A mão de Taveira no Alvalade XXI

O NOVO estádio do Sporting, tal como o conhecemos através das maquetas divulgadas ao longo dos últimos dois anos e meio, é apenas um conceito e não um desenho definitivo. A Ballast Neddam International, empresa holandesa contratada no final de 1996 para projectar o recinto, entregou a Tomás Taveira a tarefa de inserir o Alvalade XXI no contexto urbanístico de Lisboa. Do aspecto esotérico da maqueta inicial, apenas deverão ficar os quatro mastros a sustentar a pala, que se mantém como o traço distintivo do projecto, apesar das similaridades com a inspiração do novo Centro Comercial Colombo.

Taveira, sócio do Benfica mas também um dos arquitectos portugueses com mais projecção nacional e internacional, trabalha desde há um mês com a Ballast Neddam, na companhia de Fernando Castelo Branco, co-proprietário do atelier Graphos. Os arquitectos foram escolhidos pela própria empresa holandesa. Fritz Kuiper, chefe de projectos do escritório central de Amsterdão, explicou a Record ter travado pela primeira vez conhecimento com a obra de Taveira ao observar as linhas revolucionárias da nova Penitenciária de Dordrecht (Holanda), desenhadas pelo português.

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A Ballast já construiu 35 estádios em todo o Mundo, entre os quais o ArenA de Amsterdão (Ajax) e os novos recintos de Vitesse Arnhem, Borrussia de Dortmund e Newcastle United. Todos os projectos, sublinhou Kuiper, são finalizados por arquitectos locais, seleccionados de acordo com o seu prestígio e o enquadramento do seu trabalho nas ideias-base definidas nos escritórios centrais de Amsterdão.

"Não é fácil, numa obra desta grandeza, um arquitecto introduzir todos os traços que celebrizaram a sua obra. Mas é possível introduzir alguns, e foi por isso que escolhemos Tomás Taveira e Castelo Branco. No caso de Taveira, conheço-lhe coisas maravilhosas, que admiro muito", explicou o chefe de projectos da Ballast Neddam.

Para já, não há informação sobre até que ponto Taveira vai alterar o desenho divulgado nas assembleias gerais do Sporting. Mas poucos traços do aspecto geral das maquetas vão manter-se. O arquitecto, que diz estar "contratualmente impedido de falar aos órgãos de comunicação social", vai intervir quer ao nível do estádio propriamente dito, quer do espaço circundante - incluindo o projecto imobiliário -, em coordenação com dois arquitectos nomeados pela Direcção Municipal de Planeamento Urbanístico de Lisboa.

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Os técnicos da Câmara ficam incumbidos de defender o Plano Director Municipal e de procurar satisfazer as reivindicações feitas ao longo do último ano pela Associação dos Moradores de Telheiras, nomeadamente no que diz respeito às acessibilidades. Os objectivos do trabalho ficaram definidos no protocolo assinado a 12 de Maio entre o Sporting e a edilidade, que entretanto entregara ao clube de Alvalade a exploração de três parques de estacionamento na capital.

"É cedo para adiantar os traços mais visíveis da intervenção de Taveira e Castelo Branco, mas é certo que haverá novidades substanciais no aspecto geral da obra. Nós criámos o conceito, eles vão introduzir a arte. Estamos a discutir neste momento a manutenção dos quatro mastros a sustentar a pala. Mas as paredes do estádio, por exemplo, serão quase completamente definidas pelos arquitectos portugueses", disse Fritz Kuiper. "Na maqueta inicial, deixámos propositadamente várias partes da obra com um aspecto muito vago, que agora há que definir em termos de estrutura, de cores, etc, etc."

SALAS DE CINEMA

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Nas mãos de Taveira e Castelo Branco estarão ainda os interiores do estádio, de acordo com os aditamentos feitos ao projecto inicial da Ballast. Desde que a primeira maqueta foi apresentada, o Alvalade XXI passou por duas fases de reforço de objectivos: a primeira logo em 1997, com a decisão de alargar a exploração comercial do edifício; e a segunda no ano passado, com o projecto de criação de mais onze mil lugares sentados, por forma a responder às exigências da candidatura portuguesa à organização do Europeu 2004.

Estes aditamentos já originaram um acréscimo radical no orçamento da obra, mas também a promessa de investimento do Estado, num total de cerca de um quarto do custo final, ainda por estipular. No último orçamento divulgado, o novo Alvalade XXI deveria custar cerca de 17 milhões de contos, mais três a cinco milhões do que o definido no projecto inicial.

Mas fonte de Alvalade sublinhou que os estudos ainda em curso sobre os interiores do prédio deverão originar custos "sempre a somar" aos previstos, embora também, após a conclusão da obra, "receitas crescentes para o Sporting".

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"De cada vez que se introduz uma novidade no projecto, isso significa mais custos, mas essencialmente mais receitas para o Sporting", corroborou Fritz Kuiper. "No projecto inicial, por exemplo, não estavam previstas as salas de cinema que agora estão a ser desenhadas. E há mais uma série de espaços de lazer ainda em estudo, que neste momento ainda não é possível adiantar."

A Ballast Neddam International, que poderá tornar-se um parceiro privilegiado de Portugal na construção e remodelação dos estádios para o Campeonato da Europa de 2004, já recebeu cerca de 400 mil dólares (70 mil contos ao câmbio de 1997) pela definição inicial do conceito. Os honorários, no entanto, têm vindo a aumentar, devido ao sucessivo alargamento dos prazos estipulados para o cumprimento das diversas etapas do processo.

A empresa espera o avanço da construção já em meados do próximo ano, mas em Alvalade há quem receie a redefinição dos prazos no caso de uma derrota de Portugal a 12 de Outubro, altura em que a UEFA tomará uma decisão sobre o Europeu. Segundo o compromisso assumido por José Roquette aquando da reunião de Maio com a Câmara Municipal, no entanto, o processo já não sofrerá alterações.

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TOMÁS TAVEIRA, UM NOME INCONTORNÁVEL NA NOVA ARQUITECTURA PORTUGUESA

Quando Nuno Cruz Abecasis, então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, inaugurou o Centro Comercial das Amoreiras, em 1986, os portugueses chocaram violenta e definitivamente com uma nova realidade arquitectónica, difícil de ignorar. A partir daí, deixou de haver certezas. Taveira passou a ser sinónimo de expectativa, quase de histerismo, numa actividade a que, apesar da definição de "suprema forma de arte" atribuída por vários filósofos, Portugal se mantinha indiferente.

Tomás Taveira, com uma pós-graduação em Planeamento Urbano e Regional no Massachussets Institute of Technology, é professor de arquitectura e design na Escola Superior de Arquitectura de Lisboa e já leccionou no Instituto Politécnico do Estado da Califórnia. Da sua obra literária, destacam-se "Discurso da Cidade" e "Martim Moniz", mas também textos em publicações especializadas (Domus, Progressive Architecture...) e generalistas (Time, Spiegel, Herald Tribune...).

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Para além do Centro Comercial das Amoreiras, o arquitecto projectou, entre outras obras, a nova sede do Banco Nacional Ultramarino, o Complexo Social das Olaias ou a Penitenciária de Dordrecht, na Holanda. A Academy Edition publicou ensaios sobre a sua obra em 1990 e 1997, complementando enciclopedicamente um trabalho exposto em todo o Mundo, de Lisboa a Barcelona, de São Paulo a Milão, de Hong Kong a Buenos Aires.

Taveira, que tem projectos para a construção dos novos estádios municipais de Aveiro e Leiria, faz em Alvalade a sua primeira grande incursão prática no futebol. Ao seu lado está Fernando Castelo Branco, que com Paulo Prazeres de Sá dirige o atelier Graphos, sediado em Carnaxide.

JOEL NETO

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