Record - Quanto à pandemia do coronavírus, como é que vive esta situação no Brasil, com o presidente Bolsonaro a pedir às pessoas para irem trabalhar?
Clayton - A minha opinião é que as pessoas devem ficar em casa, mas vivo num país onde durante os últimos trinta anos os governos, tanto de esquerda como de direita, destruíram a educação, a saúde e as infraestruturas. Vivíamos num caos social, com pobreza, devido ao impacto dos últimos trinta anos. Não tínhamos condições para nada antes da chegada desta pandemia. Podem imaginar como é agora. As pessoas ficam em casa e já estão a acontecer assaltos, porque aqui as pessoas vivem para o dia a dia. Não digo para as pessoas irem para a rua, mas existem serviços que precisam de funcionar. É que se estiverem fechados vão morrer muito mais pessoas de fome do que devido à pandemia. Não precisamos de escolas, igrejas ou pessoas a andar de metro ou autocarros, mas continuo a trabalhar todos os dias na minha fazenda. Tenho vários funcionários que me pediram para trabalhar. Não podemos olhar apenas para as palavras do Bolsonaro, porque ele é meio tosco para falar, mas teve a audácia de enfrentar todo um sistema corrompido. Aqui é bastante diferente da Europa. Vai ser o caos quando as pessoas começarem a passar fome, porque já estávamos no caos e veio agora esta pandemia. Os últimos trinta anos de governo entregaram o país numa miséria para o Bolsonaro. Esse é o grande problema na minha opinião.
- Qual a atividade profissional que desenvolve atualmente?
- Trabalho com o cultivo de pinheiros.
- Quantas pessoas trabalham na sua empresa?
- Cerca de 80 pessoas.
- Todos eles pediram para trabalhar mesmo com o cenário da pandemia?
- Quase 70 funcionários pediram para trabalhar, porque precisam de dinheiro para viver.
- No Brasil existem apoios para as pessoas ficarem em casa?
- Agora ofereceram um subsídio de 600 reais, o que dá cerca de 105 euros. Tenho uma família que trabalha para mim o casal, com seis filhos para sustentar. Como podem viver com esse dinheiro? O salário mínimo aqui é de mil reais, ou seja, à volta de 176 euros. Quem está sentado numa cadeira em Portugal não tem noção das dificuldades do Brasil. Vai haver fome.
- Considera que o seu negócio pode ser afetado por esta crise?
- Já está a ser afectado! Quando jogava futebol comprei fazendas e plantava eucaliptos. Apostei num tratamento na madeira para construir resorts turísticos com madeira de eucaplito tratado. Fazemos o transporte do material e com as sobras faço carvão. Todas as pessoas vão sofrer com esta situação. Se tiver um produto e ninguém comprar vou sofrer. Tenho um carregamento para receber e a empresa diz que não paga, porque também não conseguiu receber. Será uma roda que vai afetar toda a economia.
Por Luís Pedro Silva