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TRAZ estampada no rosto a emoção de quem vai enfrentar a mais apetecida etapa da sua carreira e a felicidade de quem deu ao atribulado romance um final feliz. Mas Rui Costa transporta ainda a expectativa de uma ilusão e o peso de enorme responsabilidade: chegar como herói a uma das grandes potências do futebol mundial. Ele que passou a ser um dos jogadores mais bem pagos do Mundo conta, em longa entrevista a Record, todos os passos que o levaram até ao clube de Silvio Berlusconi.
– Que expectativa transporta para Milão, para S. Siro e para
o Milan?
– A maior expectativa é a de conseguir ao serviço de uma grande equipa do futebol europeu aquilo que, infelizmente, não me foi possível conquistar em Florença: ganhar títulos e obter uma projecção ainda maior em termos pessoais. Mas não posso neste momento ser injusto com a Fiorentina, porque só eu sei o que sinto só de pensar na despedida...
Sacchi e Van Basten
– O que representa o Milan na sua adolescência? Que espaço ocupa na sua memória?
– O Milan de Sacchi foi a melhor equipa que eu vi jogar em miúdo e se calhar em toda a minha vida, enquanto Van Basten foi o meu grande ídolo, a par de Gullit e Rijkaard. Por isso, tenho laços muito grandes com o clube, que era o meu favorito em termos internacionais. Nesse capítulo é daquelas coisas que não têm explicação.
– Essa paixão antiga teve alguma importância na opção final, sabendo-se que havia mais concorrentes?
– Não teria lógica que fosse a razão principal, como é evidente.
Estamos a falar da vida de uma família inteira e de uma carreira que é a minha; por isso optei em consciência, racionalmente, por aquela que me pareceu ser a proposta mais segura, aquela
que melhor correspondia aos ideais e às ilusões de quem estava a sair de um clube como a Fiorentina. Isto apesar de ter havido algumas razões sentimentais que vão para lá da infância e da adolescência...
– Como por exemplo?
– Nos sete anos que levo de Florença, o Milan foi sempre o clube mais interessado na minha contratação. Foram imensos os contactos entre os dirigentes dos clubes, que esbarravam sistematicamente na barreira que era a resposta quase definitiva: "Rui Costa é inegociável." Sempre soube da admiração das maiores figuras do Milan, primeiro em contactos privados, quase em confidência, mas a partir de certa altura em declarações públicas diversas. Dito de outra forma, as coisas colocavam-se deste modo: quando saísse da Fiorentina era esse o destino que me parecia mais lógico.
Palavras de Schevchenko
– Essas palavras não vieram só de dirigentes, o próprio Schevchenko não se cansou de o elogiar. Antes de saber que iam ser companheiros já o considerava o melhor do Mundo...
– Fiquei muito orgulhoso com essas declarações feitas no início
do ano e muito feliz por saber que uma das maiores figuras do
clube neste momento usou toda a sua influência junto dos responsáveis no sentido de me ter como companheiro. Espero poder ajudá-los a todos a serem mais felizes.
– Voltando um pouco atrás, e sem querer entrar em pormenores, esta não foi a melhor opção do ponto de vista financeiro, pelo menos a julgar pelas suas declarações. Sendo assim, é legítimo perguntar: a decisão estava tomada à partida?
– Percebo onde quer chegar e posso responder desta forma: desde o início – e aqui o início é o momento em que a Fiorentina me colocou no mercado – que, mediante a satisfação de determinadas exigências contratuais, a minha preferência era o Milan. Mas não era uma obsessão e a prova é que ouvi todas as propostas e no meio do processo até estive inclinado a aceitar algumas que não eram as mais desejadas por mim.
Sempre o Milan
– Calculo que os seus representantes sabiam dessa inclinação
por um dos competidores...
– Evidentemente que sim. Todos os contactos que mantivemos foram pelo telefone, com toda a carga emocional inerente ao facto de estar longe do processo. Eles falavam com os dirigentes dos clubes e depois telefonavam-me lá de longe a fazer o ponto da situação. Um dia recebi a informação de que para resolver os seus problemas financeiros a Fiorentina tinha transaccionado o meu passe para o Parma, isto apesar de ter ficado sempre claro que seria minha a última palavra.
– O Milan esteve conivente com esse empurrão da Fiorentina (chamemo-lhe assim) para Parma?
– Talvez e digo-o apenas porque de repente saiu de cena e não
disse mais uma palavra, a não ser que o orçamento para a próxima época já tinha sido ultrapassado com a contratação de Inzaghi e que não tinha verba para satisfazer todas as exigências do negócio. Foi quando surgiu o Real Madrid. Nessa altura, porque a Lazio estava em dificuldades e o Milan não tinha condições, admiti como provável que a escolha ficaria reduzida a Real e Parma.
A força de Berlusconi
– Qual era o seu estado de espírito nessa altura?
– Continuava na expectativa, feliz porque podia escolher entre
duas grandes equipas, mas dorido pelo facto de o meu preferido
ter desistido. Na 2ª feira (dia 2 de Julho), os meus representantes deram-me nova esperança: o Milan ia fazer uma última tentativa para desbloquear a verba necessária.
– Isso um dia depois de o presidente do Parma se ter deslocado ao Algarve...
– Precisamente. O Real já tinha feito a sua proposta à Fiorentina e a do Parma continuava a ter validade. A Lazio era um objectivo cada vez mais distante e o Milan devolvia-me a esperança. Nesses dois dias, 2ª e 3ª feira, fui recebendo notícias contraditórias. Ao fim da tarde de 3ª feira, tive a informação de que não tinha sido possível chegar a acordo com o Milan e comecei a pensar mais seriamente ainda nas outras ofertas.
– Quando teve conhecimento do desenlace?
– Já era quase meia-noite quando recebi o último contacto a dizer-me que estava tudo acertado por intervenção directa do presidente Berlusconi, que só entrou pessoalmente no processo quando estava próximo de abortar. Contaram-me depois que o seu raciocínio tinha pontos de contacto com o meu: ao longo de sete anos de declarações de um amor platónico era cruel para ambas as partes que por qualquer
motivo não pudéssemos concretizar a união no momento em que ela era possível.
– E agora?
– Agora vou ser o número 10 de uma das maiores potências do futebol mundial e transporto comigo a ilusão de conseguir no Milan as vitórias que faltam ao meu currículo. Espero ao mesmo tempo ser tão feliz em termos pessoais como fui em Florença.
– Está preparado para assumir esse desafio e resistir a essa
pressão?
– Acredito que sim. Quem jogou sete anos na Fiorentina, clube
único de uma cidade apaixonada pelo futebol, está preparado para enfrentar todos os obstáculos e todos os riscos.
– Mesmo com o rótulo de um dos jogadores mais bem pagos do Mundo e de espécie de salvador da pátria...
– Isso é apenas um motivo de orgulho muito grande para uma pessoa que, como eu, nunca negou as suas origens. Mas não me sinto pressionado nem por ganhar muito ou muitíssimo dinheiro, nem pela responsabilidade que pode pesar sobre os meus ombros.
"Terim foi importante mas não foi decisivo"
"O facto de Terim ser o futuro treinador do Milan foi importante
mas não foi decisivo. Dito de outra maneira: gostei de saber que ia encontrar uma pessoa que estimo e um profissional que
admiro. Mas iria para lá com ou sem ele como responsável técnico, apesar de poder ser importante ajuda até na ambientação ao clube."
"Acredito que fiz melhor época de sempre"
"A temporada 2000/01 foi inesquecível, até pelo reconhecimento
exterior que recebi, com prémios sucessivos e elogios vindos
de todos os lados. Com a saída de ''Bati'' tornei-me a referência
máxima da Fiorentina, o que me deu também mais prestígio. Acredito que fiz a minha melhor época de sempre."
"Expectativas para 2002 são muito elevadas"
"Analisando as coisas, acho que as expectativas para 2001/02
são muito elevadas. Creio que pode ser uma grande época, a começar pela transferência para o Milan, prosseguindo numa temporada que espero seja marcada por êxitos e espero terminar no Mundial, com uma campanha de ouro. O melhor ainda pode estar para vir."
"Nem me quero lembrar da Taça de Itália perdida"
"Momentos menos bons destes sete anos? Olhe, nem me quero lembrar da Taça de Itália perdida em 1998/99, para o Parma. Foi muito difícil deixar fugir esse troféu, mais ainda pelo facto de estar num clube pouco habituado a grandes cometimentos e de a derrota ter sido consumada no nosso estádio."
"Gostava de jogar mais nas provas europeias"
"Uma das pechas mais importantes no meu currículo, para além
da notória ausência de títulos, é a pouca participação nas competições da UEFA. Gostava de jogar mais nas provas europeias, palco sempre interessante e que pisei pouco ao longo destes anos. Espero recuperar agora o tempo perdido."
"Continua atravessada expulsão com Barcelona"
"Nas meias-finais da Taça das Taças, em Florença, com o Barcelona, fui expulso depois de o jogo terminar. E esse momento continua-me atravessado... Cumpri três jogos dois anos depois e regressei com o Grasshopper, em Salerno. Por comportamento incorrecto do público fomos eliminados. É preciso ter azar..."
"Há duas épocas pensei que podíamos ser campeões"
"O título italiano foi normalmente uma miragem para nós, apesar
de termos estado algumas vezes bem colocados para o atacar. Com uma excepção: há duas épocas pensei que podíamos ser campeões. Com Trapattoni estivemos 22 jornadas à frente, chegámos a ter boa vantagem e fomos ameaça a ter em conta."
"Saída de Batistuta já foi sinal da crise"
"Sabia que a Fiorentina nunca permitiria que ''Bati'' e eu partíssemos ao mesmo tempo. Mas a saída de Batistuta o ano passado já foi sinal de crise, claro para nós, camuflado para o exterior. Não era situação dramática, mas o clube já vivia com dificuldades, atenuadas pelo encaixe financeiro do negócio com a Roma."
"Gostei da experiência de ser capitão de equipa"
"Desde a primeira hora que entendi o facto de ser capitão de
equipa como um factor acrescido de responsabilidade. Gostei da experiência e acho até que me saí bem no desempenho do cargo, ainda por cima numa temporada complicadíssima para a vida da Fiorentina. Modéstia à parte, acho até que exerci bem a função."
"Há muito que o Benfica não se reforçava tão bem"
"Como adepto assumido, direi que há muito tempo que não via o Benfica reforçar-se tão bem, com tanto critério e com tão bons jogadores. Mas destaco sobretudo o critério, isto é, percebe-se que em cada contratação está subjacente uma ideia global da equipa em termos estratégicos. Também por aqui estou confiante..."
"Foi muito importante o título do Boavista"
"O título do Boavista foi muito importante para o crescimento
da modalidade no nosso país e atenção que até para mim que estou longe há sete anos não me apanhou desprevenido. Cheguei até a prevê-lo nas colunas deste jornal a meio da época. Tudo isto um sério aviso aos habitualmente considerados três grandes."
"Fiorentina pode ser exemplo a ter em conta"
"Prosseguindo o raciocínio em relação ao Boavista, a Fiorentina
pode funcionar como exemplo a ter em conta: tinha um dos melhores guarda-redes do Mundo (Toldo), o ponta-de-lança da década (Batistuta), um médio que interessava às grandes equipas (eu) e nunca foi nem campeão nem ganhou uma prova europeia."
"Não me sinto pressionado"
Florença chora a partida daquele que é considerado o seu último ídolo. Rui Costa vive feliz pelo cumprimento do sonho de jogar no Milan mas não consegue evitar a menor firmeza nas convicções quando fala da casa que foi sua ao longo de sete anos. Apesar de tudo, não sai indignamente (como Antognoni), nem como traidor (como Baggio), nem sob suspeita de falta de respeito pelo clube (como Batistuta). Sobre o assunto tem ideias muito claras:
– Parto com mágoa e compreendo o sentimento generalizado de tristeza que assalta a cidade. Mas a minha partida significou a salvação económica do clube – se não fizesse o encaixe da minha transferência naquele dia a Fiorentina não se podia inscrever no campeonato da próxima época. Percebo o desgosto das pessoas, apesar de ter sido também por elas que aceitei partir.
– Está confirmado de que não havia outra solução?
– Olhe, a Fiorentina pode agradecer a sorte que teve em todo
este processo. Se não fizesse este encaixe não se inscrevia no
campeonato; se não se inscrevesse teria de declarar falência e uma semana depois os jogadores ficavam no mercado a custo zero. Tudo o que se passou foi a prova da dignidade dos outros clubes que não quiseram aproveitar a desgraça alheia.
– Curiosamente, sai num defeso para o qual partiu resignado à
inevitabilidade de ficar...
– Apesar do interesse de Milan e Lazio, estava conformado a apresentar-me no dia 14 de Julho em Florença. A época tinha corrido bem, ganhámos a Taça, os dirigentes não mudavam o discurso... Digo-lhe mais: vim de férias com um pré-acordo para prolongar o contrato. De repente passei de único inegociável a potencial negócio para salvar o clube.
– Não acha que seria um crime passar a vida inteira na Fiorentina?
– O mais importante do que está implícito na sua pergunta é o
orgulho que sinto em perceber que no meu País não estavam satisfeitos por eu representar um clube que não ganha tantas vezes como outros. Mas acho que se desvalorizou um pouco a Fiorentina: não é a melhor equipa italiana mas também não é das piores. Em sete anos ganhámos duas Taças de Itália, uma Supertaça, ficámos duas vezes em 3º lugar... Neste período, para além de Juventus, Milan e mais recentemente Lazio e Roma, não houve muitos a conseguir melhor.
– Tudo bem, mas o seu desejo de sair, a partir de certa altura,
foi quase uma constante anual...
– Quando me falavam de propostas do outro mundo, gostava pelo menos de ter uma palavra a dizer e que me foi sempre negada. De qualquer modo, são águas passadas. No capítulo humano dificilmente viveria noutro lugar tantas emoções como as que aquela cidade me proporcionou. Aliás, alguns amigos meus que defendiam a ideia de não ser a Fiorentina um clube à minha altura, passavam uns dias em Florença e no regresso a casa não tinham dúvidas em dizer-me para nunca mais sair dali. Só espero ser em Milão tão feliz como fui nestes sete anos.
"Não foi preciso ouvir última palavra da Lazio"
Em todo o processo da transferência, a Lazio deu a ideia de estar a correr por fora, apesar de ter entrado na corrida até antes de tempo:
– A Lazio manifestou interesse em me contratar antes de desencadear a crise da Fiorentina. Falei pessoalmente com alguns dirigentes, presidente Cragnotti incluído, e pareceram dispostos a ir até ao fim. Aconteceu que o meu caso ficou bloqueado pela dificuldade do clube em concluir algumas vendas. E como o tempo também passou a ser importante acabaram por ficar pelo caminho. De qualquer forma, tinha até já alinhavado algumas plataformas de entendimento para um futuro acordo. A prova de que esse contacto era sólido e muito interessante para mim é que estava agendada uma reunião para o dia seguinte, em Roma, no caso de não acertar com o Milan naquela noite. A verdade é que não foi preciso ouvir a última palavra da Lazio.
"Colaborar com ´Record´ foi agradável experiência"
Durante toda a época futebolística de 2000/01, Rui Costa assinou uma coluna semanal em Record, na sequência do diário Euro-2000 feito também nas nossas colunas, da qual guarda óptima memória:
– Colaborar com o Record foi uma grande e agradável experiência que me permitiu durante todas as semanas comunicar com as pessoas no meu País, abrangendo vasta gama de temas, muitos relacionados com a minha carreira. Partilhar esse contacto foi um privilégio que serviu para encurtar distâncias. Digamos que fui dando notícias e expressando opiniões num contexto que fugiu aos moldes mais tradicionais, ou seja, à entrevista formal. Já tinha gostado de o fazer no Europeu, apesar de aí ser uma espécie de diário, mas confesso que gostei mais ainda de assinar essa coluna semanal. Já agora, devo dizer que tive sempre um eco indiscutível e agradável do que escrevia. Para me darem os parabéns por certas crónicas e até para sugerirem alguns temas que devia abordar no futuro.
"O Real apresentou-me cenário técnico e táctico"
Parece claro que a ofensiva do Real Madrid para contratar Rui
Costa nasceu no casamento de Luís Figo, por acção directa do
seu presidente, Florentino Pérez, e sobretudo do director-geral,
Jorge Valdano. Mas o que aconteceu de facto nessa tarde? A resposta de Rui Costa:
– Ao longo desse dia foi feito um contacto pessoal para manifestar claramente o interesse do clube na minha contratação. Falei muito com Valdano, que me elucidou com enorme clareza quais as intenções do Real e para que me queria.
– Já havia um enquadramento técnico para si no Real Madrid?
– O Real apresentou-me cenário técnico e até táctico. Foi isso
que Valdano me explicou, insisto, com muita clareza – e nem sequer vou dar mais pormenores da conversa. Direi apenas que, segundo as suas palavras, o interesse na minha aquisição tinha apenas a ver com o jogador Rui Costa e não com os negócios de alargamento de mercado.
– A que razão atribui o fracasso das negociações?
– Há um motivo importante e que tem a ver com os valores mais
baixos da proposta do Real quer à Fiorentina quer a mim próprio, comparando com a dos outros concorrentes. No meu caso esse não era um factor determinante; para mim a diferença mais significativa tinha a ver com a duração do contrato, porque todos os italianos me ofereciam cinco anos e o Real só propunha quatro.
– Se tiver de apresentar uma razão que explique por que motivo
não foi para Madrid qual será?
– O que me levou a não ir para Espanha foi o facto de o clube
ao qual dei prioridade ter satisfeito entretanto todas as condições exigidas e de me permitir continuar em Itália para prosseguir a carreira ao mais alto nível – com tudo o que isso implica em termos de estabilidade familiar.
– Que papel desempenhou Luís Figo em todo esse processo?
– Eu e o Luís crescemos juntos, somos amigos há muitos anos e sempre nos entendemos muitíssimo bem dentro e fora do futebol. Por isso não lhe agradeço a amizade mas o que fez para que fôssemos companheiros de equipa. Ambos ficámos tristes por isso não suceder, mas agora está feito. De resto falámos logo a seguir a ter tomado a decisão e recebi do Luís uma grande demonstração de amizade, como seria de esperar.
– Atribuiu alguma importância às declarações um pouco deselegantes do presidente do Real Madrid quando tomou a decisão final?
– De forma alguma. Não dei saltos de contentamento, é verdade, percebi apenas que tinha ficado desiludido. O mais importante foi optar em função da minha consciência (eu preferia o Milan) e dos interesses da minha família, tendo em conta um ideal comum de felicidade (era importante não sair de Itália). Acho que o presidente tinha de dizer alguma coisa e em vez de reconhecer a força do contra-ataque fatal ou de não ter querido chegar aos números estabelecidos preferiu desvalorizar a ideia generalizada de perda.
"Pensar na despedida já me causa arrepios"
Na próxima sexta-feira, Florença em peso vai deslocar-se ao Artemio Franchi com um único objectivo: despedir-se de Rui Costa. Espera-se casa cheia e um clima de enorme tensão, que o jogador português já está, de resto, a projectar:
– Foi uma iniciativa do presidente da Câmara de Florença e dos
adeptos da Fiorentina organizar uma forma de a cidade se despedir de mim. Contactaram-me para saber qual a minha disponibilidade e eu respondi afirmativamente. A forma mais simples e ao mesmo tempo mais significativa seria fazê-lo no estádio, pelo que as portas do Artemio Franchi se vão abrir apenas com esse objectivo. Pensar numa despedida assim já me causa arrepios. Não sei como vou reagir a esse momento.
"Tanzi ficou a saber qual a minha inclinação"
O Parma entra nesta história como grande impulsionador: foi o
primeiro a apresentar proposta concreta à Fiorentina e quando se tratou de fazer um contacto pessoal com o jogador, o seu presidente, Stefano Tanzi, meteu-se num avião e veio até Vilamoura no primeiro dia de Julho. Rui Costa conta o que se passou nesse encontro:
– Ao perceber a minha relutância em aceitar de imediato a sua
proposta, o Parma procurou antecipar os tempos dos outros interessados e veio ao Algarve. O clube foi de uma correcção extraordinária – peço desde já desculpa porque vou dizer isto muitas vezes nesta entrevista – e tentou cativar-me para o seu projecto.
– Qual foi a sua resposta?
– Agradeci o interesse e a atenção, e pedi dois dias para pensar, o que foi entendido absolutamente legítimo e normal.
– Tudo isso na esperança de que o Milan e a Lazio regressassem à luta...
– Gostava de ter uma resposta definitiva sobretudo do Milan.
Mas não nos podemos esquecer de que esse encontro sucedeu no dia seguinte ao casamento do Luís, isto é, quando o Real já estava na corrida.
– Com que espírito o presidente do Parma terá regressado a casa?
– Tivemos uma conversa muito franca. Procurei (e penso ter conseguido) ser tão correcto com ele como ele foi comigo.
– Isso passou por revelar a sua tendência na altura?
– Tanzi ficou a saber qual a minha inclinação e que talvez a
escolha final fosse outra. De resto, a correcção foi tanta que mal cheguei a acordo com o Milan a primeira coisa que fiz foi telefonar ao presidente do Parma a dar-lhe conta da minha decisão. Mantendo a elegância até final, do outro lado da linha ouvi Tanzi dizer para estar tranquilo, que compreendia a minha opção. O Parma portou-se com grande dignidade e esteve quase a convencer-me. Esse é o melhor elogio a fazer ao comportamento dos seus responsáveis.
– Mas este processo do Parma nasceu torto...
– Não por culpa do Parma, mas por culpa da Fiorentina. Melhor:
pelo desespero em que a Fiorentina estava. O meu ex-clube estava à beira da rotura, definiu valores a partir dos quais aceitava negociar e disse que sim à primeira proposta; nesse momento meteu o meu contrato na Liga como se fosse válido e agiu como se eu já fosse jogador do Parma. Apesar da minha compreensão, isso chocou-me um bocado, mesmo sabendo desde logo que a última palavra no negócio me cabia.
– No meio de tudo isto a Fiorentina teve muita sorte...
– Pois teve, porque contou com a boa vontade dos outros clubes, que mesmo conhecedores das dificuldades "viola" cumpriram os valores previamente definidos. Ao contrário do Real Madrid, cuja proposta foi claramente inferior.
– Em termos financeiros era do Parma a melhor proposta para si?
– Sem dúvida. Prova de que não foi o dinheiro que me fez decidir pelo Milan.
"Nuno Gomes vai ser dos melhores do Mundo"
Pela primeira vez em sete anos, Rui Costa teve um compatriota
a seu lado, no caso Nuno Gomes, o ponta-de-lança revelação do Euro-2000. Na hora da separação, o registo de palavras que relevam a sua admiração pelo companheiro:
– Em primeiro lugar, desejo ao Nuno tudo de bom para o futuro,
na esperança até de um dia nos podermos voltar a cruzar para
além da selecção. Foi um enorme prazer em tê-lo como companheiro de equipa e volto a dizer hoje o que disse na altura: não foi justo o que lhe aconteceu em determinada fase da época, quando o relegaram para o banco e tudo fizeram no sentido de negociar a sua saída. Sobretudo por isso fiquei feliz com o golo decisivo na final da Taça, tanto como se tivesse sido eu a marcá-lo. O Nuno revelou grande capacidade e talento para, a breve prazo, ser um dos melhores pontas-de-lança do Mundo.