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Gilberto Coimbra: «Não sou exigente, sou muito exigente»

Gilberto Coimbra: «Não sou exigente, sou muito exigente»
• Foto: Bruno Pires

Quem entra no Estádio João Cardoso, em Tondela, onde se preserva a memória do benemérito que doou os terrenos onde hoje se implanta o parque desportivo, percebe rapidamente que o clube da região de Viseu está a preparar-se para jogar no campeonato principal. Para além do cuidado que já se pode ver em todos os pormenores, da sala de imprensa às áreas sociais, passando pelo estado das bancadas e do relvado, o Clube Desportivo de Tondela tem a seu favor a capacidade de um homem que na última década transformou o clube, trazendo-o dos Distritais à 2.ª Liga e não deixando a sua ambição morrer nessa praia.

Gilberto Coimbra, de 53 anos, comanda um dos principais grupos portugueses da área alimentar (as suas unidades de produção têm cerca de 200 funcionários) e várias das suas empresas têm os seus nomes nos inúmeros painéis publicitários que circundam o relvado, outro sinal do espírito empreendedor do CDT, que também brilha na sua capacidade de difundir a imagem do clube, potenciando as redes sociais.

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O líder do CDT transporta para o futebol o seu estilo de liderança empresarial. "Também no futebol é preciso sentir ‘o cheiro’, perceber alguma coisa do jogo e ser apaixonado por ele", disse a Record durante a conversa que decorreu no seu gabinete, de onde se avista o relvado do estádio.

Sem Gilberto Coimbra, o clube não teria chegado com esta saúde à antecâmara da 1.ª Liga. O presidente tirocinou primeiro na direção do clube mas só há dez anos pegou no leme. "Quando entrei, o clube estava a ser gerido por uma comissão administrativa e o que me pediram foi para ver se conseguia safar isto", recorda o sobrinho de um antigo presidente do clube, António Coimbra, pessoa que o ajudou a alimentar "o bichinho do futebol".

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Com o seu novo presidente, o CDT depressa encontrou o seu rumo. "Tem de se estar no futebol com responsabilidade", frisa o protagonista desta história que teve o seu ponto mais alto quando em 2012 aconteceu a subida à 2.ª Liga. Dando depressa para perceber que o clube estava ali para ficar, com um 10.º e um 9.º lugar como registo, em épocas em que a subida chegou a estar na mira.

"Estamos bem classificados esta época, mas tudo depende da sorte e ainda temos muito para aprender", refere Gilberto Coimbra, um empresário muito ocupado, mas que dedica normalmente dois dias por semana ao clube: o do jogo e o chamado "day after".

"Para dirigir é preciso entender como as coisas funcionam, e o futebol aí não é muito diferente das empresas", precisa a sua visão. "Quem não é exigente não consegue nada e por isso diria que não sou exigente, sou muito exigente… sobretudo comigo mesmo", acrescenta. Um homem com espírito pragmático não pinta o mundo com cores artificiais. Por isso, Gilberto Coimbra responde assim quando lhe é perguntado se tem sido uma espécie de mecenas do clube que dirige: "Não posso nem devo dizer isso, outras pessoas o teriam conseguido, mas para chegar aqui teve de haver muito empenho, muito tempo perdido e, se quiser, muito dinheiro perdido."

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"O difícil será chegar, depois é preciso haver apenas um pouco de inteligência para manter. Mas foi muito difícil chegar aqui. Tudo é fácil quando depende de si e do que um indivíduo quer fazer, mas no futebol há muitos fatores aleatórios, podemos ter os melhores jogadores do Mundo e as coisas depois não acontecerem", concretiza sobre este processo.

Gilberto Coimbra não esconde o objetivo de levar o CDT à 1.ª Liga. Esta época, a equipa segue no pelotão da frente e com o rótulo de candidata à subida. "Já acreditava na subida no ano passado e todos os anos acredito; até no início desta época acreditei, mas ela não começou por correr da melhor forma possível", diz quem encarou a temporada com Carlos Pinto (agora no Chaves… a lutar pela subida também) e depois apostou em Quim Machado. "Mas nos últimos jogos temos feito uma média superior a dois pontos, e se isto se mantiver… é perfeitamente possível", junta.

Para o distrito de Viseu será, não tem dúvidas, algo de muito importante. "Tenho noção do que aconteceu quando o Académico de Viseu esteve na 1.ª Liga e, aliás, uma das minhas empresas até foi seu patrocinador", regista. "Não estando o Académico, com toda a certeza que não apenas para o concelho, mas também para o distrito, terá uma grande importância o Tondela no campeonato principal", desenvolve. Com o CDT lá em cima, o presidente não duvida que será muito fácil gerir o clube. "Não serão apenas os 2 milhões da televisão, mas também o retorno que é possível ter, mas dir-lhe-ia que, não sendo louco, consolidar um clube na 1.ª Liga, embora sempre com ambição, é muito mais fácil do que fazê-lo na 2.ª", conclui.

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O presidente do Tondela tem as contas bem feitas relativamente aos custos e benefícios da participação de uma equipa na 2.ª Liga. "Qualquer época nesta competição, na minha perspetiva e até me demonstrarem o contrário, arranca em 850 mil euros/anos, e a partir de aí começa a sorte, ou seja, há aqueles que com isso conseguem e outros que nem com mais", aponta.

As receitas gerais não chegam a 20% do orçamento, mas o que vem da Sport TV dá uma boa ajuda: 275 mil euros por época. "Já foi uma evolução e é igual para todos os clubes, mas se compararmos com os valores que se pagam aos mais pequenos da 1.ª Liga, diria que a relação é de um para nove e a diferença de retorno é estrondosa", observa.

"A 2.ª Liga é a mais complicada de todas, a mais difícil, primeiro porque é profissional sem substância que lhe dê consistência devido aos apoios que tem e à imagem que projeta, pois não se podem exigir altos valores", argumenta Gilberto Coimbra.

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"A televisão na 2.ª Liga vale o que vale e tudo o que se consegue a nível de apoios é mais numa relação de amizade, mas isto com resultados, pois se não houver resultados fica ainda mais complicado", acrescenta.

"Fazer um orçamento no início da época é extremamente complicado e não se pode contar com o ovo no rabo da galinha, porque não vai haver e depois tem de se fazer o que jamais farei como dirigente desportivo, que é enganar-me e enganar quem trabalha comigo", diz sobre uma situação quase endémica da competição, onde pululam clubes com obrigações por cumprir. "Não serei nunca maltratado ou enxovalhado por falhar naquilo que me propus, nomeadamente na minha responsabilidade financeira, e só assim cá continuarei", faz ainda questão de salientar o líder do Tondela.

"Na 2.ª Liga temos meia dúzia de clubes cumpridores e os restantes empurram com a barriga", conclui, consciente de que muitos clubes continuam a poder inscrever jogadores mesmo com salários em atraso. "O português é especialista nessa matéria, sei que é incorreto e imoral para aqueles que cumprem, mas compete a cada um tratar responsavelmente da sua vida", refere.

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Gilberto Coimbra vai direto aos assuntos. Por isso, quando Record lhe pergunta se já ponderou algo mais no dirigismo desportivo do que a presidência do CDT, a resposta é esta: "Não será nada que me tire o sono, mas se um dia for convidado para qualquer cargo que me sinta capaz de desempenhar com transparência e idoneidade e não para esconder seja o que for, pensarei nessa proposta."

O líder do CDT entende que a Liga de Clubes está "bem entregue" e de Luís Duque diz que é um homem que, "independentemente dos desaguisados que teve com o seu clube do coração, que não é o meu", admira. "Em pouco tempo demonstrou que foi uma boa escolha, embora ainda haja muita coisa para fazer", concretiza sobre o novo presidente da Liga.

"Não é difícil fazer a Liga sair de uma fase negativa para uma fase positiva, pois o futebol vende a uma velocidade louca, mas só quando há coesão e sinergias, principalmente entre os clubes grandes. Por isso, sinto alguma tristeza e mágoa com o que acontece a esse nível. Há dirigentes desportivos que, aí, procuram o conflito e não a razoabilidade, e quem sofre é o futebol", critica ainda.

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"Por exemplo, o contrato com a NOS é de uns milhões de euros e não se investe tanto por toma lá, dá cá. Só com retorno, e isso só acontece se a competição tiver uma boa imagem, caso contrário será o descrédito", salienta.

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