GRANDE PROJECTO – Sven-Goran Eriksson chamou-lhe um dia pequeno Baresi. Elogio porventura exagerado para a época, quando Rui Bento não passava de um jovem talentoso a subir na vida e o italiano era já um veterano, melhor líbero do Mundo, líder da equipa referência do futebol europeu (Milan) e candidato seguro a um lugar na galeria dos melhores defesas da história. Mas os pontos de contacto existiam, sendo hoje claro que a declaração do treinador sueco tinha fundamento técnico indiscutível, mesmo que excessivamente ousada por encerrar o pressuposto, ainda que subentendido, de que o futuro ao mais alto nível jogava a favor do então benfiquista e na altura já campeão do Mundo de sub-20 (1991).
RÁPIDO E INTELIGENTE – Rui Bento era então um defesa rápido (de pernas e raciocínio); franzino mas corajoso; líbero por vocação mas senhor de muitas qualidades distintas que lhe permitiam ocupar vários lugares do meio-campo para trás. O posicionamento no terreno, a capacidade de adivinhar os lances e a firmeza como caía em cima da bola e do adversário tornaram-se apenas o ponto de partida de uma das mais eloquentes expressões do seu talento: futebolista adulto e confiante que participava na primeira fase de construção do jogo, saindo de trás com a bola dominada. Características que permitiam alimentar todas as esperanças.
SENTIDO DE RESPONSABILIDADE – Quando foi de férias em 1991, Eriksson tinha a perspectiva de uma dupla de centrais que seria o esteio da equipa: Geraldão (que não veio) e Ricardo Gomes (que sairia entretanto). Acabou entregue a dois jovens: Rui Bento e Paulo Madeira. A época não correu bem ao Benfica mas serviu para confirmar no novo craque mais uma qualidade importante: o enorme sentido de responsabilidade. A presença regular na equipa benfiquista – participou na primeira edição da Liga dos Campeões, à custa da vitória em Highbury, sobre o Arsenal por 3-1 – deu-lhe experiência e rotina de jogo. Chegou à selecção nacional, tinha crescido como jogador e era já uma referência quando lhe indicaram o rumo do Bessa (a ele e a Sanchez), como moeda de troca da transferência de João Pinto para a Luz.
CONVERTIDO EM MÉDIO – Manuel José, que havia de ser seu treinador nas quatro épocas seguintes, deu início à destruição da imagem do pequeno Baresi idealizado por Eriksson. Começava o processo de conversão de líbero com muitas qualidades num dos médios-centro mais lúcidos e inteligentes do futebol português. Um jogador capaz de marcar (simplesmente precioso quando é preciso “pegar” no segundo ponta-de-lança ou no médio mais ofensivo), de orientar e ocupar o espaço deixado em aberto pelo parceiro do lado (exemplar a sua relação com Petit na última temporada), interceptar linhas de passe e jogar a um/dois toques, sempre com critério, sempre em prol da equipa. Em suma, Manuel José lançou as bases (exemplarmente aproveitadas depois por Jaime Pacheco) para tirar partido das suas qualidades alguns metros à frente.
BARÓMETRO DA ENERGIA – Rui Bento é hoje um médio-centro de qualidade insuspeita, que assumiu o papel de barómetro do campeão 2000/01, o homem que esteve sempre um passo atrás ou ao lado da dinâmica avassaladora imprimida pelo Boavista na procura da bola – e deu sentido a muitas descargas de energia de equipa que jogou sempre em voltagem máxima. Ao cabo de nove épocas ao serviço do Boavista, onde a vida nem sempre lhe correu de feição, sobretudo nas temporadas de 1996/97 e 1997/98 (as que marcam a transição de Manuel José para Jaime Pacheco, com Zoran Filipovic, João Alves e Mário Reis pelo meio), Rui Bento regressa a Lisboa, desta vez para vestir a camisola do Sporting. Não sendo uma contratação sonante somos capazes de estar perante uma das mais importantes do mercado até ao momento.