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O que fazer para Portugal voltar ao Top-6 do ranking UEFA? Mudar mentalidade, captar mais adeptos e maior competitividade

José Couceiro, Duarte Gomes, Costinha e Rui Patrício participaram no Debate Meta 2028
• Foto: Liga Portugal

A Liga Portugal tem como meta voltar a colocar Portugal no Top-6 do ranking da UEFA e, à margem da Allianz Cup realizou um debate com vários figuras do futebol nacional - José Couceiro, Duarte Gomes, Costinha e Rui Patrício - para discutir esta questão e existiram várias questões abordadas, mas o debate acabou por ser marcado pela arbitragem. No entanto, todos concordaram que existe a necessidade de uma mudança de mentalidade, quando se assiste tantas vezes a cenários de anti-jogo por parte de jogadores e equipas técnicas. Rui Patrício defende que é necessário captar mais adeptos para os estádios, enquanto Couceiro avaliou a necessidade de uma maior competitividade para a competição subir de nível.

"O mais importante de um jogo de futebol são os jogadores. Não há qualidade se não tivermos jogadores de qualidade. Todos os agentes desportivos podem ser os melhores, mas se os jogadores não forem de grande nível, não teremos jogo de maior qualidade. Precisamos de mais bons jogadores, formando e dando oportunidade a que eles possam jogar nas equipas de cima. Os jogadores são fundamentais, temos de perceber como nós podemos ter cada vez mais melhores jogadores. Temos uma formação de muito bom nível, concentrada em poucos clubes, mas a verdade é que temos uma dimensão de futebol jovem de grande qualidade. Temos de pensar no que podemos fazer melhorar. É uma questão de educação. Temos de ter mais tempo útil de jogo, precisamos de menos tangas. Depois, não há nenhum país na Europa em que cerca de 93 por cento dos adeptos estejam concentrados em apenas três clubes. Temos um quadro interno que merece atenção, que precisa de soluções diferentes", apontou o antigo técnico, que deixou também um apontamento à forma como, tantas vezes, se perde tempo útil de jogo e à análise aos lances de arbitragem: "Isto é uma questão cultural de educação. Em alguns momentos há exposição excessiva. Temos os ex-árbitros que fazem comentários nos jornais, são em muitas situações os piores analistas para a arbitragem. O árbitro é peça fundamental para a qualidade do jogo. Nas reposições de bolas, o árbitro deve ser muito mais interventivo em relação a isso. Só fizemos isso uma vez, que era os árbitros conseguirem perceber o modelo de jogo. Conhecem as leis bem, mas não o jogo. Quando criaram um encontro com treinadores e árbitros, só apareci eu e o Rui Vitória. Temos de ir todos. É importante os árbitros perceberem como o jogo se desenrola".

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Rui Patrício alertou, também, para a diferença de mentalidades do que viveu em Portugal, em comparação com outros países, nomeadamente, Inglaterra e aconselhou a que se replique algumas iniciativas para os estádios terem mais pessoas e serem, também, mais apelativos para os jogadores.

"Eu, como ex-jogador, agora de fora, o que é que faz um jogador estar na Liga portuguesa? O que pode fazer um jogador estar contente cá em Portugal a jogar. Quando cheguei a Inglaterra havia muitas ações para puxar o público para o estádio. Cá em Portugal é muito difícil um estádio estar cheio. Só os 3 grandes e o V. Guimarães. Os jogadores querem jogar com estádio de cheio e é preciso fazer algo para puxar adeptos para o estádio. Em Inglaterra, íamos a escolas para puxar público e isso faz com que essas crianças e pais vão ao estádio. Podemos criar excelentes jogadores, mas é importante o que há à volta, ter os estádios cheios. Isso é importante para se vender um produto bom. Há coisas a melhorar, mas como se pode aproveitar os jogadores para trazer o público para os estádios é muito importante. Tem de haver mais ações. É difícil pedir aos jogadores, mas deveria de ser obrigatório irem a escolas e associações, porque os adeptos e as crianças querem é ver os jogadores. Parte dos clubes criarem ações. É preciso criar estratégias para isso. Nós em Inglaterra, éramos 22 jogadores, e cada um três ou quatro vezes por ano, tínhamos estas ações. E isso ajudava a ter mais adeptos", sublinhou, apontando ainda à facilidade com que os clubes se aproveitam dos erros dos árbitros para esconderem os erros próprios: "Eu vendo de fora, vejo é que é mais fácil criticar o árbitro do que os erros da própria equipa. Uma equipa falha 10 golos e o árbitro uma vez e o culpado é o arbitro. Em Inglaterra não se criticam os árbitros. Quando as pessoas não podem criticar por causa das multas, o foco deixa de ser o árbitro e passa a ser o jogo. Em Inglaterra, como as pessoas não falam, ninguém vai falar. Não vão andar a massacrar nem a criar um mau ambiente para o futebol".

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O público assiste ao Debate Meta 2028, iniciativa da Liga Portugal

Já Costinha, antigo jogador, aproveitou a presença de Rui Patrício para assinalar como, muitas vezes, é difícil para um treinador apostar nos jovens em Portugal. E que, dessa forma, se desperdiça muito talento. "Temos aqui o Rui Patrício e se o Paulo Bento não fosse persistente, ele se calhar não teria a carreira que teve. Como é que os bons jogadores podem ir ao topo, se quando se mete um jovem a jogar e ele comete um erro, já o estamos a criticar. É difícil os bons jogadores aparecerem porque ao mínimo deslize que tenham são logo colocados de parte. Todos elogiam o Lennart Karl, no Bayern Munique, o Yamal, no Barcelona, mas também cometem erros. Quando queremos melhores jogadores, temos de olhar também para a forma como olhamos para eles, o tempo de jogo que lhe damos e a paciência que temos para eles. Acaba muitas vezes, quem está a treinar, nem tem o tempo suficiente para si e por isso, o objetivo é segurar a cadeira dele. O que importa é o resultado aparecer", apontou o ex-internacional português. 

Duarte Gomes teve um discurso mais focado na arbitragem, mas sustentou que este ambiente de suspeita constante não favorece os árbitros. "As culturas são diferentes e transportamos para o campo a nossa história. Temos de conviver com isso, nós árbitros. Temos de perceber que a crítica faz parte do jogo. O que existe é uma capacidade de passar de uma critica a uma suspeição constante ao trabalho das pessoas. Tem décadas, não muda a narrativa e não há muita gente interessada, também na imprensa e no comentário de trabalhar nisto. É uma questão de comportamento, dentro e fora de campo. Nós normalizamos este tipo de comportamento. Normalizamos o frame e a lupa com micro-imagens. Precisamos de nos desprender destes maus vícios", vincou.

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Por Valter Marques
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