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Confessamos que a sugestão do nosso entrevistado surpreendeu-nos. Visto que Miguel Oliveira é natural de Almada, a escolha de um restaurante na Margem Sul do Tejo não foi inédita. Contudo, não esperávamos que um jovem piloto, de 20 anos, optasse por um restaurante de luxo num hotel quatro estrelas para um almoço descontraído. Quando chegámos, rapidamente compreendemos o porquê. A atmosfera do The 19 do Evidência Belverde Atitude Hotel, em Belverde, é perfeita para um almoço privado, longe dos olhares alheios.
“Não venho muitas vezes, mas gosto do espaço. É um local diferente para se estar. Discreto. Admito que não sou muito de ir ao restaurante. Felizmente tenho avós que cozinham lindamente. Os meus pais também cozinham bem e eu acabei por aprender”, confessou-nos. Não nos deixemos enganar pela aparência atlética de Miguel. O trabalho físico ajuda, é certo, mas a verdade é que a jovem promessa do motociclismo gosta de comer e sente falta das refeições caseiras das avós quando está em viagem. “Para mim a comida portuguesa é a melhor. Mas não tenho desejos. A não ser nos Estados Unidos, em que fico com vontade de comer um bitoque. Lá a alimentação é horrível. Muito à base de molhos e gordura”, explica com uma careta. “Os hambúrgueres são demasiado grandes e não há coisas frescas. Tudo é frito”, relembrou. Nas mãos seguramos a ementa. O espaço avant-garde privilegia a nova tecnologia. Aqui não há ardósias, nem cartas em papel. O menu está disponível em tablet. Lá fora está um dia de verão, mas no restaurante o ar condicionado não nos tira a vontade de comer um bom prato de carne. Bochechas de porco para o convidado, risotto de pato para nós. Quebremos a dieta. Quando questionado sobre a escolha, Miguel Oliveira explica que a comida portuguesa é a eleita e, apesar da idade, não se deixa levar em modas. “Odeio sushi. Tive uma intoxicação alimentar no Dubai. Ainda por cima estava de partida para o GP Japão”, relembrou, “traumatizado”.
A expressão no rosto do piloto não deixa margem para dúvidas. A experiência deve ter sido terrível, no entanto o riso foi inevitável. Estamos à mesa num restaurante de luxo, mas isso não nos impede de falar de todo o tipo de assuntos, certo? Nem mesmo daqueles que não são apropriados. A verdade é que a partir daqui ficámos mais confortáveis. A empregada volta a abordar-nos. “O que querem beber?”, pergunta-nos. Olhamos uns para os outros. Dúvidas, dúvidas. A resposta acabou por ser geral. “Água fresca”, respondemos. Nada mais simples. Ainda não chegámos à sobremesa, mas não resisto à tentação de perguntar a Miguel se cede a salgados ou doces. A resposta? “Salgados. Gosto de doces mas não tenho sobremesas preferidas. Gosto do arroz doce da minha avó”, responde, pensativo. “Ou isso ou então a bola de Berlim na praia”, esclareceu. Não podíamos estar mais de acordo. A praia faz toda a diferença.
Uma vida normal
Ainda estamos sozinhos no restaurante. Entre mergulhos, os clientes do hotel aproveitam ao máximo os raios de sol à beira da piscina. Com a praia da Fonte da Telha aqui tão perto, calculamos que Miguel esteja habituado às areias da Costa da Caparica. Chegámos à conclusão que não entra na lista de prioridades. “Não sou muito fã de praia. Acho um pouco monótono. Preciso de convidar uns amigos para jogar à bola ou às cartas. Assim não me aborreço”, explicou. Miguel quer sobretudo que compreendamos que, apesar de atleta, faz a vida igual a qualquer jovem da sua idade. “Vou ao cinema, saio com os amigos. Sou uma pessoa normal”, frisou. A frase provocou-nos o riso, mas o piloto reforçou a ideia. “As pessoas pensam que os atletas são muito escravos de si próprios. Felizmente o meu desporto permite fazer outras coisas. Não é tão físico. Não me imagino, por exemplo, a ter o dia a dia de um atleta de triatlo, que treina três vezes por dia desde muito novo. Precisam de muita força mental”, justificou.
Dos circuitos para o consultório
Somos interrompidos pela empregada do restaurante. Chegou o nosso almoço. Os dois pratos têm ótimo aspeto e não perdemos mais tempo. “Bom apetite!”, exclamamos. Saboreamos cada garfada, mas não perdemos o fio à meada. Conversamos mais um pouco sobre a vida profissional de outros atletas. Sobretudo aqueles das modalidades mais exigentes. Percebemos pelo discurso que Miguel tem os pés bem assentes na terra e que mantém a sua vida bem organizada. Tão organizada, que já foi motivo de chacota dos colegas de escola. Nós não fomos exceção. “Os meus cadernos pareciam de miúda. Tinha tudo bem organizado com separadores”, contou-nos “Tinhas letra de menina?”, ripostamos. “Sim, tinha” (risos).
A verdade é que Miguel Oliveira não se limita às corridas. É estudante de Medicina Dentária e está no segundo ano do curso. A vida agitada, ocupada entre longas viagens, preparação física, Grandes Prémios e promoções, obrigou-o a fazer uma pausa nos estudos. Conta-nos que prefere dar tempo ao tempo e prefere fazer as coisas com calma. A área suscitou-nos alguma curiosidade. Perguntámos a razão da escolha e a resposta foi clara. “Não gostava de outra coisa. Uma vez parti um osso e achei muito fixe ver a radiografia. Acabei por despertar o interesse”, disse com entusiasmo. É fácil de entender o fascínio que o jovem sente e como empenhado está nos estudos.
“Quando se escolhe um curso só por escolher, não traz futuro. Quando não se gosta, não vale a pena. Ao fazer isso, estamos apenas a tirar um lugar a outra pessoa que merecia muito mais essa oportunidade.” Se alguma vez tivemos dúvidas sobre a maturidade de Miguel, esta opinião fez cair todas as dúvidas. Aos poucos o prato vai ficando vazio. Lá fora, na esplanada do restaurante, sentam-se os primeiros clientes. Imaginar Miguel Oliveira fora dos circuitos é-nos difícil. Não é para menos, ele tem apenas 20 anos. Uma vida inteira pela frente, portanto. Embora encare o futuro com um olhar risonho, Miguel sabe que a carreira de piloto tem um limite de duração e por isso prefere traçar um plano sustentável para o resto da vida.
“Já tenho um consultório na zona do Fogueteiro. A minha família abriu uma clínica médica e dentária”, revelou-nos. “Não quer dizer que não continue ligado às motas. Mas cada um tem que ter um projeto de vida fora daquilo que faz. Os pilotos normalmente correm até aos 40 e tal anos. Tenho quase metade”, conta-nos entre garfadas.
Profissional sem trela
Terminado o prato principal, somos abordados pela empregada que nos pergunta pela sobremesa. Hora de agarrar novamente nos tablets. Olhamos para as opções ao som da música ambiente do restaurante. Mousse de chocolate com pimenta, tertúlia de frutos tropicais (o nome despertou-nos a curiosidade), pannacotta de manjericão com mousse de dióspiros, etc... Refletimos e... decidimos passar à frente. Voltamos à conversa. Mergulhamos sobre o Moto3 e as vitórias no GP Itália e no GP Holanda.
Bons momentos que ficam na memória do piloto, que escreveu uma página de história ao ser o primeiro português a vencer uma prova no Mundial de motociclismo. Mas nem tudo são rosas. Miguel sabe bem isso. “É nas adversidades que se fazem os campeões. Até porque é mais complicado lidar com uma derrota do que com uma vitória. Nas vitórias toda a gente está presente para dar palmadinhas nas costas. Quando as coisas não correm bem, o cenário muda”, diz com um semblante sério. Não ousamos interferir. “Por isso é preciso continuar a treinar, andar de bicicleta e correr, para estar sempre no pico de forma”, justifica. Aproveitamos para falar de uma entrevista que o nosso jornal realizou em junho ao piloto de MotoGP Jack Miller. Contamos ao Miguel que Jack o tem em muito boa conta e a reação do piloto de Almada foi de riso imediato. Achámos curioso e perguntamos o porquê. Revela-nos que passou uma semana no mínimo memorável com ele e o ex-companheiro de equipa, Artur Sissis, nos Estado Unidos. “Jurei para nunca mais. Não tinha andamento para eles”, conta-nos com um sorriso embaraçado.
Dois cães e uma gata
A personalidade de Jack contrasta com a do jovem piloto, que só tem paciência para as “maluquices” dos seus dois cães. Falamos sobre eles enquanto bebemos um expresso. Miguel mostra-nos com orgulho algumas fotografias que guarda no seu telemóvel. Um chama-se Dido, o outro Migan. Na casa há ainda espaço para uma gata. Não foi adotada, fez-se de convidada e por lá ficou. Miguel ainda vive com os pais. Embora já tenha conquistado a independência, o piloto não pensa abandonar o ninho... por enquanto. “Talvez daqui a uns anos. Dá-me jeito viver com os meus pais para lavar a roupa, etc...”(risos) A ajuda nas lides da casa é indiscutivelmente preciosa. Passado um pouco recebe uma chamada. Tem um compromisso e já se faz tarde. No entanto o piloto não tem pressas e, mesmo com insistência nossa, recusa-se a abandonar o restaurante enquanto esperamos pelo troco. Caminhamos sob um calor infernal em direção ao parque de estacionamento. Despedimo-nos. Ficou o agradecimento e a promessa de acompanhá-lo numa corrida, muito em breve.
O néctar eleito
A verdade é que a bebida escolhida para este almoço com Miguel Oliveira foi água mineral. No entanto, o tema não passou despercebido na nossa conversa. Questionado sobre as bebidas preferidas, o piloto explicou que aprecia um copo de cerveja de vez em quando, não é fã de gins complexos, mas gosta sobretudo de Red Bull. “Sou grande apreciador de Red Bull. A marca lançou recentemente uma edição de verão que tem sabor a frutos tropicais. É o melhor”, garantiu-nos o jovem de 20 anos que, com ou sem cafeína, já provou ter energia para dar e vender.