Foram dois dos melhores pontas-de-lança portugueses nas suas gerações, figuras emblemáticas dos dois gigantes de Lisboa, Benfica e Sporting, e internacionais de referência na Seleção Nacional. Rui Águas e Jorge Cadete eram sinónimo de golos e hoje continuam ligados à difícil tarefa de acertar nas balizas contrárias – neste caso, de ajudar outros a consegui-lo, através de treino específico para pontas-de-lança.
De forma autónoma, Rui Águas e Jorge Cadete desenvolveram nos últimos anos projetos específicos para o treino de pontas-de-lança mas ainda hoje lutam para que alguém com responsabilidade lhes abra as portas. Porque, defendem, não é por eles que o tema deve ser olhado de frente, mas pelo próprio futuro do futebol português. Afinal, ninguém nasce ensinado, e se os guarda-redes já têm treinadores próprios há mais de 20 anos, não se entendem as resistências sentidas.
“A ideia nasceu já lá vão dez anos, quando era assistente do prof. Jesualdo Ferreira no Sp. Braga”, conta-nos Rui Águas. “Como assistente dele, comecei a pegar nos pontas-de-lança e a trabalhar com eles à parte. Começou aí o meu interesse em aprofundar a questão, que hoje se mantém”, acrescenta. “A primeira apresentação pública do meu projeto foi em 2011, num seminário promovido pelo Desportivo da Caala, de Angola, realizado na Quinta do Pinheiro. Depois apresentei-o a um clube português, ao seu departamento de formação, mas nunca me deram uma resposta”, continua Rui Águas, que recorda o momento em que a ideia esteve à beira de se tornar realidade.
“Nesse ano, estive para assinar pelo Sp. Braga. Apresentei o projeto ao presidente António Salvador e ao José Peseiro, que gostaram da ideia, mas depois surgiu a oportunidade de trabalhar no Médio Oriente, que não podia recusar. De qualquer forma, não posso deixar de registar o facto de a ideia ter sido bem recebida por eles, só não indo por diante pelos motivos que expliquei.”
Sem respostas
No caso de Jorge Cadete a história é mais recente.
“Comecei a desenvolver a ideia em 2004/05, porque me recordava do meu tempo em clubes como o Sporting ou o Celtic, onde esse trabalho ficava mais ao meu critério. Em 2009, apresentei o projeto em primeiro lugar a José Eduardo Bettencourt, e fiquei mais de ano e meio à espera. Depois apresentei o mesmo projeto durante dois anos seguidos a Luís Duque, até que tive uma reunião com Jean Paul, onde ele me disse que era complicado implementá-lo na formação”, conta-nos Jorge Cadete, que não esconde a sua admiração pelas resistências encontradas.
“Não podemos desistir de uma ideia como esta. Há que continuar a acreditar que mais cedo ou mais tarde os clubes vão perceber que precisam de alguém que trabalhe especificamente os seus avançados. O objetivo do futebol é o golo, porque são os golos que dão vitórias e ajudam a ganhar campeonatos. Quando isso acontecer, seguramente que iremos ter mais avançados portugueses nos clubes e aumentar as escolhas para a Seleção Nacional”, garante Cadete.
Tanto Rui Águas como Jorge Cadete admitem que, por vezes, possam pensar que estão apenas à procura de emprego. “É uma característica bem portuguesa. O que é nosso não presta, mas se vier de fora, é uma maravilha”, lembra o ex-leão.
«Um remate é um bom passe»
John Mortimore foi um dos treinadores que mais marcou Rui Águas ao longa da sua carreira.
“Dizia-me ele que um remate mais não é do que um bom passe. Era um treinador à moda antiga, mas passados estes anos todos, recordo-me do que ele me dizia e tenho de concluir que continua a ter razão”, acrescenta.
“O trabalho do ponta-de-lança é marcar golos. Tem de dominar os movimentos defensivos e ofensivos, a desmarcação, o cabeceamento, o remate, a recarga.”
«Robson deu-me liberdade»
No Sporting de Bobby Robson, Jorge Cadete tinha alguma liberdade para trabalhar de forma mais apurada a finalização.
“No final dos treinos eu perguntava-lhe se podia ficar mais um pouco e ele dizia que sim. Depois, trabalhava com o Manuel Fernandes, com o Leal do lado esquerdo, o Marinho na direita e o Tiago na baliza. Mas a maior parte das vezes era eu próprio que tomava a iniciativa. No Celtic também tive oportunidade de fazer esse tipo de trabalho”, recorda.