São evidentes as dissemelhanças: um é gordinho, barbudo, dizem que é lapão, o outro é elegante, careca e tem fama de langão. No entanto, acompanhem-me.
No ano passado, por esta altura, o Sporting Clube de Portugal jogava bem e seguia em primeiro. Em Alvalade faziam décadas que o Pai Natal dava pelo nome de Aurélio Pereira, e os melhores presentes que Paulo Bento, Leonardo Jardim ou Marco Silva receberam para trabalhar chegaram no trenó de Alcochete.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam-se os treinadores, e o Natal passou a ser quando Jesus quisesse. Os velhos de Alvalade logo temeram pela Academia, mas o treinador não demorou a desmenti-los, primeiro com Gelson Martins, mais tarde com Rúben Semedo.
Uma vez mais, o Pai Natal de Alcochete havia sido generoso para com uma equipa jovem, mas particularmente bem comportada, onde, com a exceção do Rei Mago Islam Slimani, poucos haviam sido os forasteiros com qualidade para emparelhar com os 'aurélios' domésticos. Momentos houve em que aquilo era uma orquestra, onde o registra que pautava o jogo da sua equipa a partir do interior direito, e espalhava jogo, 'na vertical, na diagonal, ou na horizontal'. O seu nome? Eduardo, João Mário Eduardo.
E no início da nova temporada, 40 milhões no sapatinho, e os familiares pezinhos de lã, lá foram dirigir a desafinada Internazionale da cidade de Giuseppe Verdi.
Mesmo para os adeptos mais gratos, já ninguém se lembrava que o caçula tinha um irmão primogénito, um virtuoso solista. Este irmão já andou mesmo perdido, numa equipa holandesa de segunda linha, vã tentativa de recuperá-lo num campeonato que é para meninas. É Natal, ninguém leva a mal e não é que reapareceu agora vestido de vermelho e branco?! E foi como se nunca tivesse marcado e dado a marcar envergando a listada de Alvalade.
Eduardo, Wilson Eduardo, que se deu a conhecer para o futebol com o nome de família, atuou de quinas ao peito 37 vezes em jogos oficiais pelas seleções jovens de Portugal. Foi capitão de Portugal e teve o 10 nas costas. Ao longo do tempo foi atuando à esquerda e à direita, sempre do meio-campo para a frente. As suas armas: uma cadência de passada pouco usual, num estilo de falso lento que consegue ser mesmo muito rápido, uma bola colada ao pé direito de onde pode sair fácil para uma meia distância muito potente e colocada, ou para um cruzamento bastante tenso, com banana qb. Um extremo natural?
Foi no 4-4-2 losango, ou diamante (como prefiro referir), nos sub-21 de Rui Jorge, que marcou 6 golos em 14 jogos a jogar predominantemente como avançado. Partia tantas vezes entre linhas, descaído na esquerda, procurando combinações com um outro filho da academia sportinguista, o atacante móvel, Rui Fonte...
Os baixotes de La Masia não venceram no Barcelona por acaso, assim como o Wilson e o Rui também não começaram a jogar juntos no domingo à noite.
Não houve surpresa em Alvalade, Wilson Eduardo já havia marcado ao Sporting como jogador emprestado, e o Rui Patrício já deve ter defendido, em treinos, centenas de remates com selo de golo da autoria do irmão do João Mário.
O Wilson é um jogador que engana, fascina e desilude. Tem um futebol difícil de amar e mais difícil ainda de compreender. Criticá-lo é fácil, se o seu irmão aos 18 já parecia jogar como um jogador de 30 pela calma e maturidade com que definia, o Wilson com a mesma idade já parecia ter cinquenta, tal a força, ou falta dela, de uma linguagem corporal que denuncia um jogador muito poupadinho quando o trabalho não mete bola. E podemos até esquecer a bola, entra em jogo já curvado e com uma testa tão pronunciada e luzidia que mais parece calvície.
Aqueles joelhos pouco fletidos, aquele tronco meio empanado movido a passinhos curtos. Um scout menos preparado pensará de imediato "o que está aqui a fazer este puxadinho das costas"?! E depois há a agressividade, aquilo que alguns amassam com a agora famosa 'intensidade' e servem no comentário pré-cozinhado do jogador moderno, que "também sabe jogar feio" e que "destrói tão bem como constrói".
As pessoas pagam bilhete para irem ver o quê? Não são os golos? Não é o virtuosismo e velocidade com bola? As pessoas até pagam bilhete para maldizerem os Wilsons Eduardos deste jogo, que tantas vezes dão a impressão de não quererem ter nada a ver com aquilo, mas que sabemos bem, são craques.
"Eu não estou aqui para suar, estou aqui para marcar." Parece dizer o Wilson em todos os momentos do jogo. Porque não há como pedir aquilo que um jogador não tem. É efetivamente um jogador pouco agressivo, mesmo demasiado avesso ao contacto físico e à dor que pode daí resultar. É fraquíssimo no jogo aéreo, um esquema tático não pode fazer depender dele a consistência do seu processo defensivo. Tamagnini Batista, o eficaz Nené, não sujava os calções? Ora bem, o Wilson gosta da bola e do golo, tudo o resto é algo com que sabe ter de lidar, de que se protege e guarda para os grandes momentos e que por vezes até o parece entristecê-lo.
É um jogador que pensa sempre no jogo com a bola e para a frente é que é caminho! Adora imprimir aquela velocidade espontânea que escancara qualquer brecha detetada na defesa adversária. É um jogador com atração pelo espaço, que o procura mesmo para além das barreiras que lhe são impostas. Tantos talentos se perderam por jogarem na posição errada, na equipa errada, até na liga errada.
O Wilson é um avançado. Tem uma cabeça de avançado num corpo com aptidões de extremo. Com o tempo, tenderá a compreender cada vez melhor o jogo, a esconder as suas debilidades e a fazer melhor uso das suas armas. Mas pode alguém ser quem não é? Poderá alguma vez ser um médio interior de equipa grande? Ou um extremo puro que tem que procurar a linha e acompanhar o lateral oposto sempre que a sua equipa perca a bola?
A sua melhor posição é a de um falso nove, um avançado sombra que ande muito mais por terrenos interiores do que exteriores, onde a sua apurada técnica de receção, condução e passe, façam uma diferença muito maior. Nunca lutará por uma primeira bola bombeada, não compensará a sua equipa num contragolpe que lhe peça um pique de 60 metros em marcha-atrás.
No entanto, ser um jogador estritamente ofensivo não faz dele um preguiçoso ou um jogador inconstante. Por mais que entenda do jogo, este é um jogador que pede que o compreendam ainda melhor a ele. Só assim podem saber o que dele podem pedir.
Todos sabemos que para o Pai Natal existem dois tipos de meninos, os que se portam bem e recebem presentes, e os outros que... curiosamente também recebem presentes!!!
Se calhar o Pai Natal saberá de alguma coisa que nos escapa, comuns mortais. Todas as crianças, à sua maneira, são capazes de coisas fantásticas. À sua maneira comportam-se todas bem. O Mister do Natal sabe compreender o seu plantel. Será que o Sporting alguma vez soube o que tinha nas mãos?
Se um Wilson vale um João Mário? Não arrisco tanto. Mas não valerá metade?
Para já parece ter custado um campeonato.
Por Nuno Félix