Uma sauna especial

Felizmente que o futebol é cada vez mais uma atividade com regras claras, onde a legislação tem também introduzido mais ordem e profissionalismo e a ciência tem contribuído para que o jogo seja mais competitivo, organizado, onde a verdade desportiva seja sempre uma prioridade.

E quando falo em verdade, falo na verdade do jogo. Na essência do que deve ser a dúvida do que vai acontecer dentro de campo e só dentro de campo. É nesse retângulo que tudo se deve decidir. É certo que as forças nem sempre estão solidariamente divididas. No orçamento, nas condições de trabalho, na qualidade das estruturas de apoio, no poder das instituições.

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No entanto, nem sempre ganha o mais forte. O facto de existirem fatores endógenos que influenciam o rendimento dos jogadores e as decisões dos outros protagonistas, determina a incerteza do resultado.

A beleza do jogo é isso mesmo. Só no fim é que sabemos quem ganha. Muitas vezes sem justiça e mérito, é certo, mas não deixa de ser, também por isso, que a magia do jogo nos atrai. Mas nesta era das novas tecnologias e da globalização, a batota tem outras tonalidades. O interesse é meramente economicista e de enriquecimento fácil. Não tem a ver com pontos ou campeonatos, nem com vitórias ou derrotas.

Ao falar destas ‘mentiras’, volto atrás no tempo quando, algumas décadas atrás, tive a minha primeira e única experiência no Mundo perverso e sinuoso dos ‘complementos’…

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Passo a contar. Primeiras jornadas do Campeonato da 1ª Divisão. Jogo em casa com muitos milhares de espectadores nas bancadas. Estágio normal. Forte dia de calor e perspetiva de um encontro intenso e exigente. Palestra do treinador no balneário. Preparo-me mentalmente e escolho as botas ideais para o relvado que seria regado antes do jogo. Botas de pitons, claro!

Espero pela minha vez de ser massajado. O enfermeiro acerca-se de mim e diz...

– Carraça, foste convocado!

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– Fui convocado? Que palermice é essa? Eu sei que estou convocado, por isso estou aqui pronto para o jogo!

– Não é isso. Estás convocado para vires comigo à sauna.

– À sauna? Fazer o quê?

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– Vá, anda lá. A convocatória é do míster e não podes dizer que não.

Lá fui. Curioso e perplexo, pois nunca tinha sido chamado para ir à sauna antes de qualquer jogo.

Já dentro daquelas quatro paredes de madeira, vejo algumas seringas prontas a serem usadas e recebo a ‘ordem’...

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– Dá-me o braço!

– O que é isso?

– É um complemento vitamínico para te ajudar por causa do calor e do cansaço. Não tem qualquer problema e, como vês, mais colegas teus vão também tomar.

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– E se eu não quiser tomar?

– Tenho de dizer ao míster e possivelmente não jogas. Não sejas tonto. Confia em mim.

Tomei a injeção. Não senti nada de anormal. O pior foi à noite, não preguei olho. E o meu hálito era terrível. O jogo correu bem. Ganhámos e fui considerado um dos melhores jogadores em campo. Corri, corri e continuei a correr...

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Serviu-me de emenda. Nunca mais!

Por António Carraça
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