FALECEU, quarta-feira de manhã, aos 66 anos, Joaquim Meirim, um treinador que marcou uma época do futebol português, pelos métodos inovadores que introduziu, pela sua personalidade controversa, pelo desassombro de posições públicas que assumiu e que tiveram o efeito de uma “pedrada no charco” num país desportivo estagnado e conservador. A sua ascensão foi meteórica – tirou o curso de treinadores em 1964 [orientado pelos “mestres” Fernando Vaz e José Maria Pedroto] e de ilustre desconhecido técnico do Oriental pulou para a fama na época de 1969/70, no Varzim, ao conduzir a modesta equipa poveira à melhor classificação de sempre da sua história.
Mas Meirim não se transformou na figura mais mediática do futebol português apenas pela extraordinária carreira do Varzim. A sua irreprimível propensão para a polémica catapultou-o para as primeiras páginas dos jornais, com declarações bombásticas e contundentes, que sacudiram o marasmo reinante.
Por outro lado, introduziu métodos de trabalho incomuns para a época, a nível da orientação física, técnica e psicológica. Era um homem arguto e vivido, que percorreu o Mundo como embarcadiço da Marinha Mercante e foi assimilando conhecimentos, sobretudo na escola do Leste europeu, mais avançada do que a ocidental. Mas era na componente psicológica que residia a sua força. A sua capacidade de persuasão era tal, que fazia disparar os níveis de autoconfiança dos jogadores e criar-lhes condições de superação e transcendência. “Conseguia convencer os jogadores que valiam mais do que realmente valiam” – recorda Rebelo, o último jogador descoberto por Meirim na I Divisão.
Ao nível da preparação física celebrizou-se pelos métodos “sui generis” que utilizava, nomeadamente o aquecimento no relvado [na época era feito nas cabinas], os treinos na praia ou na mata, onde, à falta de ginásios de musculação, colocava os jogadores a carregar pedras ou troncos de árvores. Outra inovação que fez à época um certo furor foi o treino específico sem bola dos guarda-redes. Estes faziam de conta que a bola era chutada por Meirim e lançavam-se para o chão. A propósito, conta-se uma história de um guarda-redes que num dos chutos virtuais de Meirim não se mexeu na baliza. “Então, pá!, o que é que aconteceu?! – perguntou o técnico. “Ó ‘mister’, essa passou ao lado da baliza” – respondeu o guarda-redes.
Dele se contam muitas histórias, mas nem todas correspondem inteiramente à verdade. Contava-se, por exemplo, que Meirim, para apurar a agilidade e os reflexos, punha os jogadores a perseguir galinhas no relvado. O seu ex-pupilo Benje nega tal versão e sustenta que essa história nasceu de uma brincadeira num treino.
Mas a sua personalidade irreverente levava-o por vezes a excessos que o penalizavam. Quando “pegou” no Belenenses a seguir à sua época dourada no Varzim, ganhou o primeiro jogo oficial ao V. Guimarães por 3-1 e não se conteve: “Acabou de se escrever a primeira página do novo campeão nacional!”
Se a ascensão foi meteórica, a queda não o foi menos, quase sempre a deslizar, salvo algumas situações de excepção, nomeadamente quando conduziu, pela primeira vez, o Estrela da Amadora à I Divisão. Esta sua fase descendente surge, também, ligada a posições que assumiu quer a nível sindical [envolvendo-se em lutas internas da classe contra Fernando Vaz e José Maria Pedroto] quer a nível político [era conhecida a sua ligação ao Partido Comunista] que contribuíram para a sua marginalização por parte dos dirigentes dos clubes.
O funeral realiza-se sexta-feira, pelas 11 horas, com saída da Igreja de São João de Deus para o cemitério do Alto São João.
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