Teresa Portela: «Orgulho em dizer ‘faço parte da evolução»
Canoísta, de 33 anos, em entrevista a Record
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RECORD - De que forma é que a pandemia alterou os seus planos de preparação para esta temporada?
TERESA PORTELA - Acho que o aspeto mais negativo da pandemia na modalidade foi o facto de não ter competições, nem a nível nacional nem a nível internacional. A mim não me afetou tanto, porque já tenho alguma experiência e sei lidar com isso. Mas foi um aspeto negativo. Talvez os atletas mais jovens tenham sentido isso de outra forma. Claro que gosto de competir, mas não fez tanta diferença para mim. Outra coisa foi que no ano passado estávamos a preparar os Jogos e, por altura de março, surgiram as dúvidas acerca do futuro. Toda a gente veio para casa e a canoagem tem esse lado positivo de que se trata de uma modalidade ao ar livre e individual. Consegui treinar sozinho, mas claro que sem treinador, num rio e com tudo a ser de forma adaptada. Consegui treinar, mas a minha motivação e objetivos mudaram. No entanto, a partir de outubro, achando já que ia haver competições, comecei a ficar muito mais tranquila e organizada. Houve uma fase de incerteza, mas depois as dúvidas passaram e correu tudo bem. Este ano até acabou por ser mais importante para treinar no K1-200.
R - Necessitou de fazer alguma mudança no treino devido a essa situação?
TP – Precisei só de fazer uma adaptação em casa. Tive de montar um ginásio em casa, mas também não fazemos tanto trabalho de ginásio, mas sim na água. E treinei no rio. Normalmente faço treino em pista [de atividades náuticas] de águas paradas, e treinar num rio mudou um pouco. Mas, como não havia competição, também não era tão relevante. O mais importante era dar estímulos ao corpo e tentar não estar parada, de forma a que estivesse preparada quando começasse a nova época.
R - Foi estranho treinar sozinha?
TP – Por acaso tive a sorte de o meu irmão me acompanhar nos treinos da canoagem. Por isso, ele ajudou-me bastante a não sentir essa solidão. Mas, sim, a certa altura sentia que não era a mesma coisa. Lembro-me de comentar que o facto de não estar tão preocupada nos treinos em saber o tempo que consegui ou a velocidade também deu alguma tranquilidade. Se calhar desfrutava mais do treino. Só que começava a pensar ‘será que estou a fazer os tempos de forma correta?’. Não ter as minhas referências habituais, como o meu treinador e as minhas companheiras, criou alguma ansiedade nos primeiros dois meses, mas depois vi que precisava de ser muito rigorosa para seguir motivada.
R- Recentemente, conquistou uma medalha de bronze com a Joana Vasconcelos em K2-200 na Taça do Mundo. Como foi voltar à competição internacional passado tanto tempo?
TP – Antes dessa Taça do Mundo tinha tido três semanas antes a seletiva nacional que definiu um atleta para os Jogos Olímpicos. Essa, sim, foi a prova em que senti mais ansiedade e stress, porque ali tinha muito a perder. Felizmente consegui o apuramento. A partir daí, não sei se consciente ou inconscientemente, relaxei um pouco. Mas fui para a Taça do Mundo com o intuito de estar bem, já que não competia há muito tempo, e ainda por cima tratou-se da única competição antes dos Jogos.
R - A Teresa já está na elite da canoagem desde 2008. Quais são os segredos para se manter tanto tempo no topo numa modalidade desgastante?
TP – Se não houver essa tal paixão, torna-se difícil fazer parte de algo durante tantos anos. É graças a isso que tenho aguentado. Claro que existem momentos em que nos sentimos cansados, pois estamos muitas vezes em estágios, e com o passar da idade passamos a querer uma maior estabilidade. Mas é só nesse aspeto. Continuo a desfrutar dos treinos e das competições. Agora, existe um desgaste por ter de andar sempre de um lado para outro e estar fora de casa... Não gosto tanto dessa parte.
R - Então não gosta tanto de viajar?
TP – Gosto, mas, para se ter a noção, estou uma semana por mês em casa. Gosto de estar com a minha família e em estágio passa-se muito tempo sozinho. Essa é a pior parte. Acaba por ser difícil estar tanto tempo longe de casa. E ainda por cima eu estudei [fisioterapia e osteopatia] e tenho vontade de pôr em prática esse conhecimento, mas estou limitada por isso.
R - Pela experiência, vê-se como uma conselheira para os atletas mais novos na canoagem?
TP – Sim, gosto de dar conselhos. Mas cada um tem de seguir o seu caminho e tomar as opções que acham que é melhor.
R - Pegando por aí, foi internacional pela primeira vez com apenas 14 anos. Foi complicado estar junto de atletas mais velhos numa fase tão precoce?
TP – A canoagem também evoluiu bastante. Tenho um certo orgulho em dizer isso: faço parte da evolução positiva que houve na canoagem. No início não existiam as condições de hoje em dia. Era uma modalidade com pouca projeção, pouco falada, e fui acompanhando esse crescimento. Mas a modalidade passou por uma grande mudança.
R - Considera que a canoagem portuguesa ainda pode evoluir em que aspetos?
TP – A canoagem está em linha com as outras modalidades em Portugal. Tem de se mudar a forma como olhamos para o desporto em Portugal. É difícil vivemos num Mundo em que o desporto não é muito valorizado. As grandes potências da canoagem são Alemanha ou Espanha, países que são referências no desporto em geral...