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CONCLUÍDO o anúncio público, feito numa improvisada sala de imprensa em que se transformou o “hall” do Hotel Radisson, paredes meias, por sinal, com o estádio de Alvalade, do divórcio entre João Pinto e o Benfica, o ex-menino de ouro dos encarnados recolheu-se, por momentos, na companhia da mulher, Carla, de Alcino António, ex-dirigente do clube da Luz e amigo de longa data, e de José Veiga e Baidek, os seus representantes. Após alguma emoção incontida, especialmente por parte de Carla Pinto, incapaz de travar lágrimas rebeldes, João Pinto prestou-se a alguns desabafos, os últimos antes de entrar na concentração da selecção nacional. Magoado com o que acabara de lhe acontecer e bastante ferido num orgulho que também é imagem de marca, o internacional português decidiu contar o que lhe ia na alma, lembrando o passado, sofrendo o presente, sem nunca perder a perspectiva do que o futuro vai reservar-lhe....
- Foi apanhado de surpresa pela notícia da dispensa?
- Fui. Cinco horas antes do jogo com o País de Gales recebi um telefonema de uma pessoa amiga a dizer-me que o treinador do Benfica não me queria.
- Mas não desconfiava, não tinha ouvido conversas nesse sentido?
- Agora que estou dispensado, e pensando em tudo o que se passou, talvez fosse possível identificar alguns indícios. Mas, francamente, não pensei que chegasse a este ponto...
- Teve más relações com Jupp Heynckes ao longo da época?
- Nem boas, nem más. Simplesmente não falávamos. E, por sinal, se ele quisesse falar comigo eu até falo espanhol e entendia-o bem.
- Mas começaram por falar, o treinador até lhe pediu quinze golos...
- Ao princípio conversámos bastante, de assuntos profissionais. Pela minha parte estive sempre disponível. E mais. Ninguém me ouviu dizer mal do treinador ao longo da época. Mesmo quando fiquei de fora, nunca o contestei, sempre disse que quem tinha de decidir era o treinador. Custou-me sempre muito ficar de fora, mas tive de respeitar. Mesmo quando me fez passar uma grande humilhação no jogo com o Estrela da Amadora.
- Mas os primeiros dois meses da vossa relação foram bons...
- É verdade. Mas, entretanto, ele mudou muito, não só para mim como para a maioria dos meus colegas.
- Depois dos sete a zero de Vigo, ou depois da doença do técnico?
- Não sou capaz de precisar com exactidão esse momento. A primeira fase do Campeonato foi boa mas a partir do momento em que começámos a perder, ele mudou completamente de atitude.
HEYNCKES E OS PORTUGUESES
- Heynckes não gosta de jogadores portugueses?
- Tudo me leva a crer que é assim que ele pensa. Não gosta de jogadores portugueses. Ele afirma que o único jogador português que queria é o Figo... O que irá fazer aos jogadores portugueses que vão ficar no plantel do Benfica?
- Se fosse Souness a pedir-lhe 15 golos, provavelmente você não reagiria como fez com Heynckes...
- O que posso dizer é que já tive épocas no Benfica a marcar mais de 15 golos. Mas para marcar golos é preciso sentir que confiam em nós. Não nos podemos preocupar com a nossa própria casa. E eu sempre que jogava sentia que essas pessoas que não me queriam no Benfica desejavam que o jogo me corresse mal. Daí a minha dificuldade em estar mentalmente a 100 por cento para os jogos.
- Quem eram essas pessoas?
- O treinador, a partir de determinada altura. E a própria Direcção, porque permitiu que o treinador fizesse o que fez.
- Não tem receio de ficar com fama de conflituoso. Fica de mal com Heynckes, depois de não se ter dado nada bem com Souness...
- Eu nunca provoquei nenhuma situação de conflito. Eles é que o fizeram. Sempre defendi o grupo e dei a cara pela equipa. Por isso, essa é uma acusação que não me podem fazer.
DE DAMÁSIO A VALE
- Estes “casos” com treinadores ocorreram durante o consulado de Vale e Azevedo. Será que o João Pinto pagou o preço de muitas vezes ter aparecido com a bandeira de Manuel Damásio?
- Não sei. Mas o que é certo é que me ligaram sempre à Direcção de Manuel Damásio. Mas a boa relação que tinha com essa Direcção era a mesma que prendia ter com a de Vale e Azevedo. Mas nunca me permitiram ter essa relação normal.
- Como é que lhe pareceu Vale e Azevedo quando acordaram os termos da rescisão?
- Achei que aquilo era uma coisa perfeitamente normal para ele.
- E ao longo da conversa que mantiveram nunca foi colocada a hipótese de limitar o seu acesso a outros clubes portugueses?
- Não. Disseram-me que podia ir para onde muito bem entendesse.
- Dentro dos seguintes termos: sai, pode ir para onde quiser, mas abdica de quatro anos de salários?
- Mas não houve qualquer negociação. O presidente transmitiu-me que o treinador, caso eu insistisse em ficar, não me poria a jogar. E até me disse mais. O que me restava? Creio que não merecia esta atitude...
- O que é que Vale e Azevedo lhe disse mais?
- Que o treinador nunca me poria a jogar nos encontros mais acessíveis para o Benfica, porque havia muitas probabilidades de vencermos. Só me colocaria nos jogos que apresentassem mais complicações.
- Qual é o seu estado de espírito, nesse momento? Fechar contas com o Benfica e partir para outra?
- Tudo isto me deixou muito magoado. Mas não vou cair, vou olhar em frente e tratar de ultrapassar tudo isto da melhor forma. E vai ser já a partir de hoje.
- Como é que reagiu a sua família?
- Também com grande mágoa. Aliás é normal. Foram muitos anos ao serviço do Benfica.
- Tem recebido muitos telefonemas de apoio?
- Sim. As pessoas que gostam de mim não me têm faltado. Acham que fui injustiçado. Mas vou olhar em frente e seguir o meu caminho.
O CORUNHA
- A história da sua saída para o Corunha há dois anos nunca foi bem contada e pode ter deixado sequelas...
- De facto pensei que tudo isso já estivesse ultrapassado. Nesse caso, os dirigentes do Benfica imploraram-me para que aceitasse a proposta do clube espanhol. A verdade é essa. Passei uma semana muito difícil, noites e noites sem dormir. Diziam-me que se eu ficasse o Benfica tinha de fechar as portas...
- O que deseja dizer aos sócios e adeptos do Benfica?
- Fundamentalmente, e do fundo do coração, quero agradecer-lhes o carinho que manifestaram por mim ao longo destes oito anos. Nunca os esquecerei.
- Mas, não sei se já reparou, o Benfica, para si, é passado...
- Pois. Vou partir para outra fase da minha carreira. Mas, esta situação, não fui eu que a provoquei. Fui quase obrigado a sair do Benfica.
- Já se imaginou, por hipótese, daqui a dois meses a entrar no Estádio da Luz para jogar contra o Benfica?
- Sinceramente, ainda não tive tempo para pensar nisso.
- O João Pinto, depois de uma má experiência no Atlético de Madrid, tem dado sempre a ideia de não se sentir atraído pela aventura de jogar fora de Portugal. Desta vez, será que vai mesmo sair para o estrangeiro?
- Fui para Madrid numa fase completamente diferente, não só da minha vida, mas também do futebol internacional. Tinha 18 anos, o número de estrangeiros era limitado e eu não estava preparado para um desafio daquela grandeza. Mas nunca pus de parte uma saída para o estrangeiro. Há vários jogadores portugueses com experiências muito conseguidas na Europa.
- Além da preocupação com as condições financeiras, também vai colocar nos pratos da balança o valor desportivo do clube que escolher?
- É claro que quero um clube com ambições. Mas, neste momento, não sei qual será o meu destino. Estou empenhado na selecção nacional e agora, mais do que nunca, o Campeonato da Europa pode ser importante para o meu futuro.
- Contou a alguns dos seus colegas, antes do Portugal-País de Gales, que tinha sido dispensado do Benfica?
- Tentei contar ao Rui Costa, mas acabou por não se proporcionar.
- O que é que lhe passava pela cabeça, naqueles momentos?
- Senti uma necessidade enorme de desabafar e acabei por não ter ninguém naquele momento para me ouvir.
- E agora? Vai ser só pensar na selecção, ou esperam-no ainda algumas noites mal dormidas?
- Confio no meu valor e quero ajudar a selecção. O resto... o que tiver de acontecer, acontecerá.