Henrique Calisto, filho de gentes ligadas à faina do mar, matosinhense de alma e coração, regressou a Paços de Ferreira para vestir de novo a farda de bombeiro. Aos 60 anos, este é um novo desafio para um treinador que iniciou a sua carreira no Boavista, na já distante época de 1980/1981, quando era apenas preparador físico da equipa exadrezada.
O novo treinador do Paços de Ferreira depressa se afirmou, com 27 anos, como um treinador-revelação do futebol português, tendo feito duas épocas sensacionais no comando do Salgueiros, para voltar ao Bessa. Foi, pois, nestes dois clubes da cidade do Porto que o treinador que foi jogador do Leixões (era defesa mas sem ser um primor de técnica) se lançou.
Depois de uma passagem mal sucedida pelo Sp. Braga ("não ouço os sinos do Ding-Dong", queixou-se no momento da saída, reportando-se à tertúlia que reunia naquela café do centro de Braga), Calisto viria a deixar marca também no comando do Varzim, onde esteve três épocas. e onde iria voltar depois de uma passagem pela Académica, clube que anos mais tarde voltaria a treinar. Em Coimbra deixou muitos amigos que ainda hoje são visita de casa.
Antes da sua passagem pelo Paços de Ferreira, na época de 1996/97, o técnico matosinhense deixou o seu nome na história do Rio Ave, conseguindo uma série histórica de 13 vitórias.
Depois do treinar os pacenses, Calisto decidiu por um ponto final da sua carreira e até organizou um jantar de despedida que decorreu em Matosinhos, com a presença de dezenas de pessoas dos mais diversos clubes. Na altura já era presidente da junta de freguesia de Matosinhos, na condição de candidato pelo PS, e era apontado como um dos sucessores do então presidente da câmara, Narciso Miranda.
Mas o treinador não tinha morrido e renasceu quando surgiu o convite para ir treinar um clube do Vietname. Um clube associado a uma grande fábrica de cerâmica da periferia da cidade de Ho Chi Minh, a antiga Saigão. Calisto aceitou o repto e foi ele quem fez com que o Dong Tam Long An equiipasse à Leixões e tivesse um emblema inspirado no do Boavista, os dois clubes que mais marcaram o jogador/treinador Henrique Calisto.
Na liderança do Dong Tam Long An, Calisto conseguiu subir à V-League (1.º escalão do futebol vietnamita) e ser campeão aí. Tornou-se um verdadeiro ídolo dos adeptos vietnamitas de futebol e a sua cotação atingiu o máximo quando assumiu o comando da seleção nacional e conquistou a taça do sudeste asiático, a primeira grande competição conquistada pelo Vietname e que estendeu a festa a todo o país. Calisto festejou a conquista "embrulhado" na bandeira de Portugal.
Após nove anos no Vietname, aceitou o convite de um poderoso clube tailandês, o Muang Thong United, onde estava tudo a correr bem até que o treinador entrou em conflito com o inglês Robbie Fowler, contratado a peso de ouro pelo clube de Banquecoque e colocado no banco pelo treinador português devido ao facto de estar gordo e, como tal, fora de forma.
Calisto regressou a Portugal em 2011 e aceitou o desafio de treinar o Paços de Ferreira, pegando na equipa em último lugar e colocando-a na 10.ª posição final, quando passou o testemunho a Paulo Fonseca. De aí até hoje, ainda aceitou treinar o Recreativo de Libolo, de Angola, mas a experiência foi curta.
Homem ponderado, treinador que rapidamente consegue empatia com os jogadores, Calisto é ainda um estudioso da evolução do futebol e um especialista em detalhar o modelo WM que deu origem ao futebol moderno.