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O lindíssimo Estádio Nacional, mais do que um motivo de orgulho, é a cada ano por estes dias, a lembrança de uma vergonha nacional. Um palco carregado de simbolismo, mas cada vez mais indigno para receber a final da Taça de Portugal — ou qualquer outro evento de alto nível.
Em 80 anos de existência, praticamente nada foi feito: bancadas em pedra, acessos caóticos, casas de banho que roçam o impraticável e um relvado… original de 1944!
O Jamor é um monumento à negligência e ao adiamento crônico a que tantas vezes é vetado a coisa pública.
As promessas sucedem-se. Em 2023, António Costa anunciou um projeto de reabilitação. Nada aconteceu. Só agora, em 2025, surge finalmente uma proposta concreta, liderada pela Federação Portuguesa de Futebol em parceria com o Governo, num consórcio que prevê um investimento de até 25 milhões de euros para cobertura parcial, estacionamento subterrâneo e melhorias gerais. A iniciativa, aplaudida por muitos, levanta no entanto sérias dúvidas que não podem ser ignoradas.
Desde logo, uma mudança de tutela mal disfarçada do Estádio Nacional — um espaço público, património do Estado, com vocação olímpica e propriedade do IPDJ — para a Federação Portuguesa de Futebol, uma entidade privada, ainda que de utilidade pública.
Esta decisão, tomada pelo atual secretário de Estado do Desporto, que veio diretamente dos quadros da própria FPF, levanta legítimas suspeitas de conflito de interesses.
Durante décadas, o movimento olímpico nacional opôs-se a esta transferência. E agora, com uma "canetada", a federação vizinha — instalada paredes meias na Cidade do Futebol — passa a gerir o Jamor como se fosse seu.
Não se trata apenas de uma questão simbólica. Trata-se de transparência, de equidade e de respeito pelas regras da governação pública.
O futebol não pode capturar equipamentos do Estado como se fossem extensões do seu território federativo, ainda mais quando há interesses cruzados entre quem decide e quem beneficia diretamente da decisão.
O Jamor precisa, sim, de ser reabilitado. Com urgência. Mas também precisa de ser protegido dos apetites particulares que se escondem sob o manto do interesse público. E o que está aqui em causa não é apenas um estádio. É a toda uma forma como se trata o desporto em Portugal — com promessas em vez de obras, com cumplicidades em vez de escrutínio, com silêncios em vez de debate.
Por Nuno Félix