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Pedro Queirós: «Na montanha, se desistes morres»

A preparação para chegar ao Evereste não se resume apenas a treinos de escalada. Para Pedro Queirós há muito mais do que isso, especialmente uma capacidade de resistência acima da média. Um aspeto que trabalha nos vários desportos que pratica – ioga, natação, ginásio e, principalmente, a corrida. Ao todo, explica, nos últimos 5 anos dedicou "30 a 40 horas ao treino", muito por culpa da estabilidade que lhe deu ter-se mudado para o Irão, porque ali conseguiu conciliar o desporto com vida profissional e, principalmente, familiar.

O atletismo é uma parte importante dessa preparação e é quase com vida "de atleta de alta competição" que se prepara para as maratonas que faz. Já tem 9 no currículo, a última delas em Sevilha, com um tempo de 2:41 horas. Isto depois de ter feito a 1ª, em Atenas, em 4:30 horas. É aí que tem trabalhado tanto a capacidade de superação, mas também a condição física. "Sabia que ia dar-me vantagem, porque o Evereste é um animal que tens de enfrentar com uma grande condição física. Pela ausência de oxigénio, pelos dias que passas lá, pela inclinação da montanha. Se estás em boa condição tens mais facilidade em superar a 'doença da altitude', por exemplo. O frio também. Sabia que com uma boa condição tinha mais probabilidade de atingir o sucesso", explica.

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A preparação física é um ponto que diz ser fundamental, mas confessa que é necessário trabalhar a mente na mesma medida. "O melhor atleta do Mundo, como o Kílian Jornet ou o Ronaldo, mesmo tendo uma grande capacidade física, se não estiver bem preparado mentalmente, com um grande equilíbrio e calma, não consegue chegar ao topo", explica. "Na montanha não é como numa maratona, em que se estás mal no quilómetro 30 ou 35 podes encostar ao lado, desistes e treinas de novo. Na montanha se desistes morres. Não há outra forma de colocar a coisa, não há um quarto de refúgio", diz, sem rodeios. Especialmente quando se superam os 6.500 metros, onde já não há chance de ser salvo de helicóptero. A partir dali "o risco de morte é muito grande". "Com este risco, pode acontecer uma coisa que é seres invadido pelo medo. Se isso acontece o medo é como um vírus. Vai alterar o teu discernimento, a tua capacidade para tomar decisões, podes confundir o bem estar com mal estar... Podes ter uma série de confusões internas que podem acabar em tragédia. Podes fazer as coisas pelos motivos errados." Não aconteceu no seu caso, mas assume que houve momentos "muito difíceis". Ter passado por "por cadáveres, frio ou o mau tempo" foram alguns deles, mas aí teve de "manter muita a estabilidade emocional que tinha trabalhado" previamente.

E depois há outro aspeto que não descura neste processo: o conhecimento. "Queria saber o que ia encontrar. As várias secções, as mais perigosas, a melhor temporada, os tipos de desafios que ia encontrar. Tentei angariar o máximo de conhecimento, era fundamental".

Recuperação quase a 100%

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Como qualquer grande desafio físico, a subida ao ponto mais alto do planeta deixa marcas. E a recuperação, mesmo que lenta, vai correndo a bom ritmo. "Ao início foi muito difícil. Perdi cerca de 8 quilos. A pele da cara e dos braços estava muito queimada. Tinha várias feridas nos pés, principalmente. Fiquei com muita tosse. Houve muitas questões que tive de recuperando devagar. A primeira prioridade foi a comida e o sono. Comecei a alimentar-me melhor, mas nos primeiros dias tive problemas intestinais e não tinha apetite. Custou um bocado recuperar os hábitos. Depois caiu-me a pele da cara. Essa parte demorou uma ou duas semanas a passar. Na altura deixei de sentir dois dedos dos pés, que apenas uns 25 dias depois voltei a sentir. Tive muita tosse nos dias seguintes e um mês e pouco ainda vou tendo. Ainda assim, já estou recuperado quase a 100%", garante.

E se os efeitos da subida ao topo do Mundo ainda se fazem sentir no corpo, também na mente eles estão presentes. "Sempre que adormeço ou faço uma sesta, 'volto' ao Evereste. Estou sempre a escalar a montanha, seja a subir, a tirar as botas, a falar com o guia. Não há um minuto no meu sonho que não seja sobre o Evereste", refere.

«Vida em Teerão é como em Lisboa»

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Conseguiu fazer tudo isso no Irão, um país que, confessa, o surpreendeu. "Inicialmente, depois de casarmos em 2016, a ideia era viver em Portugal, mas depois de lá ir, de ter percebido é um país super desenvolvido, com muitas oportunidades, decidimos começar lá a nossa vida". E, ponderadas as coisas, Pedro assume que pouco difere em relação ao que sucederia por cá. "Tenho o meu projeto, falo a língua. A minha é como em Lisboa. As pessoas se calhar têm uma ideia de que possa ser um país cheio de problemas, de terroristas, há a questão nuclear, as burkas, etc. Mas é um país que tem escolas, escritórios, estradas, aeroportos, trânsito, comboios... Tenho uma vida muito boa em Teerão. Também beneficio de um custo de vida inferior, nomeadamente na parte alimentar e rendas. Essa parte é uma grande vantagem. Depois é uma cidade que tem tudo aquilo que possamos querer. Se quiser ir a piscina, escalar montanhas, ir a um restaurante italiano.... Lá consegues encontrar aquilo que tens aqui [em Lisboa]. Mas obviamente que existe a falta de liberdade politica, os direitos das mulheres, a liberdade de imprensa, que é um flagelo. Eu, como estrangeiro, não sinto tanto, mas é um flagelo que condiciona a vida de muita gente", assume.

Além de ser atleta e consultor, há outra paixão na vida de Pedro Queirós. Uma que surgiu também no Irão: os pistachios. Iniciou uma empresa de exportação para o nosso país (os pistachios Ghazal) e não poupa nos elogios ao produto que tem em mãos. "São orgânicos, são maravilhosos. Os pistachios são como o azeite para Portugal. Têm condições muito favoráveis para produção de frutos secos no Irão e não têm nada a ver com os que vemos por Portugal".

Por Fábio Lima
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