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Antes de brilharem nos pavilhões foi na escola e na rua, misturadas com os rapazes, que mostraram aptidões acima. Depois, ainda com tenra idade, já competiam entre mulheres. Hoje, realizadas, falam com satisfação de uma nova realidade no desporto feminino, mais acessível às miúdas.
Como e onde é que tudo começou para, anos volvidos, serem duas das figuras mais destacadas do futsal feminino?
PISKO – O futsal aparece quando andava na quarta classe. Na altura, na minha zona (Vila das Aves), não existiam equipas de futebol e eu tinha um professor de Educação Física que treinava uma equipa de futsal. Foi ele quem me convidou. Mas só havia seniores e eu tinha apenas 9 anos! Após cerca de um ano a treinar parei porque não podia competir. Fiquei só pelo desporto escolar. Mas tarde, aos 13, regressei, então para fazer parte do plantel, onde jogava com mulheres de 20 e até 30 anos... Era o que tínhamos, não havia escalões de formação, mas nunca dei importância à questão de ser mais nova. Sempre joguei à bola, na escola, na rua com os vizinhos. Foi tudo natural. Era pelo prazer de jogar, não tinha nenhuma perspetiva de chegar tão longe.
ANA CATARINA – Eu estava sempre a jogar à bola, com o meu pai, no recreio da escola, onde fosse. Também foi o meu professor de Educação Física que me levou, aos 11-12 anos, ao Vilafranquense, o clube da minha terra, para a equipa de juniores. No verão, cheguei a ser convidada para uma equipa de formação do Benfica, depois de me terem visto num torneio, mas a tal equipa não avançou. Ainda assim, mantiveram o interesse e fui para as seniores com 13 anos!
Quem ia para a baliza não tinha jeito para jogar à frente?
AC – Era um pouco assim, sim. Mas eu mandava todos para a baliza! Queria era marcar golos e fazer fintas. Os outros cansaram-se e um dia tive de ir eu. Tomei-lhe o gosto e estou lá até hoje...
É preciso uma certa maluquice para ser guarda-redes? P- É verdade, sim!
AC– É mais coragem! As outras jogadoras, no caso do futsal, também fazem ‘carrinhos’ e oferecem o corpo à bola e ninguém diz que são malucas. Mas, é verdade, em todos os treinos levo boladas e dói. Às vezes, confesso, já viro a cara, não me apetece...
Alguma vez acertou na Ana?
P – Já, sim, mas não me lembro de ela ter ficado muito queixosa...
Mas ela tem mau feitio?
P – Tem um feitio diferente, é preciso saber entendê-la. Tem a ver com a exigência elevada que tem com ela e com os outros. Foi assim que chegou até aqui. Há vários tipos de pessoas num grupo e é preciso conseguir saber lidar com todos. Às vezes ela resmuga, fica mais aliviada e nós retiramos o essencial.
E como é a Pisko?
AC – Tem sido sempre a mesma pessoa desde que cheguei à Seleção, aos 18 anos. É uma das minhas referências. Sabe estar, não ‘se passa’ em campo. Pode até dar um raspanete, mas com as palavras certas e o tom correto.
Quantos golos já sofreu marcados por ela?
AC – Ui... sei lá! Já foram alguns, mas há um que não me esqueço. Foi em Vila Real, num livre de 10 metros. Era impossível lá chegar, a bola podia ir para a direita ou esquerda, a meia altura... Já nos treinos da Seleção era um problema para apanhar as tuas bolas!
P– A partida estava mesmo no fim e decidida, faltava 1 ou 2 segudos, por isso resolvi inovar em relação à forma como costumava marcar e correu bem. Fintei-a. Deve ter sido por isso que ficou chateada. Agora, vario mais um pouco, consoante a guarda-redes. Com o tempo vão estudando a nossa forma de marcar e é preciso mudar.
É melhor enfrentar livres de 10 metros do que penáltis...
AC–Não gosto de penáltis! Pedi várias vezes, na Seleção e no Benfica, para trocar. Se tiver de ir... vou na fé, mas aquilo chateia-me. Dá para estudar uns pormenores, mas é essencialmente tentar adivinhar um lado. Deixo para as outras que, de certeza, são melhores que eu. Até a Fifó é melhor que eu nos penáltis!
Um primo direito que é figura em Paris e não só
Daniela Ferreira, conhecida no futsal como Pisko, admite que muito do seu gosto por jogar à bola é ... de família, revelando que chegou a jogar futebol, na Seleção sub-19, como lateral esquerda. "Foi engraçado, mas é muito diferente, prefiro o futsal", diz.
"Há uma componente genética muito importante, de facto, pois do lado do meu pai muitos jogaram ou ainda jogam futebol", explica, sem destacar um nome bem conhecido. Um nome, não, alcunha, exatamente como acontece consigo. Falamos de Vítor Ferreira ou... Vitinha, médio do Paris Saint-Germain e da Seleção Nacional, seu primo direito.
"É uma pessoa low-profile. Acompanha-me e até esteve presente no meu primeiro Europeu aqui em Portugal. Falamos, trocamos opiniões. É jovem e tem muito para percorrer, ainda vai melhorar. Só tem 23 anos", atira.
Os elogios a Kika, a toda a Seleção e o sonho Mundial
Se Pisko já jogou futebol de forma oficial, Ana Catarina nunca o fez, mas gostava. Só que não seria à baliza. "É muito grande e eu pequena. Gostava de ser ponta de lança", diz, assegurando, apoiada por Pisko, que muitas das suas colegas seriam capazes de ser futebolistas. "Muitas de nós conseguiríamos", dizem, realçando até que, tecnicamente, não ficam atrás. "Reagimos mais depressa, o campo é mais pequeno, elas ganham na força", convergem, tal como nos elogios a Kika Nazareth. "Tem um dom", sublinha Ana Catarina que, tal como Pisko, acompanhou o Mundial de futebol feminino. "Foram coesas defensivamente, superaram as expectativas e se não fosse o poste com os Estados Unidos, tinham ido mais longe".
E por falar em Mundial, ambas sonham com o primeiro do futsal feminino. Está quase!