A nomeação para o próximo Mundial deixou o árbitro João Pinheiro radiante. “É um momento muito importante para mim, para a minha equipa e para a arbitragem portuguesa. Foram 12 anos sem árbitros portugueses em Mundiais, muitas vezes de forma injusta. Este momento é muito gratificante para nós porque não foram meses, foram anos a preparar este Mundial. É um excelente notícia para nós, para o futebol e arbitragem portuguesa", afirmou em declarações ao Canal 11, acrescentando: “É o momento mais alto da minha carreira. Estar presente num Mundial é o sonho de qualquer jogador, treinador, dirigente e árbitro. Espero atingir mais Mundiais e Europeus, além de mais finais de provas de clubes. Sinto-me muito. muito feliz. Isto é um trabalho de equipa, tive a ajuda de muita gente pois na arbitragem ninguém consegue nada sozinho."
Aos 38 anos, João Pinheiro sente-se preparado para assimilar rapidamente as novas regras que vão entrar em vigor na competição. “Tivemos o curso na semana passada, em Itália, mas tendo em conta que as competições nacionais ainda não terminaram, a FIFA decidiu deixar a preparação mais a sério para Miami, para onde vamos dia 31 de maio. Lá iremos fazer as reflexões sobre as novas alterações, vamos ter de nos preparar em 10 dias. Efetivamente são algumas alterações e vão exigir algum trabalho. Demos um toquezinho nelas, mas vamos fazer um trabalho maior na preparação do Mundial entre 31 de maio e 11 de junho", revelou, mostrando-se disponível para regressar mais cedo a casa e ver Portugal a chegar a fases adiantadas da prova. "Não me importo que a Seleção seja campeã! Estou com a Seleção a todo o custo, se formos campeões não há problema nenhum", referiu, bem disposto.
Apesar da alegria pela excelente notícia recebida nesta quinta-feira, João Pinheiro garantiu não estar nas nuvens. "Na UEFA usa-se muito a expressão de manter os pés no chão e a humildade, ter a capacidade de aprender sempre algo em todos os jogos. Ouvir muito e aprender o mais rapidamente possível. A arbitragem é encantadora pois temos desafios diferentes em todos os jogos, se tiveres a capacidade de aprenderes com eles é o que te vai tornar melhor árbitro e atingir estes palcos", afirmou.
Questionado sobre qual o objetivo mínimo com que parte para a competição nos EUA, Canadá e México, João Pinheiro mostrou-se cauteloso. "Já fizemos um Mundial sub-17 e outro sub-20 e o objetivo mínimo começa por fazer um jogo. Fazer dois era importante para nós, chegar ao terceiro seria excelente. Somos dos mais jovens que lá vamos estar e aquelas competições funcionam muito conforme a performance da hora. Pode chegar lá o melhor árbitro do Mundo, se cometer um erro grave no primeiro jogo não apita mais. No Mundial de Clubes foi assim, um dos melhores árbitros do Mundo teve uma prestação não tão positiva e não apitou mais. E nós podemos surpreender, é isso que tentamos sempre fazer", sublinhou, recordando o passado para reforçar a ambição. "Em ambos os Mundiais fizemos meias-finais e foi esse o objetivo. Fizemos dois bons jogos na fase de grupos, deram-nos a oportunidade de fazer oitavos em ambos e como correram bem fizemos meias-finais. Esses campeonatos são feitos consoante a performance. Claro que devem ter um grupo mais específico que já estejam a pensar para a final, mas para o resto é muito feito jogo a jogo", explicou, traçando a máxima que vai seguir: "Apitar bem o primeiro para ter direito ao segundo, apitar bem o segundo para ter direito ao terceiro e assim sucessivamente até vir embora."
Segredo revelado
No momento mais alto da carreira, conforme o próprio admitiu, o árbitro natural de Vila Nova de Famalicão falou de um hábito que tem na preparação dos jogos. “Amanhã [sexta-feira] tenho o Felgueiras-P. Ferreira. Não entro em campo sem saber o nome dos jogadores todos, cumprimento-os a todos pelo nome. Também gosto muito de perceber o mecanismo dos cantos, as bolas paradas são cada vez mais cruciais. Posso confessar que na FIFA estivemos uma manhã a ver bolas paradas, não é falar dos cantos do Arsenal que agora estão na moda, mas ver a maneira como podemos gerir melhor esses lances, proteger o guarda-redes e sancionar melhor essas situações", referiu, justificando: "Um árbitro de elite tem de ir para o jogo com um conhecimento tático das equipas que não pode ser só o básico. Gosto de percecionar algumas coisas que me permitam estar um passo à frente no sentido de perceber a forma de jogar das equipas. Nas competições europeias temos um ex-treinador que nos faz esse trabalho. Se estamos à espera que o jogador faça o passe, já vamos chegar atrasados à área e fica mais difícil decidir da melhor maneira."
Visivelmente entusiasmado, João Pinheiro revelou qual é a melhor parte de ser árbitro. "É apitar em estádios cheios na Liga dos Campeões. Já fizemos vários jogos importantes, um Inter-Arsenal por exemplo. Estar naqueles ambientes é indescritível. É super intenso, às vezes estou em casa a ver resumos da Liga dos Campeões e nem acredito que também estou ali. Já apitei o Cristiano Ronaldo, ver tantos jogadores incríveis em ação é o mais bonito de ser árbitro", admitiu, com um sorriso.
Preocupação com o futuro
A boa disposição de João Pinheiro só desapareceu quando o assunto foi o clima que se respira no futebol português. “O futebol português precisa de uma reflexão séria. A mim custa-me muito ver árbitros agredidos em jogos de sub-9, sub-10, sub-11. A mim isso choca-me. O meu filho joga nos sub-7 e não me passa pela cabeça assistir a isso num jogo do meu filho. A cada fim-de-semana assistimos a coisas muito graves no futebol português, que às vezes fazemos de conta que não vemos", considerou o árbitro, insistindo no alerta. "Tem de haver uma reflexão de todas as entidades, este clima não é benéfico para ninguém. Saímos todos a perder com isto pois focamo-nos em coisas que não são importantes e depois, quando estamos focados em situações adversas, perdemos o foco do que é importante, que é a qualidade do jogo. É preocupante ouvir relatos de pessoas que não levam os filhos ao futebol. Assim torna-se difícil que os jovens venham para a arbitragem quando se vê certas situações como um treinador agredir um árbitro num jogo de sub-10", frisou.
E este ambiente poderá vir a ter consequências nefastas a médio prazo. "É momento de pensarmos no que queremos para o futuro do futebol português. Há um grande país que não tem a Seleção no Mundial há muitos anos [referia-se à Itália], esperamos que não seja Portugal um dia. Não vai ser agora, está tudo bem, mas daqui a uns anos se calhar vamos pensar que deixámos isto avançar de tal maneira que depois é difícil de gerir e parar", sublinhou.
Por Nuno Miguel Ferreira