MÁRIO JARDEL "regressou" ao Porto. Uma curta escala, acrescente-se, até ao destino final, o Galatasaray, na Turquia. Porém, depois de uns largos dias à "torreira" na praia do Futuro, na sua cidade natal - Fortaleza - Jardel ainda tem coisas a tratar na SAD portista, como seja, por exemplo, a rescisão do seu vínculo aos dragões e, claro, o "empacotar" dos seus pertences, ainda na sua casa na cidade Invicta, coisas que o acompanharão nesta "aventura" turca.
Pouco passava das 13 horas quando o “airbus” da TAP, vindo de S. Paulo, tocou a pista do Aeroporto Sá Carneiro, mas só uma hora depois é que o casal Jardel surgiu no exterior da aerogare, empurrando vários "carrinhos" cheios de sacos e malas. Óbvio que Jardel já não regressará tão cedo ao seu Brasil e, por isso mesmo, a bagagem é farta.
Visivelmente cansado - "dez horas de viagem, mesmo dormindo um pouco, dá cabo do corpo da gente!" - não deixou, porém, de satisfazer o convite para almoçar, do seu "amigão" Artur, no restaurante Merendola, em pleno coração da cidade da Maia. Depois...a entrevista, a conversa que andou de tema em tema, desde os seus tempos - idos - nas Antas, até ao que o espera - e dele esperam - em terras turcas, numa nova etapa na vida de um futebolista, numa nova etapa na vida de um goleador.
"Um jogador de futebol, quando abraça esta profissão, tem de estar preparado para estas coisas e não pode prender-se muito aos locais onde está, porque, de um momento para o outro, surge outra "rota" na sua vida. Foi o meu caso. Quando isto acontece é um bom sinal, melhor, é a prova que o trabalho desenvolvido até aí foi positivo e chamou à atenção de outras pessoas, de outros clubes. Quando falámos, em Fortaleza, não menti; na altura não tinha nenhuma proposta concreta sobre a mesa. Depois, sim, recebi um telefonema do Tafarel e ele me deu conta do interesse do Galatasaray e das muitas possibilidades existentes em poder envergar a camisola daquele clube. No entanto, faltava a proposta dos dirigentes turcos, em pagar a minha cláusula de rescisão e, também, eu poder ver, in loco, as condições que o clube me oferecia. Foi tudo fácil e rápido. Aconteceu a saída do FC Porto, com a mesma naturalidade com que foi a minha entrada. No futebol é assim, nunca se poderá dizer que "nada vai acontecer". Agora só espero ter a mesma sorte na Turquia que tive nas Antas. Tenho a certeza, se Deus quiser, que vai correr tudo bem como correu aqui."
- A Turquia encantou-o?
- Muito. Não só a mim como a toda a minha família. Estou muito feliz por isso e, claro, com a mesmíssima vontade de mostrar que os esforços feitos para a minha contratação não foram em vão.
- O que mais lhe tocou neste primeiro contacto com a nova "morada"?
- Muitos aspectos marcaram a minha estada, mas aquilo que mais me impressionou foi a maneira como os dirigentes do Galatasaray me trataram.
- Como assim?
- Fui tratado como se fosse um rei. Tal e qual. E na hora de assinar o contrato deram-me quase tudo o que queria. Foi uma coisa impressionante e óptima para mim. Nestas coisas a primeira impressão é fundamental e aquela que eu trouxe de Istambul foi magnifica. Que dizer mais?
- Deu para "medir" o entusiasmo dos sócios?
- Deu. E a impressão com que fiquei foi a de que são muito mais fanáticos pelo futebol do que os portugueses. Estádios cheios, a obrigação de ganhar sempre. Eu gosto disso. Adoro conviver com a emoção.
"PREPARADO PARA AS EMERGÊNCIAS"
Já se disse que Porto é passado. Páginas de um diário já escritas, com muitas alegrias pelo meio. O futuro é que é incógnita. Saberá Mário Jardel o que esperam dele? O que lhe será "exigido"?
"Claro que sei: que jogue bem e marque muitos golos. Mas isso é normal num jogador como eu que foi o melhor marcador do futebol europeu. Não poderia pensar outra coisa. No futebol não há "cunhas", ninguém pode fazer por ti aquilo que tu mesmo tens de fazer. Se me contrataram por ter sido o melhor goleador, é lógico que estejam à espera que continue a marcar golos."
- Preparado para isso?
- Preparado para tudo na vida. Mais ainda para fazer golos que, graças a Deus, é uma coisa que sei fazer.
"UMA PROJECÇÃO DIFERENTE"
Para já...a "supertaça europeia", com o Real Madrid como adversário de peso, a 25 de Agosto em terras monegascas. Um Real que, curiosamente, Jardel, com a camisola do FC Porto, defrontou em Chamartin e onde "facturou"; depois, a Champions League. Mais "montras", outra motivação?
"A motivação é a mesma, mas de facto há mais "montras". Uma projecção diferente. E foram esses aspectos que fizeram com que fosse para o Galatasaray! Esses e outros, naturalmente. Aqueles que eu sempre disse poderiam fazer com que saísse do FC Porto: boas condições para o FC Porto e para mim."
- Que conhece do futebol turco?
- Não conheço muito, é verdade, mas o futebol é um idioma que não tem muitas diferenças de país para país. Pode variar o estilo, mas o essencial é igual. Por isso, não estou muito preocupado com o desconhecimento que possa ter neste momento.
- Já imaginou vir jogar às Antas?
- Sim. Se um dia vier jogar às Antas, fá-lo-ei com um prazer enorme. Deixei muitos amigos aqui e penso que não irá haver qualquer problema. Sou um profissional, acima de tudo, e se tiver de jogar contra o meu antigo clube - tal como aconteceu com o Zahovic -, virei com o maior respeito e tentarei cumprir o meu papel. Claro que tenho a certeza que alguns adeptos me irão vaiar e, outros, aplaudir. É o futebol. Portugal e o FC Porto foram muito importantes na minha carreira. Era conhecido no Brasil antes de vir e, hoje, sou conhecido no Brasil, no mundo inteiro, graças ao que fiz no FC Porto. Espero que essa projecção não pare no Galatasaray.
- De quem leva mais saudades?
-Do grupo, do plantel. Há jogadores que marcam mais, fundamentalmente aqueles que davam assistências para o Jardel.
- Quem marcou mais?
- Sei lá...o Drulovic, Aloísio, Capucho, Rubens Júnior, Clayton, enfim, os tais jogadores que estiveram ligados aos êxitos do Jardel.
- Consciente que poderá sentir essa falta?
- Não. A partir do momento em que me desliguei do FC Porto, não tenho de estar a pensar que irei sentir a falta de quem quer que seja. Tenho, sim, que pensar nos jogadores que o Galatasaray irá ter para me servir. Mais nada.
- Acabaram as férias. A pré-época vai arrancar. Apesar de tudo, mais de um mês de descanso poderá ter dado uns quilos a mais.
- Nada disso. Jogava futebol duas ou três vezes por semana, no durinho, em peladinhas sempre muito disputadas e isso foi importante para manter a forma física. De certeza que não vou estranhar nada e não irei ressentir-me destes 10 dias a mais de férias que gozei este ano. Souberam muito bem.
"NÃO ACREDITO QUE DRULOVIC SAIA"
Já se vai dizendo à "boca pequena" que Drulovic poderá seguir as pisadas de Jardel. No último ano de contrato com o FC Porto, é bem possível que o acordo não seja difícil. Foi por isso que Jardel o indicou aos dirigentes do Galatasaray ou...essa indicação teve muito a ver com o estilo de jogo de "Drulo", bem ao jeitinho do Mário?
"É um jogador com quem me entendo muito bem, é verdade. Deixei essa indicação ao presidente e ao vice-presidente, julgo que têm, também, uma cassete vídeo, mas... não sei mais nada. Vamos ver o que o tempo dirá. No entanto, não escondo que não acredito muito que o FC Porto o deixe sair."
- Não acredita?
- Não. É muito simples: o Drulovic faz em campo o que muitos jogadores não conseguem fazer. E isso está provado ao longo das épocas em que ele esteve na equipa.
- Então porque o indicou ?
- Isso é outra coisa. Porque gostava que ele estivesse na minha equipa, naturalmente. Sei como ele joga, ele sabe como eu jogo e o entendimento mútuo iria contribuir para um rendimento maior em menor tempo.
"UM JOGADOR NÃO FAZ UMA EQUIPA"
Recordações do FC Porto, do futebol português. No fundo, o "berço" onde conheceu a fama, a glória, títulos e despertou a cobiça de outras equipas.
"As melhores recordações possíveis. Nunca me deixou faltar nada. Da mesma forma, dei o meu máximo, produzi o que tinha que produzir, ajudei a equipa a atingir metas importantes e, por isso, saio de consciência tranquila, de bem com todos e com muitos amigos feitos nesta cidade. Isso é sempre uma coisa importante e um sinal de que cumprimos as nossas obrigações profissionais. Aliás, por tudo isto é que o FC Porto fez um bom negócio, vendeu um bom jogador, mas recebeu a compensação económica disso."
- As contas estão saldadas?
- Ambas as partes cumpriram as suas obrigações.
- Por aí, sim, mas julgo que o FC Porto se tivesse, antes, subido a cláusula de rescisão, poderia ter recebido mais. Mas isso são coisas que acontecem no futebol.
- Em contrapartida, a sua substituição está a tornar-se complicada.
- Não penso assim. Já viu bem os grandes jogadores que estiveram no FC Porto e saíram? O Gomes, o Madjer, o Oliveira. E não saíram? E o FC Porto deixou de continuar a ser uma grande equipa? Claro que não. Comigo vai passar-se a mesma coisa. Não é um jogador que faz uma equipa. Na época passada, estava cá eu e não fomos campeões. Oxalá o sejam esta época. Aliás, o FC Porto sempre faz boas contratações e, de certeza, desta vez não será diferente. Só desejo felicidades ao jogador que vier, que continue a manter a mesma produção que o Jardel tinha, muito embora reconheça que vai ter algumas responsabilidades!
MESA 16
No restaurante Merendola - propriedade do grande amigo de Jardel, Artur Oliveira - o almoço de terça-feira acabou em "baptizado de uma mesa". Exactamente aquela onde o casal Jardel costumava ter reservada sempre que ia jantar. Era a nº 28, ficou a 16. Em honra ao Mário.
ABRAÇOS E CRÍTICAS
Um ídolo está sempre sujeito às custas da sua popularidade. E Mário Jardel, na Invicta, é (era) rei. À saída do aeroporto, enquanto uns corriam a abraçá-lo, outros não o poupavam com os comentários do costume :"ainda te vais arrepender! Daqui a 3 meses estás de volta!"
KAREN E AS MOBÍLIAS
O casal Jardel parte quinta-feira para a Turquia. Enquanto o goleador vai integrar o estágio da pré-temporada, Karen tem outra missão a cumprir: escolher os móveis para decorar a vivenda - de 4 pisos e com elevador interno. A seu gosto! Com uma particularidade: terá tudo que quiser.
BOAS VISTAS
Já que falámos na casa que Jardel irá ocupar em Istambul, poderemos dizer, também, que a paisagem que se desfruta do terraço é, nem mais nem menos, do que o campo de treinos do Galatasaray. O que quer dizer que a distância poderá ser galgada de bicicleta. É o que Jardel promete.
TELEMÓVEIS JÁ ENTREGUES
Há coisas - segundo Mário Jardel - que os turcos não facilitam: antes de prometerem dar, dão. Logo ali, no acto de falar nas coisas. Por isso, quando Jardel perguntou como eram os telemóveis por aquelas paragens, não tardou que lhe colocassem dois nas mãos. Tal e qual.
BAGAGEM DE CAMIONETA
Pois: as muitas malas e outros utensílios que Karen não prescinde, seguirão para a Turquia por via terrestre, numa camioneta à medida da carga. Que é muita, diz Jardel. E para que não haja qualquer problema na fronteira, vai tudo registado de Portugal como coisas pessoais, usadas.