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Toni, uma das mais excecionais figuras do futebol português, chega hoje aos 80 anos. O país junta-se à celebração de um momento marcante na vida de um homem acima de qualquer suspeita; tão conhecedor da matéria que o tornou famoso quanto amado pelo universo que o rodeia, cujo perfil resiste à conotação automática de um coração cuja cor todos conhecem; profundo dominador de todos os segredos do futebol, estatuto ao qual agregou respeito e afeto de todos quantos estiveram a seu lado. Toni, o Senhor Benfica, cumpre hoje oito décadas de vida, consolidado num trajeto imaculado como profissional de futebol, que abraçou, ainda menino e moço, nos tempos da infância vivida em Mogofores.
A sua honestidade intelectual tem-no levado, tempo fora, a reconhecer que, apesar da paixão indiscutível e da força simbólica exercida na nação encarnada, não é um benfiquista bacteriologicamente puro. Nos anos 50, por influência do pai, torcia pelo Belenenses, seduzido pelo fenómeno nacional que marcava a vida do futebol, do desporto e da vida no país: Lucas Sebastião da Fonseca, eternizado pelo nome de Matateu, que foi o seu primeiro ídolo, à semelhança da maioria dos jovens de norte a sul do território.
Por coincidência, há um toque moçambicano a orientar a linha da sua carreira. Depois do ídolo Matateu, o mestre e inspirador Mário Wilson, o mestre que o descobriu em Anadia, o levou para a Académica e assumiu com ele uma relação paternal ao ponto de o considerar o seu “filho branco”. O Velho Capitão revelou-se fundamental na orientação rumo ao profissionalismo e ao jogador em que acabou por se tornar. Na grande escola que foi a Briosa para tantas e tantas estrelas do futebol nacional, aprendeu depressa, integrou equipas de nível superior, jogou a final da Taça de Portugal mais longa de sempre (derrota com o V. Setúbal, por 2-3) e criou as condições para dar o grande salto.
O Benfica foi a melhor equipa da Europa nos anos 60 – duas vezes campeão europeu, mais três finais perdidas, entre 1961 e 1968, confirmam-no em absoluto. Foi nessa máquina de sonhos deslumbrante, composta por figuras maiores do futebol mundial, algumas das quais artífices da campanha dos Magriços, em 1966, que Toni se integrou. No primeiro dia na Luz, o homem que lhe deu as boas-vindas foi, imaginem só, o Monstro Sagrado, Mário Esteves Coluna. Confirmou então a dificuldade da tarefa que o esperava: romper a dupla de médios composta por Coluna (capitão, sim, mas já em fim de carreira) e Jaime Graça.
No Benfica cumpriu todas as etapas como grande jogador e senhor de um perfil em que bom senso, boa formação e liderança andaram de mãos dadas. Cruzou-se com parceiros para o resto da vida, viu ídolos transformarem-se em amigos do peito e consolidou o estatuto como grande figura do clube. Nesse processo um herói assumiu relevância ainda maior: Eusébio da Silva Ferreira, com quem estabeleceu cumplicidades de toda a ordem. Com o rei repartiu o balneário durante sete anos, consolidando uma relação que durou até à partida do Pantera Negra. Nele, Toni pode sintetizar a camaradagem que incluiu dezenas de personalidades que lhe coloriram a existência.
O final da carreira como tornou-se inevitável, quase tanto quanto a decisão de iniciar outra. Foi o húngaro Lajos Baroti, em 1981, quem o convidou para seu adjunto, no final de uma época na qual pouco o utilizou como jogador. Foi o começo de um ciclo mais longo, igualmente bem-sucedido, no qual permaneceu como figura incontornável do futebol português. Mas seria em 1982, com a chegada de Eriksson, que a expressão do conhecimento e o peso em decisões marcantes teve a dimensão que hoje lhe reconhecemos. Fez dupla com o então jovem sueco, orientou-o na realidade do Benfica e do futebol nacional, e formou uma dupla de cumplicidade perpétua pela vida fora.
Quando Eriksson partiu, Fernando Martins não o colocou à frente da equipa. Só mais tarde lhe foi concedida essa oportunidade, em 1987/88. O presidente João Santos convidou-o a meio da época para render o dinamarquês Ebbe Skovdahl. Formou então dupla com outro parceiro inesquecível: Jesualdo Ferreira, ao lado de quem jogou uma final da Taça dos Campeões, foi duas vezes campeão e venceu uma Taça de Portugal. Teve então experiências no estrangeiro, a mais impressionante das quais no Irão, ao serviço do Tractor. Ainda regressou a casa, mas sem o sucesso de outrora.
Hoje diretor da FPF, Toni completa 80 anos como uma das maiores figuras da história do futebol português, alvo da paixão popular que o torna, sem beliscar respeito e afeto, o ‘Senhor Benfica’. Parabéns Toni. Pelos 80 e pelo resto.