_
Está a gerar indignação a decisão do árbitro Rui Ferreira de um jogo da AF Santarém de não interromper a partida entre Atalaiense e Ouriquense, realizada no último domingo, devido à morte nas bancadas de uma adepta de 88 anos, avó do jogador da equipa da casa João Pedro Ferreira. Em comunicado, a associação já mostrou a sua discordância com a decisão do juiz, que também não permitiu que as equipas médicas atravessassem de imediato o terreno de jogo.
O jogo contava para a 3ª jornada da fase de apuramento de campeão da 2ª Divisão Distrital da AF Santarém, realizado no Parque Desportivo Municipal da Atalaia. A adepta, Maria Justina Duque Lopes, foi prontamente assistida, inicialmente por populares e, posteriormente, por elementos das equipas médicas de ambos os clubes, que realizaram manobras de reanimação até à chegada dos bombeiros, reforçados pouco depois pela equipa da Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) do Médio Tejo. Infelizmente, não foi possível evitar o trágico desfecho, pois a idosa entrou em paragem cardiorespiratória e acabaria por falecer no local.
"Lamentamos que a equipa de arbitragem não tivesse interrompido o encontro, como se impunha, alertada pelos elementos de ambas as equipas para a dramática situação que se passava na bancada", lamenta a AF Santarém, acrescentando: "Perante um acontecimento desta dimensão, o futebol e os resultados desportivos passam para segundo plano, prevalecendo a solidariedade, o respeito pela vida humana e o apoio a todos os que foram afetados por esta trágica situação."
A fisioterapeuta do Atalaiense, namorada do neto da idosa que estava no banco de suplentes, após ter sido substituído minutos antes, teve mesmo de contornar o terreno de jogo para prestar assistência à vítima. “Com toda indignação a ser vivida por atletas e dentro do campo, o Sr. Rui Ferreira obrigou toda gente a continuar o jogo. A única atitude que teve foi expulsar dois atletas da equipa do Estrela Ouriquense, que lhe pediam para parar o jogo de imediato”, relatou uma testemunha.
CA defende juiz
Em defesa do juiz veio o Conselho de Arbitragem da AF Santarém, que em comunicado relatou: "Não obstante os alertas emitidos por vários intervenientes, o árbitro da partida não procedeu à interrupção do encontro por não ter tido, no momento em que os acontecimentos se desenrolaram, uma perceção cabal e exata da extrema gravidade e da dimensão verdadeiramente dramática da situação que se passava na bancada." E considera: "À luz do quadro normativo e das Leis do Jogo vigentes, o árbitro não está legalmente obrigado a interromper uma partida devido a ocorrências exteriores ao terreno de jogo (neste caso, nas bancadas). A decisão de parar o jogo, nestas circunstâncias excecionais, insere-se na sua prerrogativa discricionária."
De resto, assegura o CA que "a continuidade do jogo não condicionou ou atrasou, em momento algum, a assistência prestada à senhora. Os meios de socorro — que incluíram os Bombeiros, a Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) do Médio Tejo e os departamentos médicos de ambos os clubes — atuaram com total autonomia e imediatismo, sem que o decurso da partida tenha constituído qualquer obstáculo ou impedimento à prestação de auxílio."
Apoio psicológico
O Conselho de Arbitragem da AF Santarém admite, todavia, que "perante qualquer sinal de emergência médica nas imediações do recinto, a equipa de arbitragem deveria ter evidenciado uma maior sensibilidade e prontidão na avaliação macro do contexto", frisando: "Assumimos convictamente que existem momentos em que o enquadramento humano, ético e de bom senso deve prevalecer sobre a aplicação literal dos regulamentos. É precisamente nesse espírito de melhoria contínua que este Conselho reforçará as ações de formação e sensibilização dos seus árbitros, dotando-os de ferramentas para gerir ocorrências anómalas com a máxima humanidade, discernimento e atenção."
Informa ainda o comunicado que está a ser prestado "todo o apoio técnico e psicológico necessário à equipa de arbitragem nomeada para este encontro", pois "os árbitros envolvidos encontram-se profundamente consternados e afetados por esta tragédia, partilhando do sentimento de luto coletivo que hoje une o futebol distrital."