Neste Mundo cada vez mais empresarial e global, muitas vezes os valores como a honra e a dignidade são desvirtuados e esquecidos em função das pessoas e dos interesses. O futebol não fica de fora desta equação. Ainda mais por ser uma atividade de sentimentos e emoções, além das influências, dos favores e do dinheiro envolvido. E por ter visibilidade pública, por criar mitos e tornar pessoas vulgares em figuras de relevo e com notoriedade.
Vivi essa realidade em alguns clubes e instituições por onde andei nestes 40 anos de futebol profissional. Pessoas com excessiva sede de poder, sem caráter e capazes de pisar e mentir como se isso fosse procedimento natural entre pares. Mas do que aqui pretendo fazer eco, é daqueles que fizeram e fazem com que o futebol e o jogo sejam melhores. Sejam diferentes, mais justos e solidários sempre com lisura de processos, respeito e compromisso. Lembro, entre muitos outros, do ‘grande’ Cláudio no meu União Vilafranquense. Do Elias Pereira no Sacavenense. De Armindo e Carlos Pimenta Machado no V. Guimarães. De Mário Rosa Freire e Manuel da Silva no Belenenses. Do inimitável Fernando Barata no Farense. Do Manuel Ribeiro no Alverca. Do Manuel Pedro no União de Montemor. Do conhecido e popular Luís Filipe Vieira no meu Benfica. Mesmo que por vezes tentem meter-se onde não devem. Por uma questão de feitio, hábito e teimosia. E também de paixão. É esse também o caso do meu amigo Almeida Antunes, eterno presidente/dirigente do carismático Atlético Clube de Portugal. Nesse Atlético de escondidas virtudes e conhecidos defeitos, esquecido pelo seu cândido bairrismo e pela revolução cultural e financeira de há décadas a esta parte.
O Atlético do Lapa que, com um coração do tamanho do Mundo e humildade típica das gentes da Tapadinha, fazia dos treinos e dos jogos uma constante festa. Sempre com um sorriso contagiante, esquecendo as dificuldades da vida, tendo para isso que trabalhar na Gulbenkian para que nada faltasse à família. Era, por isso, um exemplo dos ‘só profissionais da bola’.
O Lapinha, que num marcante jogo, disputadíssimo e com resultado incerto, ao sair a um cruzamento gritou: "É minha! É minha! Já não é…É golo!"
O Atlético do Almeida Antunes. Lembro bem a sua luta, nos anos 80 e 90, para ter os ordenados em dia. Relembro a reunião ‘secreta’ que tive com ele e outros dirigentes alcantarenses em 1987, quando, a meio da época, os resultados não eram os esperados e convidaram-me para assumir o cargo de treinador, substituindo o Fernando Peres. Disse-lhes: "Não pensem nisso. Primeiro, porque ainda pretendo jogar mais uns 5 ou 6 anos. Segundo, porque o Fernando Peres é um ótimo treinador e vai conseguir dar a volta a estes resultados menos positivos. Tenham confiança e acreditem!"
E assim foi. Fizemos uma época tranquila e acabámos em sexto. Questiono-me hoje, passados 30 anos, se em vez de mim, tivessem convidado um colega meu, que passados estes anos se tornou no treinador mais caro de sempre do nosso futebol. Qual teria sido a resposta dele?
Continue com essa força e determinação, meu caro Almeida Antunes. Continue a acreditar e a tentar concretizar o seu sonho. Como sempre fez.
Por António Carraça