Os dérbis valem por eles próprios, mais ainda o Benfica-Sporting que pára o país, estimula os sentidos, recupera as emoções e não raramente interfere no bem-estar de quem jurou amor eterno à bandeira e ao símbolo de uma comunidade. É nestes momentos que o futebol demonstra a sua força esmagadora no meio em que vive, porque à hora do dérbi nada de mais relevante acontecerá no país. Quis o destino que a época 2015/16 desse o pontapé de saída com o confronto mais apetecido do desporto português e ainda lhe acrescentasse as circunstâncias extraordinárias de o treinador mais vitorioso da história do Benfica se ter transferido, ao cabo de seis anos de sucesso, para o Sporting, estreando-se oficialmente frente à antiga equipa.
Os últimos dias tiveram o condão de desviar o foco das atenções. Um desvio redutor, se olharmos para a grandeza imensa dos povos que suportam os exércitos em combate, mas que se focalizou na imagem e no significado dos dois treinadores. Jorge Jesus e Rui Vitória são os dois grandes protagonistas do filme de hoje à noite no Algarve, embora seja fácil reconhecer que, de entre os dois, só o técnico leonino é candidato ao Oscar. Jesus comandou a agenda mediática que precedeu a Supertaça; quase todas as conversas até ao apito inicial de Jorge Sousa basearam-se no discurso escolhido e na interpretação que cada um foi fazendo do seu conteúdo e intenções.
O processo teve início em declarações prestadas após a vitória leonina sobre a Roma, quando reconheceu favoritismo ao Benfica pelo avanço de um trabalho com seis anos, ideia na qual insistiu durante a semana, reclamando os louros do sucesso encarnado – que Rui Vitória aproveitou todas as suas ideias e que ele, Jesus, já tinha mudado tudo no Sporting. Apesar da água que ontem deitou na fervura, na conferência de imprensa que lançou a final, o responsável verde e branco já deu ao dérbi eterno o rosto que o apimenta e transforma em mais do que isso. Só um grande protagonista consegue semelhante feito. Algo que não vai mudar depois do jogo: se vencer, confirma que está acima de qualquer estrutura; se perder, assumirá a derrota frente a uma equipa que ele próprio construiu. Os "mind games" também servem para estas coisas.