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Paris – O descalabro de uma derrota desta dimensão deve atormentar a consciência de muita gente e não apenas a dos integrantes da equipa que foi quarta-feira “atropelada” no Stade de France. Em alta competição não se pode preparar um encontro da forma como este o foi, com um único treino 24 horas antes; sem jogadores que deveriam estar presentes e fugiram às responsabilidades sem consideração pelos companheiros. E não é admissível que quem está no cume da pirâmide do futebol português ache normal tudo aquilo que se passou, a começar pela forma como se entalou o jogo entre as datas da competição caseira. A FPF e a Liga têm de estabelecer pontes mínimas de diálogo. E se estes jogos não fazem sentido em tão delicada altura da época, então que se estabeleçam regras para não se assinarem os respectivos contratos. Assim é que não!
De resto, e até do ponto de vista estritamente futebolístico, Portugal bem pode agradecer à França estar de volta à realidade, à crueza de perceber o longo caminho que ainda separa uma equipa com qualidade de uma equipa de campeões. Encurtar essa distância passa pelo solidificar da atitude competitiva e pela descoberta de alguns futebolistas que possam acompanhar de mais perto o valor dos líderes da selecção. Por exemplo, desta vez, por necessidade, Figo tentou fazer de Rui Costa. Não se ganhou Rui Costa e, pior, perdeu-se também Figo.
Agora, depois de disputado o jogo, pode especular-se sobre se não teria sido melhor Portugal não ter abdicado completamente do sistema em que está rotinado, o 4x2x3x1. Hugo Leal talvez tivesse sido a melhor opção para render directamente Rui Costa, libertando Figo da tortura de jogar tão longe da baliza e das alas. Sobretudo com algumas opções, entre as quais avultou a junção de Nélson e Rui Jorge no flanco esquerdo, a equipa perdeu capacidade para se bater de igual para igual. E Rui Bento também não foi nada feliz no retorno ao convívio com os amigos de longa data, ainda por cima com a missão de vigiar um dínamo da grandeza de Zidane.
Ao descaracterizar-se, entrando tão retraída, encolhida, assumindo toda a infelicidade dos últimos dias, a equipa terá perdido personalidade e a alegria necessária para uma tarefa à partida tão complicada quanto a de enfrentar a melhor equipa do mundo na própria casa dela. Não se tratava, já, de ir à procura de uma desforra. Era, desde logo, o reconhecimento que nesta altura, na conjuntura conhecida, com esta composição ao nível de jogadores, a equipa não estava à altura de se bater com o adversário em todas as zonas e em todos os capítulos do jogo. Puro realismo, dir-se-á. É uma tese. E não vale a pena, neste contexto, sequer falar de coisas que noutras circunstâncias fariam sentido, como estratégias alternativas e velocidade de substituições. Fique-se pela confirmação da repetida afirmação do treinador nacional: em futebol não há milagres.
A França nem sequer surpreendeu. A equipa não precisa de ter saudades de um capitão tão carismático quanto Deschamps, porque Vieira é um centro-campista cada vez mais completo e vertical – uma rocha contra a qual Rui Jorge se fartou de embater e cair. E Silvestre, chamado a substituir Leboeuf (o sucessor de Blanc), foi tão feliz que marcou ao quarto jogo. Sendo que a equipa é, pois, a mesma, impõe-se registar a manutenção do espírito definidor das grandes equipas. A França, que rodou todos os elementos menos os dois que jogam em casa (Anelka e Ramé), continua a ter uma equipa ambiciosa, capaz de se motivar a todo o momento, com todos os desafios, inclusive este de ter pela frente uma formação contra a qual nunca perdeu um jogo oficial e derrotou sempre nas alturas necessárias. Sendo assim, está no caminho certo e Portugal tem aqui o melhor exemplo a seguir, por muito que esta derrota tenha desalentado a população futebolística nacional e, sobretudo, os cerca de 30 mil portugueses presentes.
O importante agora, além de reconhecer os erros que não permitiram preparar o jogo de forma profissional, é ressalvar o valor da selecção nacional e não cair em depressões desnecessárias e injustas. Os nossos futebolistas já deram provas suficientes de um valor que não se revê, apesar de tudo, na dimensão desta goleada. Além do mais, deve ser enaltecido o gosto pela selecção que levou os jogadores que actuam no estrangeiro a não cometer o pecado de fugirem a um confronto tão desigual nesta altura. A dignidade de Figo, Fernando Couto, Sérgio Conceição, entre outros, deve ser, aliás, a única coisa a não esquecer. Quanto ao resto.
Os golos
16' - Wiltord: 1-0
Zidane encontra Pires no flanco direito, que faz a bola chegar a Thuram. Este devolve ao luso-francês, que vai até à linha de fundo e cruza para a entrada da área, onde Wiltord aparece liberto de marcação a rematar. A bola tabela nos calcanhares de Meira e encaminha-se devagar para a baliza, traindo Quim.
31’ - Silvestre: 2-0
Quinto pontapé de canto consecutivo para os franceses, desta feita cobrado por Petit do lado direito do ataque gaulês. O médio do Arsenal coloca a bola ao poste mais distante. Vieira ganha nas alturas a Abel Xavier e devolve a bola para a zona frontal, onde Silvestre remata à meia volta, sem defesa para Quim.
33’ - Henry: 3-0
No lado esquerdo do ataque francês, Pires faz um passe entre Abel Xavier e Fernando Couto para Henry, que se isola e remata rasteiro, fora do alcance de Quim, que, entretanto, tentava fazer a “mancha”.
80’- Djorkaeff: 4-0
O lance inicia-se numa saída de Barthez fora da área. Os franceses passam ao ataque sempre com a bola jogável, desenvolvendo o lance pelo flanco esquerdo, por Candela e Pires, o qual endossa a bola a Henry. Este cruza para Trézéguet, com Petit a tirar Jorge Andrade do caminho com uma simulação. Djorkaeff vem de trás, isola-se e “pica” a bola sobre Quim.