Durante o seu percurso de 31 anos à frente do FC Porto, Pinto da Costa apenas por duas vezes teve opositor nas eleições. Na 1.ª eleição, em 1982, chegou a ter o banqueiro Afonso Pinto de Magalhães como adversário mas este desistiu perto do dia das eleições. O líder e criador dos dragões teria de esperar por 1988 para voltar a ter concorrência.
O médico Martins Soares ousou enfrentar um presidente que acabara de ser campeão europeu e mundial. Pinto da Costa venceu essa eleição com um total de 10196 votos (95%) contra apenas 535 do seu opositor. As eleições de 88 tiveram uma afluência recorde, com 12 mil dos então 34 mil sócios do FC Porto a exercerem o seu direito de voto. Na lista de Martins Soares constavam os nomes de Adelino Caldeira, atual administrador da SAD do FC Porto, e de Lourenço Pinto, atual presidente da Associação de Futebol do Porto.
Mas Martins Soares não desistiu e três anos depois voltou ao terreno, numa fase em que Pinto da Costa pela primeira vez começava a hesitar na hora da renovação. Surpreendentemente, depois de uma campanha muito agressiva na qual garantiu ter contratado o treinador Kenny Dalglish, o candidato ao trono azul e branco conseguiu 20,14% dos votos. Foi uma pequena vitória, depois de algumas sondagens terem criado mesmo a expectativa de que podia bater Pinto da Costa nas urnas, sob o lema “Pela Decência”. Mas esta bateu num muro muito difícil, se não impossível, de derrubar…
Nestas eleições ocorreu mesmo um episódio curioso. No dia da votação, o comendador Gonçalves Gomes, grande financiador de um FC Porto que vivia ainda com algumas dificuldades, apresentou-se para votar mas não tinha as quotas em dia. Mas votou depois de um sócio ter alertado todos para isto: “Deixem-no votar pois o clube deve-lhe muito dinheiro”.
De então para cá, nunca mais o líder do FC Porto teve oposição, vindo a renovar mandatos em eleições com pouca afluência exatamente pelo facto de estarem resolvidas à partida. É a fase monárquica da história do FC Porto e do seu 30.º presidente. Um presidente que não é absolutamente consensual mas que na hora da verdade afasta qualquer tipo de oposição.
Sem nunca ter ido a votos, Alexandre Magalhães, que quase desde a primeira hora esteve ao lado de Pinto da Costa, tem sido entretanto o rosto de uma oposição relativamente ativa. Ambos foram grandes amigos e Alexandre até é padrinho do filho mais velho do presidente portista, também Alexandre.
Corria o ano de 1989 quando, como já aqui contei, fui alvo de uma espécie de emboscada no Estádio do Restelo por causa de um comentário que escrevi na “Gazeta dos Desportos” sobre Fernando Gomes, que fora forçado a abandonar o FC Porto para terminar a sua carreira no Sporting. O caso deu algum brado. Nessa mesma semana, recebi um telefonema do então vice-presidente do FC Porto, convidando-me para jantar em Lisboa e aproveitando a ocasião para pedir desculpa pelo sucedido. Foi um gesto que nunca esqueci. Muito raro nesta “selva”.
Pouco tempo depois, Alexandre Magalhães “cortou” com Pinto da Costa. As razões para o desentendimento cruzam razões desportivas e pessoais da vida do presidente portista. No entanto, em 2001, quando foi apresentado o projeto do novo estádio portista, Alexandre defendeu a posição da direção suportando, numa quente assembleia geral, a réplica de Pôncio Monteiro e Lourenço Pinto.
O antigo vice-presidente votou várias vezes contra as contas apresentadas pelo FC Porto e foi assistente num processo em que protestava com o elevado valor das remunerações atribuído ao conselho de administração da SAD do FC Porto. O Tribunal do Comércio de Gaia deu razão à posição defendida pela SAD do FC Porto, considerando que os 618 mil euros recebidos pelo conselho de administração em 2004 tinham sido uma gratificação e não uma distribuição de lucros.
Como se pode ver, em 31 anos Pinto da Costa foi sempre um presidente que caminhou sem medo de qualquer sombra. Os seus opositores internos, se é que existem, estão apenas à espera que caia a noite sobre a vida do omnipresidente e não ousam sequer revelar posições.