Não me parece que a Liga tenha estado bem na decisão de subscrever o ‘entendimento’ entre o Benfica e o Sp. Braga para a realização da meia-final da Taça da Liga para o dia 2 de maio. Se o Benfica e o Sp. Braga fossem as duas únicas equipas do calendário futebolístico compreender-se-ia o adiamento. Mas não são. Nas suas mais diversas variáveis e consequências, a Liga deveria olhar para as principais competições nacionais como um todo e não como uma parte. Acresce que, em condições normais, as meias-finais da prova deveriam ter-se realizado em fevereiro e isso não aconteceu por circunstâncias que não se discutem: a participação de Benfica e Sp. Braga nas provas europeias.
Esse argumento, contudo, terminou quando as duas equipas cessaram a sua participação na Champions e na Liga Europa. E, por isso, a única decisão compatível com a salvaguarda da integridade das competições seria a marcação deste jogo para a primeira data disponível no calnedário oficial, reunidos todos os preceitos regulamentares e legais. Essa data seria a da próxima quinta-feira, dia 21, como aliás deixou escapar o treinador dos bracarenses, Paulo Fonseca, após a eliminação ditada pelo Shakhtar.
O Benfica não queria jogar na próxima quinta-feira, porque sabe que tem um jogo na segunda e a equipa está ‘espremida’ e pressionada com a questão do título. A verdade, porém, é que o Sp. Braga ainda está em piores condições, porque jogou na Ucrânia um dia depois em relação ao Benfica e entra em campo na segunda-feira duas horas mais cedo comparativamente aos ‘encarnados’; só não possui a ‘pressão do título’ em cima de si, mas isso não deveria contar para a Liga. Nem o Sp. Braga, mais castigado fisicamente, dada a sua deslocação à Ucrânia, teria razões para não querer jogar a 21.
Esperemos que este ‘entendimento’ não seja o prenúncio de um final de época muito atribulado, com muitas alianças instantâneas. Será que FC Porto e Sporting, pelo seu lado, também estão a correr por uma aproximação, tornando mais difíceis os desafios que se colocam ao Benfica?…
Entramos na reta final do campeonato e, no plano meramente técnico-desportivo, o principal adversário do Benfica não é nem o calendário, nem o Sporting mas a sua própria condição física.
Quando partiram para esta época futebolística, os responsáveis encarnados tinham três objectivos fundamentais:
1) Conquistar o tricampeonato;
2) Fazer uma campanha europeia com o máximo êxito possível, sem poupanças;
3) Conseguir essas proezas, provando interna e externamente que estes desideratos seriam exequíveis sem Jorge Jesus no Benfica.
Parece claro que o principal desses objectivos – a conquista do tricampeonato –, sem que seja desde já um dado adquirido, tem muitas probabilidades de acontecer. No plano europeu, o Benfica atingiu os quartos-de-final da Liga dos Campeões, o máximo que o clube da Luz havia alcançado nas últimas seis temporadas, isto é, ao longo do consulado de Jorge Jesus. Não se sabe, porém, quais as consequências do esforço a que o Benfica se submeteu, nas últimas semanas, devido à sua vontade legítima de ir o mais longe possível nesta sua odisseia na Champions. Já todos percebemos do que o Benfica é capaz tecnicamente. Já todos percebemos do que o Benfica é capaz tacticamente. Ainda não é chegado o momento de determinar o quanto o Benfica é capaz de alcançar, no plano da condição física. E o plano da condição física vai ser decisivo nas próximas semanas.
Abril é, neste domínio, o mês crítico e se os plantéis não são ricos ou se a gestão física for desprezada, a queda pode acontecer. O conjunto de 5 jogos em 18 dias – precisamente os números de Benfica e Sp. Braga – representa algo de banal na Europa, mas é um drama em Portugal. Benfica e Sp. Braga, saídos dos seus compromissos europeus, jogam na segunda-feira; os adversários das equipas portuguesas nesta semana europeia jogam hoje (Bayern) e amanhã (Shakhtar)…
Repare-se: o Benfica quer lutar contra o princípio da gestão ‘à Jorge Jesus’, mas não quis jogar a meia-final da Taça da Liga 72 horas depois da equipa entrar em campo com o V. Setúbal. Parece e é contraditório, mas o Benfica chega a esta altura da época, depois de ter feito o seu caminho na Champions, muito próximo dos limites.
Entende-se porquê. Não está em campo toda a qualidade há jogadores que não estão a 100 por cento. Ederson anda a fazer de Júlio César; Lindelof anda a fazer de Luisão e de Lisandro Lopez e, neste jogo de quarta-feira com o Bayern, na Luz, Pizzi teve de fazer de Jonas (neste caso, porque o brasileiro estava suspenso pela UEFA), obrigando Salvio a fazer de Pizzi, Carcela teve de fazer de Gaitán e Jiménez teve de fazer de Mitroglou, já para não falar do outro grego, Samaris, que ficou no banco, muito provavelmente para aparecer ‘intacto’ no jogo com os sadinos.
Em síntese: a questão física debate-se. Com Jesus e com Rui Vitória. Em Rui Vitória e em Jesus.
* Texto escrito com a antiga ortografia
JARDIM DAS ESTRELAS -- 3 estrelas
Benfica cumpriu
e… bom Jiménez
O Benfica teve um bom comportamento europeu e bateu-se com galhardia perante um Bayern que não está no seu melhor. Merecem destaque o compromisso táctico (cá e lá) e o equilíbrio da equipa, mesmo privada de algumas das suas unidades nucleares. A verdade é que um bom Jiménez teve o 2-0 nos pés, embora equipas como o Bayern transmitam a ideia de que, quando é preciso (como no jogo da Luz)… resolvem.
Uma palavra para o Sp. Braga: uma boa campanha e um mau jogo em Lviv. As diferenças de ritmo e de velocidade foram brutais. As equipas de topo em Portugal raramente são obrigadas a jogar a um ritmo elevado, porque a generalidade das equipas jogam em posse e com linhas recuadas. Conclusão: baixa exigência, baixo ritmo, baixa velocidade. E isso é um problema da nossa Liga…
O CACTO -- Tolerar o intolerável
O Atlético de Madrid, sob a batuta de Simeone, tem sido um grande exemplo de competitividade no futebol (sem grandes ‘estrelas’) e, por isso, merece ser feliz. Mas, ao minuto 90 da eliminatória com o Barcelona, Gabi jogou a bola com o braço, dentro da área madrilena, na sequência de um remate de Iniesta e o árbitro assinalou um livre directo. São estes lances que podem alterar a história de um jogo e são estas decisões dos árbitros que determinam mais ou menos receitas, mais ou menos sucesso. Um lance fácil de avaliar pelo vídeo, como tantos outros. Houve outras más arbitragens e, no jogo da Luz, aos 75 minutos, o árbitro decidiu mal quando exibiu ‘amarelo’ a Javi Martinez e não o ‘vermelho’. Gonçalo Guedes ia para a baliza e não tinha nenhum adversário por perto. O futebol continua a tolerar o intolerável.
Por Rui Santos