Estivemos no Quénia durante duas semanas e foi por uma unha negra que não nos cruzámos com Samuel Barata. O atleta do Benfica voltou a Portugal a 2 de fevereiro... horas antes de lá chegarmos. Ainda assim, aproveitámos a sua passagem no país para tentar perceber o que o fez lá estar, mas também aquilo que colheu nesta que foi a sua terceira passagem por Iten.
"Fui ao Quénia por três razões. Primeiro por causa do sítio em si, por existir um espírito de corrida que não se vê noutro lugar no Mundo. Qualquer pessoa, mesmo que não seja atleta, vê aquelas pessoas a correr e até fica com vontade de fazer o mesmo! Se aqui levantar às cinco da manhã para correr é um sacrifício, lá não é sacrifício nenhum. É um espírito brutal", começa por dizer.
O segundo ponto a destacar é a altitude. "Ao treinar lá tenho benefícios quando regresso. É o chamado doping natural, pois aumenta os meus níveis de hemoglobina de forma natural. Isso traz benefícios quando chego ao nível do mar", explica, antes de apontar a terceira razão que o levou ao Quénia. "As condições climatéricas. Aqui, em janeiro, estava muito frio. No Quénia está sempre ameno, bom calor e isso faz com que o treino tenha mais qualidade. Consequentemente a recuperação também é melhor".
Em Portugal há praticamente um mês depois dessa experiência queniana, num país que destaca por ser "rico do ponto de vista cultural e pela simplicidade de vida", Samuel Barata não tem dúvidas em apontar como proveitosa a sua viagem. "Fiz o meu recorde na meia maratona [n.d.r.: em Barcelona, com 1:01.40]. Depois de voltar ainda fiz um corta-mato, corri bem, mas ainda estava cansado da viagem. A classificação foi boa, mas achei que podia ter corrido melhor. Mas o resultado da 'meia' mostrou que o treino lá resultou, teve sucesso. Mas é preciso treinar bem lá, pois sem isso não há hipótese".
Uma aposta a ser feita
Com três passagens pelo Quénia no seu 'currículo', Samuel não tem dúvidas em apontar este caminho como algo que se devia apostar mais em Portugal. "Acho que deviam e que cada vez vão apostar mais. Aqui a questão tem sempre a ver com os custos. Nós, portugueses, gostamos de ter as coisas por garantidas. Gostamos que alguém nos apoie, que nos suporte a ida lá, em vez de nós investirmos para tirarmos dividendos a seguir. Nós temos essa mentalidade. Vejo muitos atletas estrangeiros a investir o seu dinheiro para lá ir, fazem resultados e vão ganhar dinheiro a seguir. Não temos essa mentalidade, é muito difícil porque vivemos a nossa realidade. Se o resultado não aparece, estamos a perder dinheiro. Em Portugal ganhamos menos do que outros países, como Espanha ou França, mas acabamos por não investir nestes estágios que fazem a diferença. Não podemos estar ao nível dos africanos, mas para nos tentarmos aproximar temos de treinar onde eles estão. Com estágios de altitude, treinar em grupo com os melhores atletas, porque é isso que nos faz sair da zona de conforto. Muitas vezes treinamos sozinhos aqui em Portugal e não saímos dela. E é assim que vamos obter resultados. Há uns anos éramos os melhores do mundo, fomos os pioneiros e retrocedemos. Agora temos de fazer o que os melhores da Europa fazem", desafiou.
O atleta do Benfica, que no mês de abril deverá fazer uma maratona, dá o exemplo de França e Alemanha e até faz uma confidência curiosa. "Vê-se nos principais campeonatos que eles estão lá na frente. Eu noto que quando estou a treinar com eles, não são melhores do que eu. Por vezes até são piores, mas depois saem de lá e fazem grandes resultados"
A razão do sucesso queniano
A fechar, fazendo uso do que já viu em três estágios no país, o atleta do Benfica é já capaz de apontar algumas das razões para o domínio e força destes no atletismo. "Primeiro de tudo é a genética e a seleção natural. Lá toda a gente treina. Desde miúdos correm. Treinam em altitude e, geneticamente, para eles sempre foi aquilo, o esforço é similar ao que nós temos aqui [em Portugal]. Depois tem a ver com a possibilidade de podr fazer uma melhor vida do que até então. Lá a vida é difícil, é muito à base da agricultura, alguns são motoristas, trabalham em hotéis, não passa daquilo. Era o que acontecia aqui nos anos 80 em Portugal, quando os atletas vinham para Lisboa davam tudo o que tinham e não tinham para ter uma melhor vida. É a mentalidade do sofrimento. Nós, os europeus, não sofremos tanto porque pensamos 'não precisamos disso, andamos aqui a sofrer para quê?'... Eles é 'vamos embora'", finaliza Samuel Barata.
Por Fábio Lima