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Nuno Félix
Nuno Félix Scout internacional

Para ser Franco… joga Rui Silva!

Vi jogar Franco Israel pela primeira vez no Mundial Sub-20 da Polónia. Não é habitual recordar-me da exibição de um guarda-redes tão jovem e a esta distância, até porque raramente tenho a posição como alvo prioritário e é uma função com especificidades muito particulares. Mandam as boas praticas que os guarda-redes sejam objeto de avaliação por verdadeiros especialistas (normalmente treinadores de guarda-redes, também eles na sua maioria ex-guarda-redes). Dessa seleção uruguaia de sub-20 (de 2019 creio) destaquei imediatamente 3 jogadores: pela velocidade da condução com bola e verticalidade no ataque ao espaço o avançado centro Darwin Nunez; pela mobilidade e segurança nas ações de pressão e qualidade com bola o defesa Ronald Araújo; e pela agilidade, velocidade reação e técnica de mãos o guarda-redes (que até então desconhecia por completo).

Fiquei, portanto, satisfeito quando no inicio do verão de 2022 e fruto de uma conversa informal, fiquei a saber em primeira mão o que empresário Martin Rodríguez tinha vindo tratar a Lisboa. Convenci-me de imediato que o campeonato português sairia reforçado com o futuro guarda-redes da seleção do Uruguai e a sucessão de Adán estava assegurada! 

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E hoje mantenho a opinião que Franco Israel mantem intactas todas as suas qualidades, algumas delas raras e inatas, e que são mais do que suficientes para a proteção da baliza de um clube da dimensão do campeão nacional. No entanto, o atleta tarda em afirmar-se como indiscutível.  

Israel será porventura vítima de um processo de formação inicial demasiado conservador. Encontro esses indícios pela forma como hesita em abandonar a linha de golo onde, claramente, encontra a sua zona de conforto, quase refúgio. A segurança entre postes que o caracteriza é ao mesmo tempo o que mais o atraiçoa quando se joga numa equipa em que o guarda-redes tem de ser o decimo primeiro jogador de campo, e também aqui para os parâmetros de excelências dos dias de hoje, o uruguaio tem de ser muitíssimo mais assertivo nas decisões de passe com os pés, até porque, não tendo qualquer handicap técnico nesse capítulo, vacila no momento da decisão. E, são tantas e tantas as vezes, que tem sido atraiçoado por aquele metro e meio demasiado junto à sua linha de baliza, e que e lhe retira tempo de saída, e o faz parecer menor na baliza aparentando esta estar mais desprotegida do que efetivamente está.  É esta falsa "perceção de insegurança" que transmite pela sua linguagem corporal demasiado reativa, que se por um lado é o que lhe permite grandes reações entre postes mesmo a remates à queima-roupa, exatamente a mesma que lhe empresta aquele ares de "guarda-redes da formação", que aos olhos dos adeptos tem comparado em perda com a autoridade a que António Adán os habituou, mesmo quando Franco Israel tem melhores registos estatísticos aos do veterano espanhol.

Com Kovacevic fora da solução para o problema, a contratação de Rui Silva ao Bétis, para além de fazer sentido no plano desportivo e financeiro pela relação preço qualidade e garantias de performance que o internacional português oferece, levantava-se a pertinente questão: deveria Rui Borges considerar desde já a inclusão do guarda-redes português no seu onze inicial, em detrimento do atual titular da baliza do Sporting, Franco Israel?

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Se o jogo em Vila do Conde não foi resposta suficiente, conseguirmos fundamentar a opção do do treinador não apenas em adjetivações de ordem estética sobre a linguagens corporais ou outras "perceções de segurança", analisando as estatísticas de ambos, assim como as respetivas capacidades técnicas.

Rui Silva, foi consistentemente um dos guarda-redes em destaque na La Liga, principalmente pelo que fez em Sevilha, possui um histórico de excelentes performances, com uma média de defesas por jogo que o colocava entre os melhores. De acordo com dados da temporada passada, Rui Silva registou uma taxa de defesa de 75%. Em comparação, Franco Israel, apresenta uma taxa inferior, em torno de 67%, e isto numa liga claramente menos competitiva onde não é posto à prova com a mesma regularidade, ou sequer por adversários com atacantes tão competentes quanto aqueles que o Bétis enfrenta todos os fins-de-semana. Essa rotina competitiva pode ser significativa em jogos onde os detalhes fazem a diferença, e onde cada defesa conta para a obtenção da vitória.

Além do plano meramente defensivo, é igualmente necessário avaliar a participação no jogo com bola de ambos. Rui Silva é reconhecido pela sua capacidade de participa na construção de jogo, essencialmente recorrendo a um pé esquerdo muito preciso na colocação de passes, por vezes até de ruptura, de de media e longa distancia. 

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Esta capacidade de assim conseguir, a partir do seu guarda redes,  penetrar uma primeira linha de pressão da equipa adversária , pode vir a ser vital no estilo de jogo prosseguido pelo Sporting de aqui em diante. 

À habilidade no jogo com os pés, alia igualmente ao bom posicionamento paro o jogo aéreo, e mesmo não sendo um guardião autoritário, excêntrico, ou para paradas impossíveis, é, no momento presente, o mais completo entre as opções que Rui Borges tem para a baliza.

Ademais, não podemos descurar o fator experiência. Essa vivência é crucial, e isso vê-se tanto nos grandes jogos como naqueles com menos participação no jogo mas que exigem uma tremenda concentração competitiva, e pode ser também um elemento determinante para a equipa, o que faz de Rui Silva uma escolha mais fiável neste momento crítico para a reafirmação do Sporting como candidato ao título.

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Concluindo, Franco Israel tem demonstrado potencial, e o seu  talento é inegável, mas a consolidação de um guarda-redes numa equipa que almeja títulos, requer muito mais do que apenas um punhado de boas atuações. 

O Sporting faz muito bem em renovar com o Franco Israel, acreditando que este tem um radioso futuro pela frente, mas é preciso "encher a baliza" com um guarda-redes experiente como Rui Silva, o que poderá incrementar a confiança na defesa, e influenciar positivamente todo o plantel. A liderança na baliza é muitas vezes o fator decisivo que orienta todo o setor defensivo, e nesse espectro de análise, Rui Silva apresenta uma solidez que será admirada pelos adeptos do clube de Alvalade.

Rui Silva deve ser o guarda-redes titular para Rui Borges e não há qualquer razão para que não o fosse desde já. 

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Não se trata aqui de uma questão de talento, mas sim de uma escolha estratégica fundamental para otimizar o desempenho da equipa e garantir competitividade no mais alto nível. Rui Silva será o pilar que faltava para a reconstrução da equipa campeã nacional.

Por Nuno Félix
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