O «Furacão de Águeda» que compararam a Maradona

MUITOS dos que o viram jogar ousaram e ousam a aparente heresia: o melhor futebolista português de sempre chamou-se Hernâni. Hernâni (Ferreira da Silva), em detrimento de Eusébio (da Silva Ferreira), o mito da consagração planetária. Heresia? Houve quem fosse ainda mais longe: o génio futebolístico de Hernâni só tinha parâmetro comparativo nesse outro meteoro dos estádios que dá pelo nome de Maradona. Dupla heresia?

Num caso e noutro, Hernâni deixou resposta. Em relação a Maradona: “É claro que há nisto uma enorme dose de exagero. São comparações que não se podem fazer.” Relativamente a Eusébio: “O Eusébio tinha pormenores que o tornavam excepcional: uma grande corrida, uma invulgar capacidade físico-atlética, um belo jogo de cabeça, um pontapé fortíssimo e colocado. O Eusébio driblava razoavelmente, só razoavelmente, não era um virtuoso como alguns outros. O Simões e o Santana, por exemplo, que jogaram a seu lado, eram melhores a driblar. Recordo, no entanto, outro futebolista que não hesito em colocar a par de Eusébio: o Travassos, do Sporting. Era um jogador finíssimo, um jogador completo, fazia tudo bem e tinha um petardo que metia medo a qualquer guarda-redes.”

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De si próprio, enquanto futebolista, deixou Hernâni definição, equilibrando justa auto-estima e rigorosa incomplacência: “Fui um bom jogador, deixemo-nos de falsas modéstias, mas jogava mal de cabeça. Em toda a minha carreira, marquei centenas de golos, mas sempre com os pés. De cabeça, lembro-me de ter marcado dois ou três. Vendo-me objectivamente, torna-se óbvio que jogador com uma falha não pode ser o melhor de todos.”

Camões foi melhor do que Pessoa? Eça de Queirós melhor do que Thomas Mann? Bach melhor do que Beethoven ou Mozart? Estamos, aqui, no domínio da genialidade, do incomparável, do inefável. Face ao conjunto de grandezas espirituais, qualquer distribuição hierárquica releva de uma subjectividade que é, sempre, susceptível de contestação. O mesmo poderá aplicar-se, na esfera de uma realidade, digamos, prosaica, aos homens que atingiram, no exercício do futebol, o estatuto de transcendentes.

Ídolos se tornam os eleitos e não existe idolatria sem paixão, esse amor excessivo. Hernâni teve o seu próprio ídolo, nomeou-o e definiu-o, mas não o colocou acima de todos: “Chamou-se Artur de Sousa e nunca o vi, realmente, jogar. Conheci-o como meu treinador. E vi como parava a bola, como a passava, como a chutava, como lhe imprimia efeitos, lançando-a longe ou perto. Pude ver como fintava ou driblava, com o adversário a muita ou pouca distância. Ouvi o que ele dizia, que tipo de soluções encontrava para esta ou aquela jogada. Esse homem, Artur de Sousa, o “Pinga” para toda a gente, impôs-se-me como alguém que tinha tudo para ser um fabuloso jogador de futebol. O melhor de todos? Talvez.”

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Hernâni Ferreira da Silva iniciou-se como futebolista no Recreio Desportivo de Águeda, na terra onde nasceu. Descoberto o seu talento, chegou ao FC Porto com 19 anos e estreou-se oficialmente a 10 de Setembro de 1950, num jogo contra o Estoril Praia, no pelado da Constituição, contribuindo com um golo para a vitória (4-3) da sua equipa.

O autor destas linhas – então com 16 anos – viu-o nessa tarde, branquinho de pele, levemente acorcovado, quase uma fraca figurinha, correndo como um gamo, driblando, passando e chutando, desbobinando um reportório torrencial que não enganava: estava ali, naquele pingo de gente, um jogador fora-de-série.

Haveria de confirmar-se, em plenitude, a premonição. A carreira de Hernâni iria, ao longo de quinze anos, enfeitar-se de belas exibições, muitos golos, títulos e consagração nacional e internacional.

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Integrando uma equipa onde luziam, entre outros, nomes como os de Pedroto, Acúrsio Carrelo, Perdigão, Carlos Duarte, Arcanjo, os irmãos Albano e Ângelo Sarmento, António Morais, Custódio Pinto e os brasileiros Jaburu, Gastão e Luís Roberto, Hernâni seria o artista entre artistas, jogando à esquerda ou à direita, a extremo, a interior, a centro-campista, milimétrico no passe, imparável, lúcido, matreiro, irreverente, contagiante pela excelência e pelo empenhamento.

Ganharia com Yustrich (1957-58) o seu primeiro título – aquele em que o FC Porto quebraria 16 anos de abstinência – e com Guttmann (1958-59) o segundo. Vestiria em 28 jogos a camisola das quinas e marcaria cinco golos.

Numa carreira de década e meia, Hernâni – o “Furacão de Águeda” – foi sempre “do” FC Porto, mesmo quando, a prestar serviço militar no Sul, representou o Estoril Praia, com uma condição expressa e aceite: nunca jogaria contra o Porto.

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Benfiquista em criança, Hernâni haveria de transformar-se em portista de corpo e alma. Serviu o clube com rara fidelidade, o que não o impediu, todavia, de marcar posições firmes, como aconteceu num “diferendo” com o brasileiro Yustrich, treinador sabedor mas truculento: as coisas entre ambos azedaram e Hernâni teve, na sua própria expressão, “uma reacção física”.

Por outras palavras, o subordinado enfiou uns sopapos no hercúleo mestre. Hernâni comentaria, anos mais tarde: “O mais curioso da história é que o treinador, que era temperamental mas não era estúpido, não me tirou da equipa. Acima de tudo, preocupava-o ter os melhores jogadores em campo.”

Abandonada a actividade em 1964, Hernâni fez-se industrial e passou para o lado de trás dos bastidores. Perdeu cedo a mulher e viveu na companhia da filha Isabel Cristina até ao limite da existência terrena. Não deixou de ir ao futebol, foi, episodicamente, dirigente mas privilegiou, sobretudo, a amizade e o convívio. Entre os eleitos esteve, sempre, José Pedroto, companheiro de parola e sueca e, de algum modo, o seu alter ego. A Pedroto confiaria Hernâni, um dia, uma confidência lapidar: “Este? Este vai ser o maior presidente do FC Porto. Tem tudo para o ser.”

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“Este” chamava-se e chama-se Jorge Nuno Pinto da Costa.

Tarde chuvosa de 5 de Abril de 2001, Hernâni Ferreira da Silva deixa-nos. Em mansidão, no culminar discreto de uma vida intensa, longe de tertúlias ou ribaltas que não a do núcleo cordial dos amigos, os que – e orgulho-me de ter sido um deles – o conheceram e admiraram como jogador de futebol e como homem. Ser melhor do que muitos ou do que todos, eis o que se tornou irrelevante perante o essencial: a perduração da sua excepcionalidade, do mérito que a memória honrará.

Devoção portista nunca foi traída

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Apesar de ter sido adepto do Benfica, Hernâni rapidamente se apaixonou pelo FC Porto. Aos 19 anos abandonou o Recreio de Águeda e lançou-se numa carreira que deixou o seu nome gravado na história do futebol português. Só deixou as Antas por um ano, quando cumpriu o serviço militar, altura em que representou o Estoril contra a vontade dos grandes lisboetas.

Defesa de Pedroto evitou uma desfeita

O calor que colocava nas arrancadas era transposto por Hernâni para momentos em que não continha os ímpetos. Foi assim uma bela tarde, em que decidiu invectivar a mãe de um árbitro. Este estava disposto a fazer justiça quando a intervenção de José Maria Pedroto, seu colega de equipa, evitou uma desfeita garantindo que o insulto era para si porque não se tinha desmarcado...

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Contributo importante para quebrar o jejum

Hernâni integrou a grande equipa do FC Porto que colocou fim a um jejum de 16 anos sem ganhar o título. Depois do bicampeonato entre 1938 e 40, só em 1955/56 a sorte mudou. Orientada pelo brasileiro Yustrich, a equipa era composta por Pinho, Virgílio, Osvaldo Cambalacho, Pedroto, Miguel Arcanjo, Monteiro da Costa, Carlos Duarte, Perdigão, Hernâni, Teixeira e Jaburu.

MANUEL DIAS - Jornalista e Escritor, autor de vários livros sobre o FC Porto e de “O Futebol no Porto”, obra que acaba de ser editada pela Campo das Letras e que tem um capítulo dedicado a Hernâni

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