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Julio Velázquez: «Vim cá várias vezes ver jogos da Liga»

• Foto: Pedro Ferreira

Julio Velázquez é um espanhol rendido aos encantos de Portugal, em particular à Lisboa que o acolheu há cerca de três meses, quando aceitou o desafio de liderar os destinos do Belenenses. O técnico, que era um perfeito desconhecido para os amantes do futebol em terras lusas, tem surpreendido e despertado interesse pela filosofia introduzida no futebol dos azuis. Vários sistemas táticos bem assimilados, que podem sofrer grandes alterações mesmo durante os 90 minutos.

Assumido adepto do futebol ofensivo, se nos relvados gosta de ver a equipa que dirige com o controlo do jogo, sempre perto da baliza adversária, também no que à gastronomia diz respeito, é um homem de ataque. "Como de tudo. Há coisas que gosto mais, outras menos, como todos, mas não sou esquisito", avisou assim que se sentou para almoçar no restaurante ‘Este Oeste’, em pleno Centro Cultural de Belém, ali bem perto do Estádio do Restelo, numa refeição um pouco condicionada pelo tempo. Teve início às 14 horas, depois do treino matinal do Belenenses e precisava de terminar uma hora depois, pois seguia-se mais uma reunião de trabalho. Vive o futebol de forma intensa, mas, ainda assim, conseguiu arranjar espaço na agenda para almoçar com a ‘Revista Record’.

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Julio Velázquez: «Vim cá várias vezes ver jogos da Liga»

Velázquez chegou recentemente a Lisboa, mas mostra que não se perde, quando quer escolher um bom local para uma refeição. O ‘Este Oeste’ foi o local eleito. Não houve uma razão especial. Apenas por já conhecer, saber que não iria desiludir e pela localização. O técnico, de 34 anos, reconhece que frequenta algumas vezes aquele espaço, com cozinha italiana e oriental salpicada de sabores sul-americanos. Uma viagem pelo mundo dos sabores, tal como aquela que tem feito ao longo da vida. Portugal é o segundo país no qual treina, mas quando não tem um desafio em mãos, continua a ‘trabalhar’, à descoberta dos segredos futebolísticos por essa Europa e Mundo fora. Não pára e, por isso, já conhecia tão bem Portugal, de norte a sul, antes de se fixar em Belém.

"Vim cá várias vezes, assisti a muitos jogos da 1.ª e 2.ª Ligas. É importante estarmos preparados para todos os desafios, pois nunca se sabe o dia de amanhã. Além disso, gosto de conhecer bem os campeonatos, nos quais há maior probabilidade de vir a ser treinador", referiu, explicando os motivos: "É preciso conhecer o mercado e as realidades de cada país. Mesmo que não se trabalhe de uma forma direta, a treinar, não se pode ficar parado à espera. Parar é estar morto. É preciso ver futebol, conhecer os jogadores, os campeonatos, estar ativo."

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Oriente à mesa

Sushi foi a opção de Julio Velásquez. É um fã de comida oriental, mas nesta viagem pelo mundo, em trabalho, o Japão e a China são países que ainda não conheceu. Um facto que lamenta e que espera corrigir. Sobretudo porque está atento ao que se passa no panorama futebolístico asiático. O recrutamento de grandes nomes do futebol mundial para a China, como Jackson Martinez, Ramires, Alex Teixeira ou Guarín, não é inocente, alerta. "É uma aposta de futuro. Poderemos pensar que é um desperdício ver nomes destes naquele campeonato. Há jogadores de grande qualidade num campeonato pouco competitivo, mas só assim o tornas atractivo e mais competitivo no futuro. Assim, será também mais fácil conseguir cativar mais jogadores a mudarem-se para lá. O mesmo se irá passar nos EUA. Daqui a uns anos será dos campeonatos mais competitivos", perspetivou, comentando os valores destas transferências milionárias: "Esta é a única forma que há dos clubes chineses poderem ter acesso a jogadores de topo, de alto nível. Está a conquistar muitos jogadores, mas também é um país com um potencial económico tremendo. Vamos ver como resulta."

Na cozinha... só para comer

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Julio Velásquez assume-se como apreciador de boa gastronomia, mas revela que tem alguns cuidados. Excepto ao pequeno-almoço, altura do dia em que comete todos os ‘excessos’, pois sabe que irá acabar por eliminá-los. Embora, realce que em Portugal se coma "tudo frio". "Em Espanha, qualquer sandes é aquecida", regista, o adepto de bacalhau: "Não sou um especialista, mas como qualquer um que me ponham à frente", afirma, sorridente. Por outro lado, ao contrário dos espanhóis que usam e abusam das tapas ao final do dia, o líder dos azuis vê-se obrigado a recorrer a algo bem mais português: a sopa, mas por obrigação.

Não é que seja um apreciador, mas são os sacrifícios que se vê obrigado a fazer para se manter ao forma. "Só uma vez por semana cometo um exagero. Procuro ter alguns cuidados". Como os cerca de 40 minutos de corrida que faz, cinco ou seis vezes por semana, por Belém, uma "zona interessante", para esse efeito.

Se Velázquez tem surpreendido na liderança do clube, avisa que tal não irá acontecer na cozinha. Uma tarefa que não o ‘relaxa’, nem tem em si qualquer efeito terapêutico: "Cria em mim uma fadiga emocional saber que teria de preparar uma refeição."

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Assume-se mau entre tachos e panelas e, se cozinhar, será apenas para ele próprio, algo a que se habituou, quando saiu de casa dos pais, aos 16 anos, para se dedicar ao futebol. Daí, ser impossível imaginar a cozinhar para o plantel do Belenenses... "Teria de chamar alguém. Não corro esse risco", realça, entre risos, embora aprecie ver o grupo reunido, em momentos de confraternização, mas apenas com uma condição: "Penso ser positivo que isso aconteça, mas nunca o deve ser por obrigação. Se for os jogadores a decidirem ir jantar fora, dinamizar o espírito de grupo, por sua iniciativa, é excelente, mas é algo que nunca deve ser imposto por ninguém, tem de ser natural, pois poderia ter um efeito contrário. Mas tal deve suceder tanto no futebol, como em qualquer outra empresa."

Aliás, de acordo com o técnico dos azuis, o futebol e a gastronomia não se devem misturar. Pelo menos, o primeiro não deve condicionar o segundo. São realidades paralelas que Velázquez faz questão de separar. "É preciso manter o equilíbrio quando ganhas ou perdes. A vida é assim mesmo. Normalmente fracassas mais do que os momentos de vitória que tens para festejar e temos de saber viver com essa normalidade, com essa realidade. Comer da mesma forma, manter o equilíbrio. Se perdes, tens de estar com a tua mulher e a família da mesma forma, tomar o mesmo vinho, não se deve alterar nada na tua rotina. Manter o equilíbrio, pois já se sabe que um dia ganhas, outro perdes. A vida é mesmo assim e temos de a encarar dessa forma", confidenciou.

Julio Velázquez: «Vim cá várias vezes ver jogos da Liga»
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Atento ao outro lado

A relação entre treinadores e jornalistas nem sempre é pacífica, mas o técnico espanhol diz saber lidar com as criticas, algo que deveria ser inato à profissão. Mostrou logo abertura para este almoço e gosta de manter uma boa relação com a comunicação social. Além disso, percebe que o trabalho do outro lado não é fácil. Daí, não se mostrar incomodado com a presença de jornalistas nos treinos, algo que já percebeu não ser muito comum por cá. "Não o posso fazer em todos, mas sei que também é importante para vocês, que precisam de ter assunto para escrever, páginas para preencher. Desde que haja respeito de parte a parte, penso que todos temos a ganhar com esta proximidade. O clube e os jogadores que podem ter mais destaque e a imprensa no geral que fica com mais conteúdo", defendeu.

Valter Marques (textos) Pedro Ferreira (fotos)

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ESTE OESTE

Centro Cultural de Belém, Praça do Império, 1449-003 Lisboa. Telf: 215904358.

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Por Valter Marques
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