Mónica Jorge: «Defesa da jogadora portuguesa é o primeiro foco»

Analisamos o panorama nacional no futebol feminino e o ‘retrato’ faz acreditar no crescimento deste sector nos próximos anos

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Uma prova jovem e com base na ‘prata da casa’. Esta é a melhor maneira de definir a Liga portuguesa de futebol feminino, prova que tem vindo a crescer de ano para ano, a par das várias seleções, mas que ainda tem algumas diferenças em relação aos principais campeonatos deste sector.

Uma análise às maiores ligas de futebol feminino - Alemanha, Estados Unidos, França, Inglaterra e Suécia –, realizada pelo Observatório do Futebol, mostra que a média de idades das jogadoras nestes competições tem subido gradualmente, ultrapassando já os 25 anos. Um número muito longe do registado em Portugal em 2017/18, época na qual se registou uma média de 21,88 anos. Para a diretora da Federação Portuguesa de Futebol para o futebol feminino, Mónica Jorge, esta particularidade tem a ver não só com uma aposta concreta, mas também com uma necessidade. "É sempre importante a participação das jovens na Liga. A Federação ainda não tem um lote de seniores elevado para que a liga seja um pouco mais competitiva nesse campo, seja mais madura. No entanto, também acaba por ser positivo dar oportunidade a muitas jogadoras mais jovens poderem disputar a Liga", começa por explicar a dirigente a Record.

"Há uma geração muito jovem. O campeonato de juniores é disputado maioritariamente por jogadoras Sub-17, a 2ª Divisão também tem uma média a rondar os 20 anos e isto acaba por refletir-se também na Liga. Com o aumento de praticantes que está a acontecer nas camadas jovens, daqui a três, quatro ou cinco anos elas chegarão naturalmente a um patamar mais elevado. E aí sim, como é óbvio, a nossa liga terá mais riqueza a nível de jogadoras portuguesas, mais maturidade", acrescenta.

A par do que acontece em outros países, a tendência é o aumento da média de idades na prova, mas Mónica Jorge garante que a aposta na formação e na jogadora nacional não vai diminuir. Antes pelo contrário. "É uma evolução natural. Cada vez há mais ligas com jogadoras profissionais. Hoje já temos dois clubes, essencialmente o Sporting e o Sp. Braga, que têm alguns contratos profissionais, com jogadoras que vivem disto, e acaba por haver um maior compromisso e competitividade. Isso vai trazer maior responsabilidade às outras equipas, que têm de acompanhar este processo", explica.

'Miúdas' não perdem o ritmo

Mónica Jorge promete que os níveis de exigência ainda vão aumentar no que diz respeito ao campeonato nacional. "Nos nossos regulamentos há essa necessidade de haver jogadoras formadas localmente [n.d.r.: oito atletas presentes na ficha de jogo] e conforme a evolução do campeonato a exigência vai tornar-se maior. A defesa da jogadora portuguesa é sempre o primeiro foco da Federação Portuguesa de Futebol. Temos de ter a noção do número de praticantes seniores, que é cerca de mil praticantes federadas, e temos dois campeonatos no escalão sénior. A 2ª Divisão tem 50 equipas e há a Liga. Ainda é escasso, mas no futuro será maior, pois o aumento de praticantes está a acontecer essencialmente das sub-16 para baixo", sublinha a diretora da FPF, recordando ainda que os clubes nacionais têm igualmente de apresentar obrigatoriamente pelo menos uma equipa em competição nos escalões jovens.

Apesar da aposta clara na área da formação, o número de jogadoras estrangeiras tem igualmente aumentado no nosso campeonato, fator que também se fez notar nos países presentes no referido estudo do Observatório do Futebol. A diretora federativa sublinha que este não é um objetivo para a instituição que tutela o futebol português. "O objetivo não é aumentar o número de estrangeiras. A Liga tem uma exigência de haver jogadoras formadas localmente e vai continuar a ter essa exigência, cada vez mais. Sabemos que o número de seniores é muito reduzido para alimentar as equipas no campeonato. Provavelmente há a necessidade de ir buscar jogadoras que acrescentem qualidade e competitividade ao campeonato, o que faz com que as outras também cresçam. Aumenta a qualidade dos treinos, do próprio campeonato e dos jogos. A jogadora portuguesa também vai evoluir com esta qualidade e competitividade", remata a diretora da FPF.

Evolução está à vista

O crescimento do número de praticantes de futebol feminino tem sido uma constante nos últimos anos e não há sinais de abrandamento. No último ano houve um aumento de 20,1 por cento nas praticantes juniores e esse número aumenta para aos 77,3 por cento se verificarmos o crescimento dos últimos dois anos. O número de atletas federadas teve igualmente um crescimento de 15,5 por cento em relação ao ano passado – no conjunto dos últimos dois anos o aumento é de 56,1 por cento.

Na época 2017/18 quase dois terços das jogadoras da Liga apresentavam idade sub-23 e apenas 5 por cento tinham 30 anos ou mais. Aliás, o Vilaverdense e o Clube Albergaria não contaram mesmo com qualquer atleta com 30 anos ou mais. Outro número demonstrativo da juventude da nossa Liga é o facto de, entre a elite do futebol feminino nacional, terem jogado 13 jogadoras com idades entre os 14 e os 16 anos. Inês Pires (Quintajense) e Cláudia Mendinha (A-dos-Francos), ambas com 14 anos, foram as petizes da principal competição.

A equipa com a média de idades mais jovem foi o Vilaverdense (21,02 anos), seguido de muito perto pelo Quintajense (21,06) e pelo bicampeão Sporting (21,1). Já a equipa mais ‘velha’ foi o U. Ferreirense, com uma média de 23,1 anos. No polo oposto, Sílvia Brunheira (43 anos) assumiu-se como a ‘veterana’ da competição, alinhando pelo Futebol Benfica e sendo uma das nove jogadoras com mais de 35 anos.

Portuguesas emigram mas voltam

Os principais campeonatos de futebol feminino, incluídos no estudo do Observatório do Futebol já referido, também se destacam pelo peso que as jogadoras internacionais pelos respetivos países têm nas diversas equipas – a percentagem de minutos jogados por estas é mais elevada nos Estados Unidos e em Inglaterra. Em Portugal, a Seleção começa a ter cada vez mais jogadoras das provas domésticas, sobretudo devido ao regresso das emigrantes. Em 2016, na fase de apuramento para o Europeu, metade da convocatória nacional era composta por jogadoras que alinhavam no estrangeiro, caso da capitã Cláudia Neto, atualmente nas alemãs do Wolfsburgo. Mas algumas, como Carole Costa, Dolores Silva (que este ano voltou a emigrar) ou Ana Borges já disputaram a Liga na passada temporada. Outras, como Carolina Mendes ou Suzane Pires, regressaram esta época.

Por Cláudia Marques
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