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Nos últimos tempos, para lá de termos feito algumas provas mais comerciais e famosas, como Berlim, Sevilha, Valência ou Praga, temos também tentado trazer aos nossos leitores outras menos conceituadas, mas que podem dar uma experiência diferente a quem tem na corrida uma forma de escape da rotina e stress do dia a dia. Sem olhar a tempos, sem a pressão de fazer grandes marcas, mas antes por viver uma experiência diferente. Entre amigos, entre família, num fim de semana (ou semana completa) apenas longe da rotina habitual.
Já aqui mostrámos Rio de Janeiro, Ibiza, Luxemburgo, Antalya ou Genebra, e agora é hora de voltar às ilhas espanholas para falarmos da Maratona de Palma de Maiorca. Tal como todas as outras citadas, não é uma grande prova internacional (excetuando o Rio de Janeiro), mas é capaz de dar aos corredores toda uma experiência de corrida e turística que vale a pena viver... A começar pelo simples facto de ser disputada num território insular, o que desde logo garante vistas e um cenário de cortar a respiração - e, lá está, diferente daquele a que estamos habituados, normalmente com maratonas urbanas, por entre mil prédios... Palma foge a essa regra... e ainda bem! É um território com praia, (normalmente) sol e bom tempo, boa disposição, boa comida... Há melhor plano do que esse?
Foi por tudo isso que, depois de Chicago, fizemos as malas para rumar à ilha espanhola. Deu para tudo: para relaxar nas praias belíssimas de Palmanova; para passear por entre as ruas; desfrurar da gastronomia local (têm de provar a ensaimada e, se gostarem, a sobrasada); e, claro, correr a maratona no domingo.
Antes de lá chegarmos, falemos apenas dos dias prévios. A expo da prova era localizada junto da Catedral, num cenário bastante agradável perto do Passeio Marítimo. Ali tivemos oportunidade de recolher sem grandes problemas o nosso kit de prova e conhecer as novidades de algumas marcas que associaram à organização, como a 361°, a marca oficial do evento. Ali ao lado, como estava um belo dia de sol, até tivemos a oportunidade de relaxar e apanhar um solzito numa das várias cadeiras que a organização ali colocou para o efeito. Dava definitivamente para tudo. Quanto à expo, não sendo muito grande, tinha tudo o necessário para alguma 'emergência' de última hora, com tendas de nutrição e acessórios bem apetrechadas.
Organização perfeita na adaptação aos problemas
Lembram-se de termos falado no bom tempo de Palma? No início da semana a previsão apontava para muito calor e a organização até fez questão de alertar os corredores bem cedo para a necessidade de terem cuidado de se hidratarem e irem preparados para isso, pois as temperaturas poderiam chegar aos 30 graus (um pouco à imagem do que se viu em Lisboa na semana anterior). Os dias foram passando e o clima mudou. Na véspera da prova a previsão já não era a mesma. Já se apontava a 22ºC de máxima e chuva por volta das 13 horas. Nunca antes.
Mas isto das previsões vale o que vale... e desta vez não correu bem. De noite caiu uma carga de água monumental e aquilo que eram estradas e ruas secas passaram a ser um verdadeiro rio. Quando chegámos a Palma no domingo eram 7 da manhã. As ruas estavam complicadas para os carros passarem. Imaginem para os corredores da maratona! Por isso, num trabalho rapidíssimo de coordenação com as autoridades, a organização tratou de atrasar a partida para as 9 horas. Tinha mesmo de ser, porque estava totalmente impossível correr com aquelas condições. Nenhum corredor aparentou estar agastado. Sabiam que não dava mesmo.
Pelas 7h20 parou de chover, mas as ruas tinham de ser 'abertas' para a passagem dos corredores e aquela água tinha de ser retirada. Assim foi. A previsão dizia que só voltaria a chover às 12 horas e, em parte, confirmou-se. Quando chegaram as 8h45 e estava claro que ia haver corrida. O céu tinha deixado de estar carregado e o sol até espreitava. O temporal dava lugar a um clima até agradável para correr, com uma brisa que se agradecia.
Antes do arranque, como manda a regra, foi hora da habitual ida à casa de banho e também ao bengaleiro para deixar a roupa para vestir depois da corrida. O facto de ser uma prova com um pelotão reduzido (seriam uns sete mil) ajudou, mas a verdade é que merece o aplauso toda a organização e amplo espaço para este efeito. Sem filas, sem complicações.
Pelas 9 horas, sem mais atrasos, a prova começou. O processo de partida foi rápido e num ápice já os mais de 7 mil corredores (nas 3 distâncias disponíveis) estavam a correr. Sem atropelos, sem confusões. Foi um arranque totalmente tranquilo.
Primeira volta em ritmo tranquilo
Vínhamos da Maratona de Chicago e a palavra de ordem era contenção. Desfrutar da corrida e divertir. Mesmo o plano perfeito para uma corrida como esta. A primeira fase, em cerca de 15 quilómetros, faz-se sempre pela zona marítimo, ali junto do Mediterrâneo, num perfil maioritariamente plano. Do ponto de vista do apoio, apesar de não ser nada do outro mundo, raramente nos faltou aqui e ali uma palavra de apoio de quem estava na beira da estrada. Nisto os espanhóis conseguem ser de outro campeonato!
Quando saímos da zona marítima, vinha a passagem pelo centro da cidade, que implicava algumas subidas algo inclinadas. Numa primeira volta, a um ritmo tranquilo, ainda as fazíamos de forma confortável (mas sempre em força). Dos 15 aos 20 andamos praticamente uns 80% entre ruas e ruelas, com uma passagem sempre emblemática em frente da Catedral. Na passagem pelas várias pequenas ruas, aqui e ali, muitas pessoas punham-se à janela para nos apoiar. Um cenário verdadeiramente especial!
Quando deixámos o centro, era hora de voltar à zona marítima, onde os corredores da meia maratona tinham a meta e os outros (os maratonistas)... o início da segunda volta. Tudo muito bem sinalizado, já agora!
De onde veio esta água toda?
Quando passámos à meia maratona, antes da separação para a direita, para onde iriam apenas os quase mil maratonistas, o céu começou a ficar carregado. Previa que viesse chuva, mas nada como efetivamente chegou. Algures pelos 25 quilómetros, já numa altura na qual em que o pelotão era bastante reduzido e não havia grupos, mas sim corredores isolados, começa a chover ligeiramente. Segundos depois... uma carga de água! Chovia a cântaros! Isto numa maratona que se previa quentinha...
E assim se fez praticamente o que se restava do segundo percurso. Debaixo de um dilúvio. Se para nós era um esforço heróico correr uma maratona com uma carga de água em cima, há que tirar o chapéu aos voluntários, que mesmo numas condições muitíssimo complicadas se mantiveram ali, sempre disponíveis para auxiliar os corredores nos abastecimentos - eram 10 no total da maratona. Neles tínhamos disponível não só água e isotónico, como também esponjas (necessárias para os dias de calor), fruta (em 6 deles) e ainda géis (em 2). Nos abastecimentos há a denotar a preocupação ecológica desta prova, com o pedido aos corredores para terem atenção redobrada para atirarem os copos utilizados para os contentores respetivos.
Aos 30 quilómetros, sempre com a chuva a cair-nos em cima, passámos pela zona da meta e sentimos um forte apoio popular que nos ajudou claramente a seguir para o que faltava. Eram apenas 12 quilómetros, mas os 12 quilómetros mais duros da prova. Repetíamos o primeiro percurso, mas agora com o desgaste acumulado e, no nosso caso, com um plano de prova que nos pedia para sermos mais rápidos. Foi assim que entrámos novamente na zona do centro da cidade, novamente com passagens em ruas e ruelas, que desta feita estavam bem mais molhadas e propícias a escorregadelas. Não nos aconteceu, mas a organização também fez questão de colocar pessoas nos pontos mais críticos a alertar para o perigo daqueles locais.
Sendo uma prova de duas voltas, o cansaço mental é um fator decisivo neste tipo de desafios, mas neste caso não se sentiu tanto muito por culpa do apoio popular, que nesta segunda volta se fazia notar ainda mais. Já seria 11h30 e, apesar da chuva que ainda caía, as pessoas já estavam mais presentes, nomeadamente nos cafés pelos quais passávamos. Sempre que vinha um corredor (e já de copo na mão) lá soltavam umas palavras de incentivo. Foi, claramente, uma experiêndia distinta da que tivemos na outra maratona com duas voltas que fizemos em Espanha (Bilbau), na qual a segunda volta foi absolutamente penosa.
Muita animação
Apesar do mau tempo na segunda metade da maratona, a organização fez questão de manter o plano de ter muitos pontos de animação ao longo do percurso, desde bandas de música até momentos em que simplesmente tínhamos um DJ a passar uns sons mais batidos. Isso ajudou-nos a enfrentar com outra cara a segunda metade com aquele temporal em cima. Sim, era uma cara molhada, de sofrimento normal de quem corre uma maratona. Mas era mais feliz...
E assim rapidamente fomos aproximando-nos do término da prova. O final, confessamos, destruiu-nos. Aquele imprimir de ritmo não era propriamente o mais fácil de se fazer no perfil de sobe e desce final, pelo que tivemos de levantar um pouco o pé e desfrutar do final com um andamento mais reduzido. Houve um momento em que tivemos de parar (bem, foram dois...) e rapidamente alguém do público nos soltou um grito de apoio. Coisas à espanhola...
Quando chegámos à meta, cerca de 3h30 depois da partida, já não chovia. O corredor triunfal estava até bem povoado de pessoas, fossem corredores que já tinham terminado (lembro que havia provas de 9k e de meia maratona) como de simples apoiantes que ali estava a dar uma força aos corredores. Fomos acarinhados como habitualmente sucede no país vizinho e cruzámos aquele pórtico com a sensação de satisfação por mais uma meta superada. Era a 38.ª maratona deste jornalista que vos escreve...
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