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O Benfica não podia desperdiçar a oportunidade oferecida pela Académica de ultrapassar o FC Porto e regressar à liderança da Liga, quase oito meses depois da traumatizante derrota no Dragão. O Rio Ave era o anfitrião perfeito para este objetivo e, com a força do que tem de ser, os golos apareceram, com um pequeno susto pelo meio, graças ao regresso de Rodrigo e Lima, recompensando a confiança sempre mantida pelo treinador, durante uma espera tão longa que já se confundia com crise de forma e dúvida instalada.
Consulte o direto do encontro.
Lima para Rodrigo no primeiro golo, Rodrigo para Lima no terceiro e, de permeio, um livre direto fabuloso do brasileiro ditaram os golos do habitual triunfo encarnado nos Arcos. Uma eficácia notável: três golos em apenas oito remates, na linha do que tem sido registado esta época, com muito menos finalizações do que em anos anteriores.
Sérvio-gaúcho
Depois da vitória de Bruxelas, Jesus insistiu no meio-campo sérvio-gaúcho, com dois médios-interiores, os balcânicos Fejsa e Matic, e dois externos, não propriamente extremos, os argentinos Pérez e Gaitán. Com Fejsa mais posicional e defensivo, Matic liberta-se para a condução do ataque, Pérez vagueia por todo o lado e Gaitán tenta compensar a falta de verticalidade das alas. A profundidade fica a cargo dos avançados Rodrigo e Lima, igualmente de uma enorme mobilidade, em contraste com o esquema mais rígido com o vértice em Cardozo. Não foi por acaso que os dois golos saíram de desmarcações à linha de fundo de um dos dianteiros.
Este sistema é mais complexo do que o tradicional 4x4x2 com Salvio, mas oferece um maior controlo do adversário. A equipa expõe-se menos ao contra-ataque, gere melhor a bola e ataca pela certa.
Artístico
Apesar da espetacularidade dos golos, a exibição de ontem não entra na galeria das grandes notas artísticas. O jogo é mais frio, mas também menos tonto e falível do que noutros tempos com Jorge Jesus, em que ao rolo compressor não correspondia uma percentagem de boas finalizações tão alta como atual.
O Rio Ave foi até onde o Benfica deixou e, depois de um primeiro tempo praticamente sem qualquer ação ofensiva digna de registo, conseguiu chegar ao empate, por alguns minutos, tirando partido de mais um erro defensivo dos encarnados, novamente na zona de Garay e com um erro de cálculo de André Almeida, que permitiu a Ukra transformar um centro inofensivo em golo. OBenfica não era batido há alguns jogos e, em função do apagão de Lima, podia ter deixado fugir uma vantagem preciosa, com o espectro do empate a assustar os adeptos.
Mas cinco minutos depois, um livre direto frontal deu a Lima, na ausência do especialista Cardozo, a chance de se redimir deste começo de época pouco convicto. A folha seca sobre a barreira foi perfeita e o Rio Ave acabou ali, sem capacidade de voltar ao jogo, pois também ficou reduzido a dez de imediato.
O terceiro golo coroou o ascendente que o Benfica exerceu até final, com Rodrigo a retribuir a oferta. As notícias da “morte” dos dois avançados eram claramente exageradas e instala-se agora mais tranquilidade no Seixal, enquanto Cardozo trata das suas mazelas.
O Benfica sobe à liderança da Liga quando não o esperava e prepara-se para um final de ano bem mais tranquilo, sobretudo por causa das soluções encontradas para o meio-campo, apesar de a segurança oferecida por Fejsa acabar por retirar algum espaço de manobra ao talento de Enzo Pérez. Mas o conjunto parece mais equilibrado.
Árbitro: Bruno Paixão (nota 3)
Como se previa, Bruno Paixão distribuiu cartões ao sabor de uma falta de critério disciplinar incorrigível, mas não teve qualquer problema complicado para resolver ou falhas muito graves. É na administração dos cartões que se baralha sempre, levando o jogo para zonas perigosas em que se vê forçado a decidir à vista. Enzo Pérez foi poupado ao amarelo, Tarantini ao vermelho e Wakaso pagou por todos.
Momento: minuto 63
Na ausência de Cardozo, que já não marca de livre desde o campeonato de 2011, Lima aproveitou ontem para mostrar como se faz um golo perfeito, resolvendo o jogo e sossegando os que já duvidavam da sua capacidade.
Nota técnica
Nuno Espírito Santo predispôs a equipa para um jogo repartido, embora com pouco andamento. A crise doméstica é de confiança e agora vem aí o Porto. (2)
Jorge Jesus, agora no exílio, foi buscar os papéis mais antigos e ganhou a aposta. Teimou com Fejsa e, finalmente, Matic e a equipa beneficiaram. (4)