problema continua a ser o mesmo: o papel aceita tudo.

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Importa, contudo, quero deixar uma nota de enquadramento político que não pode servir de desculpa. Apesar desta última alteração ao regime resultar de iniciativa do governo anterior, nada justifica a inação do atual executivo, nem tão pouco do IPDJ. Pelo contrário: a continuidade e execução das políticas públicas são um teste à maturidade institucional de um país. A falta de consistência, acompanhamento e responsabilização não é um detalhe é, aliás, um traço típico de contextos menos desenvolvidos, onde se legisla muito e se avalia pouco.

Portugal continua a investir recursos públicos significativos no desporto de alto rendimento. E bem. Mas há um momento em que as luzes se apagam, os pódios deixam de existir e os atletas regressam à vida “normal”. É nesse momento que o sistema devia mostrar se funciona. E é também nesse momento que desaparecem os dados, a evidência e arrisco dizer a própria responsabilidade.

A alteração de 2024 ao DL 272 veio introduzir um elemento particularmente exigente: quotas no emprego público e apoios financeiros reforçados, com efeitos que, na prática, podem abranger atletas que terminaram a carreira antes da entrada em vigor da lei. Ou seja, já não estamos apenas no domínio das intenções. Estamos no domínio da execução. E execução mede-se.

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Mas há um detalhe que não é novo e que ajuda a perceber porque continuamos onde estamos. Lembro-me bem de, na altura em que participei em grupos de trabalho e, através da AAOP, termos apresentado propostas concretas para melhorar o sistema. E recordo-me de ter colocado uma pergunta simples — mas incómoda, quase uma pergunta ácida: existe uma base de dados integrada que permita saber quem são os atletas, que percurso tiveram, que apoios receberam e qual foi o seu desfecho no pós-carreira? Existe informação consolidada que permita analisar, cruzar dados e, a partir daí, tomar decisões informadas?

A resposta, na altura, foi a habitual: “não sei”. E, na prática, os resultados existentes eram próximos de zero em muitas dimensões.

E é precisamente esse “não sei” que atravessa o tempo, atravessa diplomas e atravessa reformas. E quando os órgãos públicos não publicam o que sabem, ou não sabem e devem ser naturalmente responsabilizados por essa omissão.

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Hoje, com quotas no emprego público e subsídios reforçados, as perguntas são ainda mais exigentes e continuam sem resposta.

Quantos atletas beneficiaram efetivamente deste regime desde janeiro de 2024?

Quantos entraram na Administração Pública através do sistema de quotas?

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Em que organismos?

Em que concursos?

Quantos ficaram de fora?

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E, no que toca aos apoios financeiros, quantos beneficiaram, com que critérios e com que impacto real na sua reintegração?

A verdade é simples e desconfortável: continuamos sem saber!

Uma visita ao site do IPDJ mostra um sistema bem explicado, atualizado, alinhado com a nova lei. Mas, mais uma vez, falta o essencial: resultados. Não sabemos quantos atletas estão empregados após o fim das suas carreiras, quantos utilizaram os novos mecanismos introduzidos em 2024, quantos ficaram excluídos, nem qual o impacto real destas alterações.

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O sistema evoluiu. A lei foi reforçada. Mas a transparência continua parada no tempo, o que levanta um problema estrutural: se não existe uma base de dados integrada, se não há capacidade de análise e extrapolação, então o sistema não está apenas por avaliar , está na prática, cego. E um sistema cego não corrige, não melhora, não aprende.

O que se exige não é complexo. Exige-se que a tutela meça e publique o impacto do regime. Que construa, finalmente, uma base de dados integrada que permita saber onde estamos e para onde devemos ir. Que diga, com dados, quantos atletas beneficiaram das quotas, quantos foram integrados, quantos recorreram aos apoios financeiros e quantos ficaram de fora. Porque a transparência não é um extra é o mínimo que se exige para tomar decisões informadas sobre o dinheiro que é de todos nós.

E importa dizê-lo: se quem tutela o desporto, Ministra, Secretário de Estado, presidentes de diversos Institutos, passassem menos tempo em eventos, inaugurações e momentos de palco, até já com direito a tirar selfies, e mais tempo com as suas equipas a fazer o trabalho estrutural que lhes compete, adotando uma lógica de execução e responsabilização próxima do setor empresarial, provavelmente já teríamos hoje respostas. Respostas sustentadas não em perceções, mas em dados.

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Por isso, a pergunta mantém-se, agora ainda mais atual: quem beneficiou, quantos ficaram de fora e se alguém utilizou, de facto, entre outros instrumentos, o sistema de quotas no emprego público?

Senhores governantes, governar não é atualizar leis, é provar que elas resultam. E essa prova, no caso do DL 272, continua por fazer.

Uma Nota Final , inevitável e sentida, sobre os olímpicos no pós-carreira, tantos deles remetidos a um silêncio injusto, longe da visibilidade e da “solidariedade olímpica” tantas vezes proclamada.

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A minha singela homenagem a Joaquim Granger, olímpico da ginástica em Helsínquia 52, o mais velho atleta olímpico, que nos deixou aos 97 anos. ainda recentemente, recordo-me bem nas inúmeras interações que tive com este ATLETA, aos 95, mantinha uma energia contagiante: deslocava-se de Linda-a-Velha a Cascais para visitar a nossa associação, percorrendo ainda, com uma vitalidade admirável e a pé, os dois quilómetros entre a estação de comboios e a nossa sede. Sempre com projectos novos, sempre com um sorriso.

Apesar dos diversos apelos á natureza olímpica, que inclui os valores do Respeito Excelência e Amizade , na missa e cerimónia fúnebre, contei 14 olímpicos num universo de mais de 800, dá para pensar. o Joaquim Granger Merecia mais. Muito mais.

Não se esqueçam que a vida é efémera — e também feita de esquecimentos!

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Por Luís Alves Monteiro
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