As suspeitas de corrupção à volta do novo presidente da FIFA

Adicione como fonte preferencial no Google

Sai Joseph Blatter. Entra Issa Hayatou. Sai o homem que foi presidente da FIFA durante 17 anos. Entra o homem que é vice-presidente do mesmo organismo há quase três décadas. Blatter foi suspenso por suspeitas de corrupção. Hayatou viu o seu nome ligado a práticas ilegais por várias ocasiões, mas nunca tombou.

Curiosamente, o camaronês, de 69 anos, substitui no cargo de presidente o seu adversário nas eleições de 2002. Nessa altura, Blatter arrancou para um segundo mandato com uma vitória esmagadora sobre Hayatou (139 votos contra 66). Os dois não se davam. Tinham ideias contrárias de como gerir a FIFA. Mas com o tempo tornaram-se aliados inseparáveis.

O dirigente africano foi mesmo o único que enfrentou Blatter e continuou na FIFA. Todos os outros caíram. Porém, há uma diferença fundamental: Hayatou é presidente da Confederação Africana de Futebol (CAF) desde 1987. Ou seja: representa 54 federações, tantas como a UEFA, das 209 que compõem a FIFA e têm poder de voto nas eleições presidenciais. A partir da derrota de 2002, a influência de Hayatou no futebol africano seria uma ajuda fundamental para as vitórias seguintes de Blatter. Ainda antes das últimas eleições, em maio, Hayatou pediu às federações de África para votarem em bloco no suíço.  Nem mesmo a candidatura do português Luís Figo serviu para desviar as intenções de voto dos países africanos lusófonos. O presidente da federação da Guiné Bissau, Manuel Lopes, afirmou mesmo que “votar contra Blatter seria uma blasfémia”.

Hayatou deseja, África concretiza. É fácil perceber esta lealdade. Durante o reinado do camaronês na CAF, o continente africano aumentou de duas para cinco seleções a sua representação no Mundial e recebeu o primeiro Campeonato do Mundo, na África do Sul, em 2010. Além disso, muitas federações receberam fundos da FIFA para investir no desenvolvimento do futebol local. Tudo isto aconteceu na presidência de Blatter.

Acusado de subornos

O grande trabalho no futebol africano contrasta com muitas alegações de corrupção. O homem que acaba de chegar à presidência da FIFA – e que por lá se deverá manter até às próximas eleições, agendadas para 26 de fevereiro do próximo ano – tem um longo historial de práticas menos corretas.

Uma reportagem do programa BBC Panorama, exibida em 2010, revela que três membros do comité executivo da FIFA receberam subornos da ISL, uma empresa de marketing desportivo: Hayatou, Ricardo Teixeira e Nicolas Leoz (um dos detidos na operação policial de maio). As alegações remontam a 2001, ano em que a ISL faliu de forma surpreendente e avassaladora. Com a falência, vieram à tona vários documentos dando conta de subornos superiores a 100 milhões de euros pagos a dirigentes da FIFA. Estes pagamentos seriam um forte contributo para o suicídio financeiro daquela que foi, durante décadas, a maior e mais conceituada empresa de marketing desportivo do mundo.

O camaronês admitiu ter recebido 20 mil dólares (perto de 18 mil euros), mas negou tratar-se de suborno e sim de uma prenda para a sua confederação. Embora a FIFA não o tenha punido, Hayatou recebeu uma reprimenda do Comité Olímpico, do qual também é membro.

Em 2010, o jornal inglês Sunday Times revelou ter provas de que Hayatou e Jacques Anouma (presidente da federação da Costa do Marfim) terão recebido mais de 1,5 milhões de dólares (cerca de 1,3 milhões de euros) para votarem na candidatura do Qatar ao Mundial de 2022. O camaronês negou e Blatter deu-lhe um grande voto público de confiança: “És indestrutível e um pilar do futebol africano.”

À espera de Platini

O homem de ferro de Blatter chega agora à presidência da FIFA. Assume esta posição depois de ver o comité de ética do organismo aplicar uma suspensão de 90 dias a Blatter, o presidente cessante, e a Michel Platini, o presidente da UEFA e candidato à liderança da FIFA nas próximas eleições.

Nas primeiras palavras no novo cargo, Hayatou disse que não quer manter-se na função e deseja apenas que Platini possa “limpar o seu nome e anular a suspensão do comité de ética recorrendo a outros organismos”.

Sobre Blatter nem uma palavra. E sobre a possibilidade de outros membros da FIFA virem a ser castigados? “Não vamos inventar histórias sensacionalistas, mas se tiver de acontecer, vai acontecer. Todos aqueles que fizeram porcaria devem ser suspensos. Ninguém deve ser protegido.” Palavras do homem que foi acusado de receber subornos por duas vezes.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade