Catió Baldé: «O meu menino não merecia esta crueldade»

• Foto: Luís Manuel Neves

Catió Baldé considera que Rúben Semedo "caiu numa armadilha". O central do Villarreal está em prisão preventiva, acusado da prática de seis crimes, entre os quais tentativa de homicídio.

Numa carta aberta publicada no blogue ‘Ditadura de Consenso’, o empresário refere-se a Semedo como um ‘filho’ e traça o percurso do jogador desde as origens até à transferência milionária do Sporting para Espanha, no último defeso.

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Eis o testemunho emocionado de Baldé, na íntegra:

"Opinião: Rúben Semedo, meu filho

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Por: Catió Balde, agente de Rúben Semedo

Há momentos na vida que não desejamos aos nossos piores inimigos. Estou destroçado e muito triste.

Rúben Semedo, filho de pais cabo-verdianos, nascido em Portugal, produto concebido nos bairros de lata de Lisboa, Casal de Mira, Damaia e Amadora. Faço esta identificação porque muitos na comunidade guineense (amantes de futebol) associam o Rúben Semedo como guineense por ser representado pelo Catió Baldé.

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Entre 2007 e 2008, a Academia do Sporting, em Alcochete, era o viveiro dos maiores talentos de jovens futebolistas aspirantes a serem jogadores profissionais de futebol. Como colaborador externo da Academia, tinha acesso privilegiado e era visto como um parceiro válido no projeto do Sporting.

Tinha já nesse período, em Alcochete, entre 8 a 12 jogadores no regime de internato, e a maioria tinha vindo diretamente da Guiné-Bissau e para escalões diferentes. Os jogadores que tiveram logo um impacto tremendo foram o Antoninho, o Bruno Mendonça, o Bruma, o Amido Baldé, o Agostinho Cá e o Edgar Ié.

Aquando da chegada do Rúben Semedo ao Sporting (fruto da prospeção do clube de Alvalade), vindo do ‘Fófó’ (Futebol Benfica) e do Benfica, eu estava já a colaborar com o Sporting. Assisti e acompanhei de perto os primeiros passos do Rúben Semedo como jogador do Sporting, porque estava inserido no grupo de 1994 - considerado o melhor escalão, por albergar os maiores talentos do futuro. Bruma, João Mário, Eric Die e Mané; Esgaio, Tobias Figueiredo, Iuri Medeiros.

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Um dia, os diretores da Academia, professor Jean Paul, coordenador técnico, e José Torcato, diretor administrativo, convocaram-me para uma reunião (era hábito ter estas reuniões). Sentados na sala, propuseram-me a possibilidade de passar a fazer um acompanhamento ao Rúben Semedo.

A explicação foi simples. Este miúdo precisa de alguém que o acompanhe e aconselhe e ele não tem ninguém. Nenhum empresário, dos que aqui andavam e tinham o domínio sobre jogadores na Academia, ninguém pegou no Rúben Semedo.

O professor Jean Paul, o maior e melhor coordenador técnico da Academia, disse-me o seguinte: ‘Pega nesse jogador porque ele vai ser um jogador de topo. Esse vai chegar lá e vais ganhar dinheiro com ele.’ Pediu-me que procurasse a família do Rúben Semedo e assim fiz.

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Comecei a acompanhar a vida do Rúben Semedo e passei a olhar para ele como se fosse um menino descoberto no nosso Estádio Lino Correia, em Bissau. Há muitas histórias para contar mas prefiro guardá-las para minha memória futura.

A nossa caminhada foi longa e dura, o miúdo foi crescendo e tornou-se cada vez mais e melhor jogador. Foi queimando etapas e na realidade os prognósticos do professor Jean Paul tornaram-se realidade. 

Do Sporting ao Reus, na Espanha, V. Setúbal e Sporting forma-se um defesa de topo. Já não restavam dúvidas a ninguém de que estávamos perante aquele que podia vir a ser um dos maiores defesas centrais modernos. 

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Rúben Semedo foi vendido ao Villarreal, de Espanha, por 14.000.000 de euros pelo Sporting. O sonho de jogar em Espanha e no melhor campeonato do mundo tornou-se realidade. Mas o início da época no novo clube não foi o mais desejado. Problemas físicos e de adaptação estiveram na origem periclitante do atleta no novo clube.

O Rúben Semedo, como muitos jovens jogadores, estão expostos aos novos abutres que proliferam à volta deles. São assediados de todas as formas, por mulheres, frequentam discotecas e possuem carros luxuosos e potentes. Vestem as melhores marcas, vivem em sumptuosas vivendas e muito mais.

O Rúben Semedo infelizmente caiu numa dessas armadilhas, burlado por especialistas e experts na matéria. O meu menino e jogador não merecia esta crueldade de estar a contas com a justiça, privando-o de fazer o que mais gosta que é jogar à bola."

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Por Vítor Almeida Gonçalves
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