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O CASO dos passaportes falsos atinge em cheio o futebol francês, após algumas situações verificadas também em Itália e na Inglaterra, com destaque para o médio argentino Verón (Lazio) e o guarda-redes brasileiro Dida (Milan).
Mas é em França que tudo assume maiores proporções, com a Federação e a Liga a investigarem 78 futebolistas. É que não deixa de chamar atenção que, por exemplo, entre 23 jogadores com passaporte italiano, apenas quatro tenham nascido em Itália.
Todo este caso é simples de explicar e nem sempre estamos perante ilegalidades. Tudo começa por nos diversos campeonatos de países membros da União Europeia (UE), como Itália ou França, os limites para a inscrição de estrangeiros não poderem ser aplicados a cidadãos comunitários. Ou seja, um futebolista português, por exemplo, não conta como estrangeiro em Espanha, Itália ou França.
Ao mesmo tempo, existe a possibilidade de alguém que nasce fora de um país da UE adquirir a nacionalidade desse país. É o que sucede com os filhos ou netos dos emigrantes portugueses a residir no Brasil.
Assim, é perfeitamente legal que um futebolista brasileiro com um avô português solicite um passaporte do nosso país e seja tratado como português na Europa. O problema surge quando são falsificados passaportes, por não haver direito a solicitar um ou apenas por ser mais rápido. O segundo caso ocorreu com Jorginho, ao transferir-se do Corinthians para o Arsenal.
Saint-Étienne sob suspeita
O principal alvo das investigações em França é o histórico Saint-Étienne, cujos avançados brasileiros Alex e Aloísio deverão ter passaportes portugueses falsos, enquanto o guarda-redes ucraniano Levytsky tem um documento grego duvidoso (terá casado com uma cidadã grega).
E tudo começou a 2 de Dezembro, quando o Saint-Étienne recebeu o Toulouse, em jogo já da segunda volta do campeonato, e os dirigentes visitantes repararam em algo: Alex, que no primeiro jogo era indicado como português, surgia agora como brasileiro, enquanto Levytsky passara de russo a grego.
O Toulouse suspeitou e pediu uma investigação à Liga, não sendo estranho a isto o facto de Robert Nouzaret, técnico dos ”verdes” na primeira volta, ser agora treinador do... Toulouse.
O próprio Nouzaret, despedido do Saint-Étienne no fim de Setembro, já afirmou que para descobrir a verdade o melhor será falar com Gérard Soler, ”braço direito” do presidente do clube ”verde”, Alain Bompard.
Resta, agora, aguardar pela conclusão da investigação oficial e de eventuais sanções jurídicas e desportivas.
Alex faltou a audiência
O Saint-Étienne surge como o clube em piores condições em todo este caso de investigação de eventuais passaportes falsificados, até porque um dos jogadores sob suspeita é ”só” o melhor marcador da equipa e dos melhores da I Divisão francesa. Com efeito, o brasileiro Alex deverá ter um passaporte português falso.
Alex foi chamado a depor na Liga francesa, numa audiência prevista para a passada terça-feira, mas o brasileiro faltou e agora foi decidida outra data: 16 de Janeiro. Ou seja, terça-feira próxima.
Mas o outro avançado brasileiro dos ”verdes”, Aloísio, também está sob investigação. Curiosamente, Aloísio lesionou-se no final de Agosto, em Auxerre, e quando tentava regressar, num jogo de reservas, acabou por sofrer uma ruptura de ligamentos, sendo operado no dia 6 de Outubro último.
Em Dezembro, quando regressava do Brasil, onde tinha passado três semanas, teve um acolhimento bastante ”frio” em Saint-Étienne e até recebeu autorização (ou conselho...) para regressar ao seu país.
De acordo com o departamento médico, Aloísio deveria reiniciar os treinos em Abril, mas tudo indica que não voltará a jogar no Saint-Étienne, devendo ser emprestado a uma equipa do Brasil...
Por seu lado, o presidente do Saint-Étienne, Alain Bompard, já explicou que a contratação da dupla brasileira Alex-Aloísio tinha sido um excelente negócio desportivo, pois ”são dois jogadores muito bons, duas pérolas para nós.”
E quanto aos passaportes, Bompard recusa qualquer ligação do clube ao assunto: ”Nós não queríamos os passaportes, mas disseram-nos que os jogadores poderiam adquirir a nacionalidade de um país da União Europeia...”
Entretanto, o Saint-Étienne diz que não pode controlar o passaporte de Aloísio porque o jogador está no Brasil.
Levytsky detido para ir a tribunal
O guarda-redes ucraniano Maxim Levytsky (Saint-Étienne) também foi envolvido no caso dos passaportes falsos e chegou mesmo a ser detido na terça-feira, nos arredores de Paris, acabando por ser presente em tribunal ao juiz Nicolas Chareyre.
Suspeita-se que o seu actual passaporte grego seja uma mera falsificação, mas o magistrado francês optou por o colocar em liberdade, embora continuem as investigações, devendo ser ouvido o “empresário” de Levytsky, Konstantin Sarsaniya.
Já no exterior do tribunal, o guardião ucraniano, contratado pelo Saint-Étienne no início da temporada, revelou-se “satisfeito e feliz por ter sido posto em liberdade.” Levytsky afirmou também ter sido um momento difícil, mas estar pronto para voltar a prestar declarações.
Entretanto, rumou para Israel, a fim de se juntar ao estágio de pré-época do Spartak Moscovo, clube ao qual foi emprestado pelo Saint-Étienne.
Note-se que a detenção de Levytsky foi criticada por diversos sectores da sociedade francesa, incluindo a comunicação social, ao mesmo tempo que se reconhece que o caso dos passaportes assume maior relevância, ao passar para as mãos da justiça.