Euforia. É esse o estado de espírito que caracteriza os adeptos leoninos, após uma pré-temporada sem derrotas, culminada com triunfos ante Crystal Palace e Roma. Contudo, mais importante do que as vitórias é a forma como os jogadores vão apreendendo os processos que caracterizam o exigente jogar de Jorge Jesus. No Sporting, com o modelo de jogo, construído sobre o sistema 4x4x2, que conduziu o Benfica ao primeiro bicampeonato em três décadas, já se nota a marca do treinador. Para já, mais vincado no processo defensivo. É exigido um trabalho mais exaustivo às duas primeiras linhas: a avançada, mais pressionante, agressiva e reativa à perda; a média, mais astuta na busca de referências e na realização de coberturas.
O comportamento da linha defensiva ainda tem arestas por limar, já que a opção por uma defesa mais alta é arrojada, aspeto que o Benfica procurará perscrutar. Mas nota-se que está mais compacta, o que é crucial para melhorar o controlo da profundidade e a definição da última linha. Faltará a Jesus um central mais rápido, mas Paulo Oliveira – muito inteligente – e Naldo – pouco ágil, mas contundente – vão assimilando, tal como os laterais, os conceitos que diferenciam o mestre da organização defensiva.
No processo ofensivo, a capacidade de desequilíbrio dos jogadores, em ataque posicional, ataque rápido ou contra-ataque, marca diferenças. Mas, além do recurso a uma saída a três para construção, projetando os laterais com o recuo de Adrien, há uma maior ferocidade no ataque às entrelinhas, espaço onde surgem com frequência os alas e os avançados, consequência do robustecimento do jogo interior, visível na multiplicação de linhas de passe disponíveis ao portador da bola.
(Des)confiança
Assumir a sucessão de JJ seria sempre uma tarefa hercúlea. Chame-se o treinador Rui, Marco, Vítor ou Paulo. O mais preocupante para os adeptos encarnados não devia ser a ausência de resultados, como fica atestado pela horripilante pré-época que desaguou no bicampeonato. É, sobretudo, a dificuldade em intuir o modelo proposto e a qualidade de jogo a roçar o confrangedor. Percebe-se que Vitória pretende ter mais segurança na posse e menos vertigem, mas a equipa, pouco dinâmica, veloz e imprevisível, afunila o jogo pelo corredor central, criando escassas situações de finalização.
O comportamento defensivo, sobretudo de uma última linha que sempre se pautou pela enorme consistência com o seu antecessor, foi o mais assustador. Mesmo quando optou por um posicionamento mais baixo, ficaram a nu problemas no controlo da profundidade, além de espaços excessivos entre laterais/centrais e entre as linhas defensiva e intermédia.
Rui Vitória tem na Supertaça uma oportunidade de ouro para conquistar os adeptos. Para isso precisa de uma metamorfose, recuperando a consistência da última linha, ainda nublada pelas dúvidas quanto à utilização de Luisão e Jardel, e apostando num duplo pivô de meio-campo mais robusto e sólido, além da necessidade de maior largura – Carcela é o extremo que mais garantias lhe confere nesse aspeto, mas também se exige um maior envolvimento dos laterais – e verticalidade no ataque.
MOMENTOS COM RUI VITÓRIA
1.ª fase de construção
Vitória a privilegiar, fruto do recuo de Fejsa, uma saída a três. Os alas deslocam-se para o corredor central com os laterais a oferecerem largura.
Criação
O afunilamento do jogo ofensivo pelo centro. A projeção ofensiva dos laterais e a largura e profundidade de Carcela serão antídotos à previsibilidade.
Recuperação
Ação de pressão alta do Benfica, em que cria uma situação de superioridade numérica, fechando todos os espaços à saída do adversário.
MOMENTOS COM JORGE JESUS
1.ª fase de construção
A habitual saída a três de Jesus. O recuo de Adrien promove a subida dos laterais. Preocupação em oferecer linhas de passe privilegiando o corredor central.
Criação
Alas no espaço interior, abrindo espaços de penetração aos laterais. Ruiz, muito arguto nas entrelinhas, desenha dinâmica pontual em 4x4x2 em losango.
Recuperação
Os dez jogadores de campo num espaço muito curto em largura e profundidade. Asfixiar o adversário, conduzindo-o ao erro, é o principal objetivo.